Poética

Cena de Cinema: A festa

15 dias sem se verem depois de dois meses de romance tórrido. Era brasa ainda quente, que com vento leve faz fogaréu. Temos um relacionamento novo, talvez breve, e velado. Pela profissão e ideais de ambos, o anonimato nos cai bem, e os segredos se esvaem entre toques sutis, palavras sussurradas e mensagens criptografadas. A bela cumplicidade dos amantes, que finge não ser feliz só para ser mais um pouquinho, a revelia dos outros e dos demais. Após duas semanas de viagem dele e de intenso trabalho meu, que permaneci e não fiquei – porque ficar é verbo que pressupõe abandono – ele reapareceu em forma de sussurro ao pé do ouvido, primeiro voz, depois cheiro e só então corpo. Consegui vê-lo se apropriar de cada pedaço meu como quem já conhece bem os caminhos e eu sinto novamente os calafrios misturados a qualquer febre de alma ao escrever esse relato. 

– Tem um arrepio no seu pescoço, posso assoprar?

Eu conversava com três amigas quando ele me surpreendeu pelas costas, sem me tocar, só com a voz. O sopro veio leve e balançou alguns fios do meu cabelo solto. A minha pele inteira se contorceu em espasmos prazerosos e assustados, o súbito da paixão. Disfarcei como pude e agora  confesso que devo ter fracassado inteiramente. 

– Oi … tudo bem? Como foi de viagem?

Disse lhe dando um beijinho desses de encontros casuais, sem qualquer insinuação de saudade. Um só. Somos dois paulistas e entre nós dois não existe a complacência da malandragem carioca. 

– Foi ótimo, o deserto é um bom lugar para estar quando você sente o suficiente para não se sentir sozinho. E você? O que fez? 

-Eu? Fui o extremo de mim. 

– Como assim? 

– Fiz tudo que mais amava, estive com as pessoas que eu mais gosto, me empenhei sobremaneira em tudo, acho que sendo o máximo de mim deve ser o suficiente, e a única forma possível, para que os sentimentos alheios se encontrem em mim e voltem. Entende? 

– Você nunca saberá o que é um deserto, Fabi. 

– Eu já soube um dia. Vivi em um. 

– Deve ser por isso que tem uma sede na sua boca. Posso matar? 

A voz falhou, os olhos não. Ele gosta quando eu sorrio com os olhos e eu gosto como ele sempre me provoca essa reação. O grupo de amigos em comum apareceu bem na hora querendo saber detalhes da recente aventura e dos projetos de sucesso. Ganhei de um deles um Mojito em copo suado. E ele um soco desses que revelam a íntima amizade masculina. As curiosidades e uma meia dúzia de outros corpos nos separaram novamente. Bebi o drink, a sede ficou.

Tempos depois, uma hora, duas, conseguimos na varanda da mansão do aniversariante alguma privacidade e alguns dos melhores momentos do início de uma noite. 

 – Eu te ofereceria uma taça se isso não fosse quebrar todo o propósito da minha última pergunta

Disse ele se aproximando com um vinho na mão e sem de fato oferecer, continuando a conversa como se o espaço de tempo que nos separou não tivesse existido. 

– Gosto de pessoas que se baseiam em propósitos para ações

– Obrigado

– De nada 

– Não vai perguntar qual o meu? 

– Não, bons propósitos não precisam ser explicados, eles apenas acontecem

– Droga 

– Que foi? 

– Estava pronto para uma chantagem para saber o que você desejou ao soprar as velas do seu aniversário olhando pra mim

– Hahah não esqueceu isso ainda? Não vai saber. Mas, soprei junto aquela sua quase ameaça sussurrada, cuidado com o que deseja

– Você teve cuidado?

– O único cuidado que tenho tido é ser extremamente sincera quanto  a tudo que eu quero. A vida flui muito mais fácil quando é assim. Sem meias palavras. 

– O que você quer? 

– Agora? 

– Sim. 

– Matar a sede. Você deveria saber. 

– E em setembro? O que quis? 

– Eu não quero saber seu propósito. 

– Como você sabe que o meu propósito é bom?

– Eu não sei 

– Você disse “bons propósitos não se explicam, acontecem” 

– Não foi uma validação, foi uma responsabilidade jogada descaradamente no seu colo. 

– Eu aceito. Não há propósitos sem responsabilidade. Nem possibilidade de refugo ao imaginar qualquer coisa sua no meu colo. Não te deixei me chamar de “moço” à toa. 

– De novo essa história de que moço remete a alguém inconsequente? 

– Você concordou comigo na noite em que discutimos isso. Jamais vou deixar você me chamar assim. 

– Ainda não te arrumei um vocativo. 

– Eu não tenho pressa. 

– E quando eu precisar te chamar?

– Você vai arrumar um jeito quando precisar. Enquanto isso, estou aqui. 

– Eu realmente queria ir embora dessa festa.

– Eu realmente queria chegar, pois é como se eu ainda não estivesse aqui com essa distância de três centímetros entre nós. 

– Você voltou inspirado… 

– A tática do máximo de você é muito eficiente. Você sabe que é altamente amável. 

– Senti sua falta.

– É possível ser o máximo e sentir a falta de alguém? 

– Sim. Porque tem o máximo e tem a completude. Entende?

– Você tem ideia do quanto isso é bonito? 

– Deve ser algo parecido com esses olhos verdes … 

– Te espero no estacionamento em 15 minutos?

– Ok. 

– Em 10, te espero em 10 minutos…

– 5? 

– Você desce pela esquerda e eu pela direita. Agora. 

 

Vento, sede e fogo. 

Categorias:Poética

Marcado como:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s