Comportamento

Eu nunca entendi a graça das artes marciais – até experimentar

Eu nunca entendi a graça das lutas e artes marciais, e tinha inclusive uma postura arrogante diante dos praticantes e dos espectadores. “Coisa besta essa de gostar de bater e apanhar!”, dizia. Até que eu experimentei pela primeira vez.

Fui com uma amiga faixa marrom em Kung Fu fazer uma aula de Sanda (lê-se sandá), uma modalidade de boxe chinês. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a energia de disciplina e assertividade que reina sobre o tatame.

Eu, praticante de circo, estou mais acostumada à leveza, à brincadeira e às risadas entre um agachamento e outro – fora que vestia uma camiseta rosa-choque com a fuça de uma onça estampada, quebrando a uniformidade das blusas e bermudas pretas com bordados em dourado dos outros alunos.

Mas não que o professor e os aprendizes fossem carrancudos ou sisudos. Ao contrário, eram bastante doces, mas tive de seguir um espaço e uma posição especificamente delimitadas a mim e acompanhar o ritmo uniforme e coletivo em cada movimento.

Aproveito para confessar que, no mesmo espírito circense da camiseta pink, senti uma alegriazinha de usar pela primeira vez aquela luva bonitona de pow pow pow que acompanha muito bem a cara de malvada que eu não sei fazer.

Mas, de volta ao Sanda, em duplas aprendemos a dar socos e chutes. Um bate, o outro toma. Não no corpo, mas em uma almofadona bem acolchoada que eu aprendi que se chama manopla, e que a sua dupla segura com as mãos.

E no meio desse fluxo, entre golpear e absorver a força do outro, aconteceu. Bem no meio do meu peito, eu senti todas as minhas raivas e frustrações se mexendo, fervilhando em um caldo de sangue, carne e veias. E evaporando.

Não foi nenhuma situação específica que senti, tampouco estava em um momento ruim, mas veio à tona esse tipo de sentimento que eu nunca soube extravasar na vida, porque sou mais do tipo panela de pressão do que frigideira que explode óleo quente pra todo lado.

Também percebi que acumulo tensão na mandíbula, que tenho dificuldade em me encarar no espelho e me concentrar em mim porque estou a todo tempo buscando aprovação nos olhos do professor. Outra coisa é que a minha ansiedade ficou evidente, porque tive que me educar para aguardar sempre o comando do professor para realizar os movimentos, quando meu impulso era de desgoverno.

Uma hora depois, toda suor, sede e sorrisos, eu me senti leve. Do tipo de leveza que quando a gente respira fundo não sente nenhum caroço no peito. Achei que ia aprender a socar e chutar, e acabei ganhando um mapa para o caminho de me permitir sentir e expressar raiva e frustração de um jeito saudável. E agora fica a curiosidade para saber o que outras pessoas descobrem chutando e socando com luvas vermelhas gigantes e lustrosas.

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