Poética

Um encontro no espelho

Olhei-me no espelho. Hoje coloquei um brinco, um anel e um colar (sigo com aquela mania de uma coisa de cada). Então percebi, só porque era a única coisa que fazia, que me via bonita. Meu cabelo cresceu.  Agora minhas nucas são mais discretas e meu olhar é mais longo. Minhas unhas estão mais fortes e mais compridas, apesar de ter mais de um mês que não faço. Minha pele está mais equilibrada. Ainda que a menstruação seja tão irregular. Ando fazendo a cama todos os dias. Cuidando mais das minhas próprias roupas. Trabalhando com o que gosto – e enxergando com clareza o que fazer com o que não gosto. Aceitando muito mais as pessoas. Atenta ao que coloco para dentro: é importante que ele esteja em equilíbrio do lado de fora. Respiro com facilidade. Caminho ereta. Meu óculos lilás combina com minha cor branca amarelada. Estou cheirosa. Sinto dores, mas me cuido como se fosse minha única preciosidade. Sinto-me forte e esse sentimento veio com definições na batata e na barriga. A minha flexibilidade e persistência já me permitem encostar a cabeça nos joelhos com ambos esticados. Tenho saído praticamente todos os dias da semana – para estudar ou encontrar amigos. No fim de semana, trabalho, leio e assisto. Combino comigo. O cabelo, tenho usado um pouco atrás da orelha, mas pretendo marcar com Edu um novo corte ainda essa semana. Meu corpo tem reagido às besteiras que como, e eu consigo ouvi-lo. Sonho e lembro quase todas as noites. Acordo feliz e agradeço. Tenho gosto de alívio. Planejo e faço. Sinto falta de beijar na boca todos os dias. Penso em você quando sei que você ia gostar tanto ou mais que eu de alguma peça de teatro. Ou de uma casa. Ou de um livro. Gosto que você esteja nas minhas melhores memórias artísticas. Você sabe. Quando me olhei no espelho, notei tudo isso. Também te vi refletido como parte de mim que sempre está. Quis te falar assim: “olha como eu tô bonita!”. E você sabe que não é provocação. Para isso, poderia usar de outros meios. E você também sabe que não é superioridade, nem que estou me exibindo. É verdade, amor. É amor. Porque você me lê. E sabe. Porque me reconhece, me enxerga e é em mim. Sabe que eu dormi bem. Sabe que eu acho quase todas as pessoas do mundo meio sem graças.  Sabe que eu tenho sentido essa vontade danada de dançar forró. Sabe que eu tenho visto as horas iguais. Sabe que têm acontecido coisas malucas. Sabe que é tão raro esse sentimento de me olhar sem críticas. Sabe como foi sofrido o caminho para me suportar. Sabe que eu só sou porque teve você. E, principalmente, porque não teve mais. E isso me obrigou aprender a descobrir sozinha os caminhos de  São Paulo. A ler e a assistir sem ter sua opinião para completar a minha. A me reaproximar dos meus amigos que tem muito mais graça do que eu achava. A olhar para minha irmã e propor um dia nosso, na cozinha ou na rua. A comprar um apoio de celular. A ligar mais para os meus pais.  A ler sem ter hora para acabar. A prestar atenção nos nomes das ruas. A escrever como se isso fosse o caminho possível. A ouvir como se eu soubesse tocar. A inventar personagem do filme que a gente nunca fez. A experimentar tomar cerveja. A estar nos lugares sabendo que eles poderiam ser meus, assim como eu deles. A respirar. A ir na médica homeopata. A aceitar a saudade. A escolher os lugares. A fazer contas de gasolina e diesel. A comprar um só ingresso de show. A negociar com meu prazer e com minha solidão. A sustentar a desaprovação da frase machista sem compartilhar. A brigar sem torcida. A vencer  sem aplauso. A fazer sem falar. A unir porque sou. A dançar sem par. A cozinhar sem medo de errar.  A olhar para os homens como uma possível experiência de vida. A olhar para as mulheres como uma certeza de experiência de vida. A olhar para mim como você já testemunhou: minha. Olha como eu tô bonita.

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