Poética

Carta: Ao tempo

Ao tempo,

Não sei como devo me referir a você, ou seria senhor? Não sei, mas acredito que devo lhe falar e com o mínimo de formalismo – o que em aspecto nenhum quer dizer falta de respeito. Já esteve aonde você sempre quis estar, com quem sempre quis estar, como sempre quis estar? Já se ateve simplesmente ao presente, sem esforços, sem precisar reler as páginas do livro de auto-ajuda pra isso?Acho que não. Você se desdobra em tantos, arrasta tudo com você. Pelas piadas modernas você deveria ter um nome feminino, como Irene, Katrina, algo assim. Já experimentou não querer nada de diferente do que você tem? É assim que tenho me sentido. Acredito que você tenha uma grande responsabilidade sobre isso. Não queria estar em outro momento. Não existe a pressa de criança em crescer. Não existem as inconsequências adolescentes que não se preocupam com o futuro, nem a nostalgia e arrependimentos que cercam os mais velhos. Está tudo em seu devido lugar. Tudo acontece com leveza e parcimônia. Tudo é do jeito que deveria ser. É assim que me sinto: equilibrada. Razão e coração unidos. Deve ser a isso que dão o nome de paz. Não é? Quando querer e precisar se conjugam no mesmo tempo verbal? Tempo, tempo, tempo. Por que o senhor é sempre tão relativo? Tão teimoso? Tão do contra. Quando o queremos lento, passa voando. Quando queremos que voe, preguiçoso que só vendo. Um tanto quanto exibicionista você. Está sempre em pauta. Desculpa. Essa não era uma carta de reclamação, mas sim de agradecimento. Devo agradecer por ter levado para longe tantas infelicidades e erros cometidos em um passado recente. Agradecer pelas pessoas presentes que colocou entre as minhas linhas e não nas entrelinhas. Em especial uma que você sabe muito bem quem é, pessoa que me fez acreditar muito em você. Agradecer a serenidade e as possibilidades que se abriram para mim através de você. Agradecer as histórias bonitas que tenho certeza que você fará questão de eternizar. Agradecer os ensinamentos que organizou tão decentemente nos meus dias. Agradecer por ser flexível e sincero com aqueles que eu amo, fazendo com que as verdades sobressaiam as mentiras inventadas por aqueles que, por um motivo ou outro, necessitam delas mais do que a si mesmos. Agradecer os tantos “para sempre” que você tem sugerido na minha história e tantos “Era uma vez…” que tem escrito. Agradeço o sono tranqüilo e os desfechos coerentes. Você tem sido bom para mim e eu espero poder retribuir a altura. Quero também elogiá-lo pelo seu trabalho noturno. Eu, como notívaga assumida, sou fã dos seus talentos obnubilados pelo silêncio e pelo escuro da noite. A noite legitima todas as sensações do dia. É a noite que a gente peneira tudo e só o que é ouro fica. É a noite que a gente sente o corpo quente em conseqüência do dia de sol. A gente só se lembra, só sente, só reflete e assimila sobre o essencial na quase madrugada. Os restos ficam sujando as horas que precedem a meia-noite. O resto se perde, se dilui entre os minutos, entre as memórias banais. A noite a dor dói, a saudade nasce, o amor impera. A noite o corpo exala as sensações, expõe a solidão, despe as fantasias. A noite, o silêncio é sagrado e o escuro evidencia o invisível aos olhos. Tudo graças ao seu trabalho minucioso de garimpagem. Imagino seus critérios rígidos e seus perfeccionismos. Mesmo que por diversas vezes nós discordemos. Mas sei que você sabe o que faz. Eu confio em você. É por isso que tenho que agradecer a sua generosidade e eficácia comigo. Obrigada pelo desenho perfeito de melhor ano da minha vida. Obrigada por finalmente se colocar transparente e honesto a minha frente. Obrigada por me lapidar cuidadosamente a este ponto, de estar apta a lidar com maturidade com você. Obrigada pela serenidade e pela aceitação. E como um último pedido: cuide com atenção das pessoas que tem colocado no meu caminho para que elas o cruzem, permaneçam e partam sempre no momento certo e que eu possa absorvê-las da melhor maneira possível. Que os finais sejam doces e que os começos dignos da sua complacência. Vá sem pressa daqui adiante. Observe a paisagem e esqueça um pouco seu compromisso. Não seja tão implacável. Descanse, relaxe. Pare para um café, uma água. Permita que os sorvetes não derretam e que os beijos não sejam interrompidos. Eu aposto que você vai se divertir se arriscar.

Da sua mais nova aliada,

Fabi Mariano

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