Poética

Diariamente

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Era o último dia de trabalho do ano. 30 de dezembro. Lembrou-se do livro ainda com a leitura inacabada do Veríssimo: “As datas deveriam nos fixar no tempo como as coordenadas geográficas nos fixam no espaço, mas a analogia não funciona”.  Suspirou antes de desligar o computador. Não tinha sido um dia bom, nem ruim. Foi um dia. “Normal”. Caminhou até o carro tirando os sapatos de salto alto. Gostava de dirigir descalça. Tinha apenas pensamentos breves. Coisas práticas como supermercado, contas, melhores caminhos para desviar do trânsito. Pensava no futuro breve. No quase presente. Nada de retrospectivas, de promessas, de fechamento para balanço. Vestiu os sapatos baixos quando entrou no supermercado lotado. “Fim de ano”. Supermercados sempre lotados. “Se ao menos pudesse andar descalça”. O novo calçado não combinava com a saia lápis elegante que as reuniões exigem, mas ela sabia ser bonita mesmo fora de moda. Era só soltar os cabelos antes presos em um coque mal feito e dar um ar mais descontraído ao visual. Ninguém repararia. Peito de peru, alface, tomate da roça, pão, vinho. Nada extraordinário, sem vontades sobressalentes. Caixa de até 15 volumes: vazio. Um boa noite desanimado da cobradora. “Somo duas”. Conta alta. “O vinho”. Voltou ao carro com as compras na mão. “Consciência ecológica numa hora dessas?”.  Entrou no carro e despiu de novo os pés. Menos de 5 minutos até em casa. Porteiro com olhar curioso. “Mulher descalça, descabelada, com sapatos e compras na mão, sua reputação no condomínio vai pro brejo”. Não se importa. Sente uma dor nas costas e agradece por não ser no estômago. “Ao menos uma novidade e o vinho garantido. Deveria ter mais dores que vinhos curam”.  Pensou que não tem tido muitas dores. Nem saudades. Subiu o elevador com duas crianças. A moça do piano,  a menor disse. “Ufa, crianças salvarão minha reputação”. Sorriu. Desceram no andar antes dela. Virou-se para o espelho e se deparou com um semblante quase triste. Melancólico. Acertou as sobrancelhas e tentou se animar. Lembrou do sonho triste que teve na noite anterior. “Sonhos têm me feito sentir mais que a realidade”. Era exagero.  Toda angústia se faz em hipérboles. Lembrou-se do quanto um moço tem sido recorrente nos seus sonhos. “Não faz sentido”. Esqueceu logo em seguida. Enquanto tentava abrir a porta com uma das mãos xingou a maldita consciência ecológica. Encontrou a casa em um silêncio absoluto e abafada. “Você mora sozinha”. Um filme passou em sua cabeça em segundos, não do ano, de toda sua vida. Desde os primeiro resquícios de lembranças até aquele exato momento de mãos cheias e casa vazia. Percebeu o quanto a vida tem sido generosa com ela, com delícias constantes e alegrias diárias. Nada grandioso, mas não era preciso. Só queria ter saudade de alguma coisa. Não conseguiu. Queria sentir. Estava com vontade de escrever uma carta e não tinha remetente. Nenhuma urgência a ser resolvida. Nenhuma palavra engasgada. Tudo em seu devido lugar. Tudo dito, tudo vivido. Sentiu-se perto e longe do que sempre quis. “Que confusão”. Abriu o vinho e encheu uma taça, ignorou o sofá e se sentou no chão gelado. Foi então que seu coração sentiu a pontada. A imagem do seu Cocker vindo deitar entre as suas pernas, ansioso pelo carinho de todo dia. Aquela amizade genuína e silenciosa, cúmplice mudo de uma vida. Lembrou-se que foi com ele que aprendeu a preferir o piso ao conforto dos móveis acolchoados, e da maneira como ele se entregava aos afagos tensos da dona por vezes letárgica, por vezes exultante. Era ele o seu chão. Era nele que a mão dela deixava todos os conflitos cotidianos, que agora se acumulavam sem destino, era nele que os infortunos se descomplicavam, com o olhar terno e os pelos lisos que desembaraçavam qualquer problema .  Chorou. Não de tristeza. Achou o que tinha procurado por todo um dia. Achou o que invariavelmente está em nós nos fins de anos e que lhe fazia uma falta gritante. “Bem vinda, saudade…”

(E você? Tem saudade de que?)

Feliz Ano Novo.

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