Poética

Cena de Cinema: Eterno amor

Ele tinha passado 3 anos fora. Europa. Quando resolveu voltar, a única pessoa para quem avisou foi ela. Uma mensagem curta no whatsapp: “Estou voltando, não tenho quem me pegue no aeroporto”. Ela respondeu com a mesma brevidade: “Eu vou. Me fala a hora”. Ele falou e ela silenciou. Ele sabia que ela iria, não precisava confirmação, mesmo sendo um voo que chegaria às 4h da manhã. Eles foram apaixonados. Tiveram várias idas e vindas. Até que ele resolveu se afastar. Ela não foi ao aeroporto fazer cena de filmes românticos, por mais que ele tenha esperado por isso. A vida real é outra coisa. Ela sempre dizia. Ela gostava de ter sempre razão. Vangloriava-se de ter a precisão cirúrgica no uso das palavras e, tal como médica, cortava para curar. Às 4 horas da manhã de fevereiro de 2015 eles se reencontraram. Abraçaram-se longamente, procurando naquele abraço a certeza que jamais tiveram em um beijo, nos antigos beijos de anos atrás, o afeto incondicional, o vínculo inquebrável, a amizade que transcendia. Não houve constrangimentos, mágoas ou dúvidas. Apenas confiança e cumplicidade.

– Não vou dizer que senti saudades…

– Tudo bem. Eu não estava esperando por isso. Aposto que saudade do Rio você teve. Está cansado? Ou topa ver o sol nascer na Reserva.

– Eu ainda não acredito que você foi morar tão longe. Claro que topo.

– O Rio mudou muito. Ao contrário de você!

No caminho falaram sobre suas vidas, sobre os prazeres e dores dos seus mundos …

– Tive que me distanciar de você para ver o quanto próximos sempre fomos.

– Tudo tem sempre que acabar em nós dois?

– Essa frase tem muitos sentidos.

– Eu sei.

Ao chegarem à praia, sentaram na areia, o silêncio imperou. O dia, ainda escuro, parecia convidar à contemplação muda. Gostavam do conforto em estar assim, sem cobranças, sem armadilhas dialéticas, sem descontinuidades. A curiosidade quebrou a paz. Ela sempre quebra.

– E aí? Seu coração? Achou a mulher da sua vida na Europa?

– Achei no Brasil. Mas a perdi quando declarei que não a merecia. Com pais advogados não aprendi a não formar provas contra mim mesmo. E você? Amando?

-Amei. Ou não. Sempre invento qualquer outro nome quando acaba. Carência, falta de afinidade, falta de tempo, falta de discernimento para não formar provas contra si mesmo, falta disso, falta daquilo, falta… sempre acaba no cartão vermelho.

– Sabe, quando eu estava quase pousando fiz uma prece. Hoje eu pedi para você não morrer nunca mais

– Eu já morri?

– Várias vezes em mim. E doeu todas elas. Em mim. É assim não, é? A morte não dói no morto, dói em quem a presencia.

– Hum… será que preces podem ser removidas?

– Você quer morrer em mim? De novo?

– Olha pra lá, o sol nasce todos os dias, majestoso, e a gente baba, fotografa, acha lindo. É o maior espetáculo que temos. Morrer várias vezes parece bom.

– Vou ignorar que você não está nem aí para a minha dor. Mas em algum momento pode não renascer. É um risco.

– “Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu, é o fim da aventura humana na terra…”. Talvez quando eu não renascer em você, você encontre a sua pequena Eva e comece uma nova civilização muito mais evoluída que nós, reles mortais.

– Você é cruel.

– Toda mulher é. Não à toa é A natureza. Mãe de todas as maldades.

– Não vou te matar.

– Tudo bem, a noite sempre vem.

– É uma ameaça?

– Uma certeza, quase uma promessa. Quem a gente ama sempre nos machuca.

– …

– Quando foi embora você me disse que só voltaria quando tivesse me esquecido. Esqueceu?

– Sim

– O que vai fazer agora?

– Recomeçar.

– A vida?

– Recomeçar a te esquecer. Não ri. Não ajuda.

– Vamos saber lidar com isso.

– Eu sei.

Ele pegou a mão dela e deu um beijo carinhoso. Ela deitou a cabeça no ombro dele. E as palavras deram lugar novamente à paz. Era possível notar no carinho mútuo que o tempo fez com que eles aprendessem a se respeitar de uma maneira única e se divertiam com o que a vida lhes reservara. Um amor destinado a obediência da cordialidade subentendida. Nada mais seria intenso e vulgar. A sobriedade reinaria entre eles, com a sabedoria de que juntos poderiam mais, mas sem a covarde ambição dos amantes e dos apaixonados. Seriam de muitos, de outros, de alguém definitivo, no entanto, jamais deixariam de ser eles. Ela mais ele. Ela mais ele. Não imortais, mas persistentes, como todo bom amor.

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