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São Tomé das Letras: um passeio pela Cidade Mística

Juscelino da Silva nasceu na cidade mineira de São Tomé das Letras há 32 anos, e de lá pouco saiu. Trabalhava em pedreiras, como boa parte da população local, até que há três anos, quando o lugar retomou seus tons mais turístico de outrora, começou a guiar os visitantes para cachoeiras, grutas, e algumas experiências transcendentais.

Ao longo dos 18 quilômetros entre o centro da cidade e a Gruta do Sobradinho, Juscelino foi misturando à poeira da estrada de terra um pouco de prosa sobre as descobertas que fez, em sua própria terra natal, ao interagir com os viajantes.

De saída, aponta, enquanto dirige, uma igreja de pedra construída por escravos. À esquerda, um ponto de ônibus feito de barro, semelhante a um casulo. Logo à frente, mostra um monumento de dois pilares, erguido para marcar um local de observação de vida extraterrestre. “Olha, dependendo do que o sujeito tomar até vê umas coisas. Eu, mesmo, nunca vi E.T.”, diz o guia, que em seguida conta, em tom banal, que desde criança ele e outros moradores estão acostumados a ver luzes que sobem, descem, descrevem círculos e outros padrões incomuns, “mas nada demais”.

A 350 quilômetros ao sul de Belo Horizonte, São Tomé é tida como um dos “chacras da Terra”, um ponto de convergência de energia cósmica, atraindo comunidades místicas, espiritualistas, alternativas e ufologistas. Por isso, o lugar também é conhecido como Cidade Mística.

Um pouco adiante, Juscelino mostra uma comunidade que promove rituais de Santo Daime em uma igreja redonda e cor-de-rosa. Lá, bebem chá de ayahuasca em busca de purificação. “Uma vez eu vim aqui e experimentei, disseram que ia ser bacana, só que eu vomitei até o coração, e via monstros na minha mochila, querendo me pegar, saindo de dentro de mim. Cruz credo. Não tomo mais desse negócio, não”, diz entre risadas.

O guia conta que, durante feriados e festivais, os turistas povoam a pequena cidade e o consumo de drogas é praticamente generalizado. “Em uma dessas festas um gringo deu cogumelo pra mim e meu primo, foi a única vez que eu usei droga, e meu primo ficou mais doido do que o Batman. Tive que internar ele em um hospício de Três Corações, e só voltei para buscar dali quinze dias. Agora ele está bem”.

A cidade para que Juscelino levou o primo é vizinha e consideravelmente maior, com 77 mil habitantes, e fica a uma hora de carro da Cidade Mística, que tem apenas 7 mil moradores.

“É pra lá que vou quando preciso de qualquer coisa”, diz o guia turístico relembrando um episódio em que recorreu a Três Corações às pressas. Em um sábado, Juscelino levou uma cigana para participar de um ritual de celebração da lua cheia. Enquanto dançava ao redor da fogueira, a mulher foi picada por uma jararaca, cobra peçonhenta frequente na região. “Eu tive que correr com ela até o hospital. E é assim, tudo tem que ir até lá. Se eu quiser comprar roupa, só tem lá. Roupa normal, né, porque aqui só vende essas roupas esquisitas e chapéu de bruxa”.

As roupas de que Juscelino fala são blusas tingidas por métodos caseiros, sandálias de couro feitas à mão, calças largas, estampadas e de algodão. Ele, por outro lado, usa camiseta e boné de estampa militar, bermuda, e um par de tênis preto.

“Falando em bruxa, olha ali”, diz apontando para um portão cercado por muros altos. “Uma vez vim trazer uma bruxa aqui à meia-noite. Entrei e ela pediu pra eu esperar até terminar. Rapaz, a hora que eu vi aquele bando de mulher de capa vermelha e preta, carregando tochas, falei pra ela me ligar que eu voltava depois. Tinha um caldeirão do tamanho de um poste”, afirma em tom alarmado.

Outro lugar frequentemente procurado, conta o mineiro, é uma comunidade que oferece comida e cama em troca de trabalho. “Eles vêm para cá dizendo que querem ser hippies, mas, olha, o que acontece ali é trabalho escravo. Eu aviso que ser hippie aqui é morrer de fome”, diz pela primeira vez em tom sério.

Chegando ao destino, Juscelino recebe a informação de que uma jararaca foi vista na gruta, e que o dono da propriedade, quando avisado sobre o réptil, recomendou aos guias: “usem bota”. “Eles cobram para visitar um lugar que era da natureza, mas nem água pra beber oferecem, nada de segurança. Custa tirar a cobra de lá? Mas aqui é assim: ou você nasce e vai quebrar pedra ou vai trabalhar com turismo, não tem jeito”.

Juscelino, ao despedir-se revela ainda um sonho: “Daqui vocês vão para São Paulo? Êta vontade que tenho de conhecer essa cidade. Um dia vou pra lá”.

Para conhecer São Tomé das Letras

No centro da cidade: São Tomé das Letras é pequena, e é possível fazer alguns passeio a pé, como a trilha da Pirâmide, que leva por caminhos com vistas de um mar de montanhas até a Casa da Bruxa, uma construção situada no ponto mais alto da cidade. Este é o local ideal para quem quer assistir ao pôr do Sol e ficar um pouco mais para ver as primeiras estrelas do céu noturno.

Para conhecer os arredores: do centro da cidade, partem carros que levam a passeios turísticos por cachoeiras, grutas e outros pontos turísticos, como a Ladeira do Amendoim, famosa por fazer os carros “descerem para cima”, um mistério que longe das lupas científicas parece mesmo magia.

Todas as cachoeiras de São Tomé, como é característico de Minas Gerais, são exuberantes e cristalinas, e para além disso, as região ao redor da cidade é conhecida por abrigar as borboletas coloridas e de diferentes formatos. Uma das cachoeiras, inclusive, leva esse nome: Vale das Borboletas. Ela é a mais próxima do centro, e pode ser acessada com carro de passeio particular.

Para as demais, é aconselhável pagar pelo transporte, porque as estradas de terra são extensas e nem sempre nas melhores condições. Vale a pena, também, visitar ao menos uma das grutas, e experimentar os cheiros e sons que surgem em meio ao breu das rochas esculpidas pelas águas.

Outras atrações são as casas de magia e retiros holísticos. Um exemplo é a Fundação Harmonia de Artes e Conhecimentos Transcendentais, uma entidade filantrópica sem fins lucrativos, que abriga diversas obras de arte e de arquitetura em tamanhos monumentais, e conduz os visitantes a um passeio de uma hora pelas dependências e por sua filosofia.

Categorias:Lugares, Viagens

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