Comportamento

Pernambuco, terra da gentileza

Uma semana entre Olinda e Tamandaré foi suficiente para constatar que nas terras de Pernambuco, além de cana-de-açúcar, brota muita gentileza. Por onde passei, só encontrei pessoas cujo primeiro impulso é sorrir quando os olhares se encontram, e não desviá-los, apressados, desconfiados.

Foi nesse pedaço de terra nordestina em que um homem desconhecido veio ao meu encontro, turista perdida de mapa na mão em uma ladeira escura, e conseguiu fazer-se confiável. É lugar de gente tão aberta que faz perder o medo de se abrir também.

Foi lá onde vi amizade surgir mais espontaneamente do que onda no mar, quando uma mulher sentada ao pé da escada de sua casa, convidou outra mulher, que passeava com seu filho de 8 anos e um labrador, para entrar em seu lar. “Oooi, que cachorrão bonito”, e mais três ou quatro frases, “vem cá, sobe aqui, vem conhecer meus cachorros”. Uns quinze minutos depois, descem todos de volta à rua, rindo, e o menino carregando um pote de doces. “Volta aqui dia desses de novo, traz o Simba também”.

Outro exemplo veio no último dia. Eu precisava lavar o carro antes de devolvê-lo para a locadora a fim de economizar trinta preciosos reais. Vi um homem com uma mangueira e a pedi emprestada. Ele regava algumas plantas na entrada do hotel, e foi quando eu percebi que a mangueira vinha de sua casa, logo ao lado. Pedi desculpas e disse que não era justo usar a água dele para isso.

A cocada gigante de Luís. Crédito: Divulgação/Prefeitura de Ipojuca

“Aqui não é São Paulo. Aqui a gente vive de ajudar o outro, não existe isso de individualismo. É assim que a gente faz aqui”, dizia Luís enquanto molhava o meu carro e me estendia um esfregão para eu ensaboá-lo. “Eu morei dois anos em São Paulo, na zona leste, e eu nunca ganhei tanto dinheiro na minha vida quanto nesse tempo, mas eu não fui feliz um dia sequer”.

Luís tem cerca de 50 anos, dois filhos surfistas, cabelos brancos, estatura média e sua regata branca exibe braços magros, porém musculosos. Ele se apresenta com o sobrenome “da Cocada Gigante”, por ser responsável pelo maior doce do mundo: 33 metros de açúcar e coco. Há 20 anos, o festival acontece em Maracaípe, sempre no final de julho, época chuvosa que afasta os turistas – exceto os que vêm provar o doce. “Nunca ganhei um centavo com cocada, faço só para as pessoas comerem, mesmo”, disse, enquanto enxaguávamos o veículo.

Não é possível, contudo, desenhar o paraíso. Os índices de violência são altos e o IDH é médio. A pobreza é gritante e a concentração de renda é escancarada. Também não sei como é a vida cotidiana aqui, fora dos grandes centros turísticos. Tampouco sei como seria tratada se eu tivesse outro fenótipo ou outra identidade e expressão de gênero. Ainda assim, do jeitinho que sou, nunca recebi tanto calor humano e tanta gentileza e generosidade em outros lugares igualmente turísticos.

Para além disso, não vale a pena analisar os motivos de os pernambucanos serem como são. Eu gosto de pensar que há algo de especial aqui, uma leveza para ser sentida, não compreendida. Ainda assim, não dá pra ignorar que vem das ondas do mar esse poder de quebrar qualquer dureza que possa haver em nossos corações.

Praia de Muro Alto. Crédito: Ingrid Matuoka

Nota cultural e outras dicas

Em Recife, além do Instituto Ricardo Brennand ($25 por pessoa), mansões que abrigam coleções de arte, e a Oficina de Cerâmica ($15 por pessoa) também dos Brennand, vale a pena conhecer o Paço do Frevo, um museu interativo cujo ingresso custa oito reais. Além do espaço ser colorido, cheio de luzes e de histórias, a Luciana, uma exímia bailarina de frevo, conduz uma aula da dança com os visitantes.

Logo em frente ao Paço do Frevo há ainda o teatro (e bar) Mamulengo, que pede uma parada. Lá, ao cair do Sol, costuma acontecer uma ciranda de Maracatu.

Olinda, a charmosa cidade histórica de Recife, fica a 20 minutos do centro, e dá pra ir de ônibus. Por ser muito pequena, um dia a pé pode ser suficiente para conhecê-la, desde que se tenha fôlego para aguentar as ladeiras. E quando for visitar a Casa dos Bonecos Gigantes de Olinda ($10 por pessoa), não hesite em pedir para experimentar carregar um deles!

Sobre as praias, as mais bonitas e menos lotadas são as de Muro Alto e a praia dos Carneiros, vizinhas às de Porto de Galinhas. Se for de carro, vale a pena ir de Recife até elas pela Rota do Paiva, que garante a vista das praias durante a uma hora e meia de estrada. E se sobrar tempo, a paradisíaca Maragogi, em Alagoas, fica a mais uma hora e meia de distância de Porto de Galinhas.

Categorias:Comportamento, Lugares, Viagens

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