Fotografia

“Uma foto, um texto”: Vidrado

A foto:

importunando as pessoas no ônibus

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O texto:

Eu me nego ao clichê do espelho, só consigo me enxergar completo em vidros, em qualquer um e em todos eles. São os vidros que me refletem sempre inteiro, pois do outro lado há tanto de mim que invariavelmente reconheço. Sempre diferente, sempre tantos, sempre indissociável e fantasmagórico. No vidro exercito minha empatia, a complexa habilidade de ser outro, sem deixar de ser eu. De me ver em outros olhos, em outras peles e cicatrizes que, por algum milagre físico, também posso ver em mim. De ter barba e olhos azuis, de ter medo e fé no olhar, sorrisos enquanto permaneço sério, roubando uma alegria que não é minha, de ter roupas e expressões que nunca me serviriam. O vidro é o que te separa do tácito e do ego, que te repele do narcisismo mortal, que te confere a segurança do não toque e ainda assim permanecemos intrinsecamente ligados. Vulneráveis às pedras e pichações, estilhaçados e ofendidos. Contemplo-me em vitrines de butiques chiques, em manequins esquálidos com meu rosto cansado, em bancos lotados com mendigos famintos escorados na calçada, em pequenas peças artesanais que me deformam em silhuetas e cores que nunca terei, em caixões com defuntos que ainda respiram através do meu esparso reflexo no pequeno vitral do rosto sem cor, em aeroportos inundados de despedidas e saudades, em ônibus velozes que me submetem à face a transitoriedade do percurso, e assim sou árvore, prédios, letreiros, passageiros, luzes e céu. Sou menos translúcido com cada poeira acumulada do dia, com a chuva que escorre, com a maresia que embaça a visão, mas ainda assim me enxergo entre tudo que escorre e enoja. Ainda sou eu em tudo que dificulta e imunda meu reflexo inexato. Sou eu no bafo quente que permite o desenho com o dedo de sentimentos que não são visíveis, mas estão ali. O vidro é o milagre quântico do que separa e une, do que limita e agrega, do que ilusoriamente faz um todo despedaçado. Eu me nego ao clichê do espelho, ao amor próprio com a visão imaculada do ser divino que pensamos ser, solitários e inúteis. Só sou digno de amor, complacência e esperanças quando misturado ao mundo que me ressignifica em cada caminho, que me legitima em ser digno de viver por suportar suas armadilhas e maravilhas. Sou mais eu sendo tanto. Tanto sou e ainda assim eu. Vidrado no mundo. 

(Para participar é só seguir o perfil @umafotoumtexto e marcar a foto escolhida no perfil)

 

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