Poética

É preciso sangrar pra fazer valer a dor?

A valorização do excesso, do grito, da exposição e da dor tem me invadido. É preciso que o outro sangre para a gente perceber que dói? Eu, que sempre fui das implosões e do estômago revirado, questiono: onde você enterra sua dor?

As minhas são trituradas e mastigadas feito carne de segunda. Até dissolver ou sair vomitada – por corpo ou palavra. Enquanto o movimento do outro chega aqui e fica. Porque entendo que para alguém se manifestar, alguém ampara. Feito rocha.

Com cuidado absoluto, permaneço. Amparo o olhar, a palavra, o ouvido, o corpo. Mal cabe eu me dividir – porque quando aceito, já sou o que escuto e vejo. Abro o peito. Reconheço o que não é dito: aquilo de dentro.

Doou-me. De doar e de doer. Completamente. Peço ajuda silenciosa, de quem desacelera para entender o incomunicável. Ouve só. Aquela pessoa que não destoa, que não cria movimento brusco, que mantêm, sustenta o brilho. Entende? Aplaudo. Hora de reconhecer: tem gente que veio para ser público. Faz parte do show.

Categorias:Poética

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