Poética

A sorte que passou em minha vida

Um trevo de quatro folhas. Fazia tempo que buscava por um. Não sei por que coloquei isso na cabeça. Toda vez que via algum verde, meus olhos queriam pousar na sorte. No amor, a vida vai mais ou menos. No trabalho, aquela eterna busca de sentido. Na família, confusão. Nas amizades, falta tempo. Nos estudos, prioridade. E no caminho, todo dia, eu buscava um trevo de quatro folhas. Como se a sorte fosse chegar e arrumar minha vida.

Então, eu vi, do ônibus: o trevo de quatro folhas. Na porta. Estava longe de onde eu precisava descer. Só vi porque estava distraída. Logo o carro seguiu. Assim entendi: sorte não é de arrancar. Não é de pegar. Não é de ter. Sorte não fica. Sorte passa. Passa do lado de fora do ônibus em que você está. Sorte acontece. Acontece quando o amigo te manda sua própria playlist de bom dia. Acontece quando o céu é azul e o clima é agradável. Acontece quando a Lua sorri e te dá vontade de sorrir de volta.

Sorte é quando você esbarra com alguém num show justamente no momento em que fala dele. Sortes se reconhecem: “Ultimamente tenho acreditado muito.” Porque sorte é deixar o beijo de despedida na linha amarela do metrô. Deixa o beijo. Assim, outras pessoas pegam. Outras pessoas veem. É que sorte é para quem acredita, sobretudo, em si mesmo. No seu próprio olhar, escutar e tocar. Não no(s) que esperam. Sorte é reconhecer que errou enquanto ainda dá pra pedir desculpa. E, depois disso, não ter hora para voltar pra casa.

Sorte é dar de cara com a melhor amiga, por acaso, na sua própria rua, com tudo pronto para colocar o “a” na frente do braço. Sorte é pai que liga e avisa que tá mais difícil de falar com a própria filha do que com o presidente. Sorte é mãe que se importa. Sorte é samba que acaba em sol. Sorte é encontro que dispensa futuro porque acredita no acaso. É recorde de pedras empilhadas. Sorte é lembrar de sonho. Sorte é silêncio a dois, interrompido por sussurrar gritante. Sorte é colo em dia difícil. É salvar a joaninha que se afogava na gota d’água.

Quando aquela pessoa liga e fala “preciso conversar”, justamente quando você precisa ser ouvido. Quando ser ex não te machuca, e você até consegue rir disso. Quando o remédio natural funciona. Quando a prece chega. Quando a água do chá ferve. Quando a fonte combina perfeitamente com o design. Quando sua irmã acorda antes e coloca a música que você queria ouvir. Quando você percebe que sua eu do passado adiantou a vida pra você no futuro – e olha só: aquela data programada chegou e você só precisa aproveitar.

Quando você acorda com o dia. Quando a cama está feita. Quando tem presente em vídeo. Quando aprendo fazer minha unha. Quando costuro a roupa. Quando revelo foto e escrevo atrás: obrigada pela memória. Quando toco ou coloco pra tocar. Quando tem “check”. Quando tem presença. Quando tem cuidado de beijo na testa ou de erva no pé. Quando a doença avisa. Quando o oráculo confirma. Quando você confia. Quando aquela reboladinha cabe perfeitamente na música.

Quando é lido, quando elogia, quando chora. Aquele momento em que a gente se dá conta de que tem uma amiga do circo, uma amiga taróloga e um primo médico. E de que não ir pra festa para ser companhia de hospital é que faz sentido. Quando a gente compra roupa de marca que se preocupa com o ambiente. Quando a gente recusa o cigarro – ou o que não nos cabe mais. Quando termina o livro e precisa contar a história que não pode ficar só na gente. Quando o marido limpou o cocô da cachorra sem você pedir. Quando você lavou a louça sem que pedissem. Quando percebe que não precisa mais de mapa, porque decorou o caminho.

Sorte é quando. É pouco. Pode durar quase nada. Porque é passagem, ou piscar de olho. Mas tem tanto caminho. Tantos ônibus, bicicletas e pés. Tanta possibilidade. Tantas mãos dispostas. Tantos olhares postos. Tantos corações abertos. Tantas flores para nascer. Tanta água pra chover. Vê? Não é sobre achar. É sobre reconhecer. E eu te dou as minhas. Porque sorte é troca. Qual a sua? Quando é? Qual o cheiro dela? E a cor? Tem nome ou nota? Palavra ou silêncio?

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