Literatura

Do berço ao túmulo – o crime e a literatura no Rio

Quando escreveu seu artigo “As facções cariocas em perspectiva comparativa”, em 2007, Benjamim Lessing possivelmente não imaginava quanto elucidativo seu texto seria para a compreensão da intervenção policial à Rocinha no último mês e à retomada do poder do tráfego no Rio pós instalações e fracassos das UPPs. O artigo, de 10 anos atrás, tem como base entrevistas e depoimentos colhidos em Recife, São Paulo e Porto Alegre, em maio e junho de 2005. Foram ouvidos moradores de favelas, traficantes, ex-traficantes, oficiais de polícia, autoridades governamentais e representantes da sociedade civil. O estudo feito por Lessing tem como principal linha argumentativa a concentração do poder dos traficantes cariocas. Comparado com outros mercados de tráfico, o Rio de Janeiro apresenta traços muito peculiares de ação criminosa. Diferentemente dos outros estados analisados, o Rio possui uma alta concentração de mercado de drogas, um monopólio local de vendas e estabilidade desses mercados ao longo do tempo. Essas características são propícias para que a organização dos traficantes seja complexa, melhor remunerada e de maior dificuldade de enfrentamento. Nos outros três estados pesquisados por Lessing o tráfico é fragmentado. Ou seja, um maior número de microtraficantes atuantes em áreas específicas, o que rende a eles um mercado mais restrito, lucros ínfimos e maior vulnerabilidade com a polícia, além da própria concorrência entre as diversas “bocas”. Consequentemente os criminosos não possuem capital para obtenção de arsenal bélico e tampouco homens para utilizá-los. Assim, os microtraficantes preferem o anonimato, têm como aliados a fácil mobilidade e em caso de repreensão policial optam pela fuga. No Rio de Janeiro o cenário do tráfico é oposto ao apresentado nos outros estados. As chamadas empresas da droga são em sua maioria administradas por um mesmo dono, facilmente substituído e é capaz de oferecer, inclusive, salários fixos e ascensão na carreira dos envolvidos no crime. Com a concentração de mercado os lucros dos traficantes são maiores e geram a possibilidade de manter arsenais impressionantes de guerra. Armamentos antiaéreos, bazucas, metralhadoras são fácil e exclusivamente encontrados em facções cariocas. Tecnologias de comunicação e técnicas de mapeamentos também são investimentos feitos pelos grupos criminosos do Rio. As grandes empresas do tráfico carioca mantêm sua homogeneidade através de ataques fora do seu território, em facções rivais, ataques simbólicos às representações de poder estadual e táticas de terror, como as utilizadas em novembro de 2010, com incêndios a ônibus, manipulação de comerciantes e moradores das comunidades e outras práticas inibidoras. O controle da população é um forte aliado para os traficantes cariocas que através de barganhas clientelistas impõem sua presença como poder paralelo nos morros. Nas palavras de Benjamim Lessing: “tudo indica que o narcotráfico carioca exibe um equilíbrio estável, de baixa variação e com um nível muito alto de organização”. Avaliar as causas dessa diferenciação e concentração do tráfico carioca vai além de justificar a anomalia por meio de uma polícia mais corrupta, geografia dos morros cariocas que dificulta o acesso, políticas de direitos humanos implantadas no passado por Leonel Brizola e a histórica ligação do Rio com tráfico internacional. Para Lessing, o grande problema da segurança pública do Rio de Janeiro está na dominação do sistema penitenciário por coletividades cariocas. A instituição penal é a base repressora do Estado e sua ineficácia compromete toda forma de repreensão à criminalidade. Gangues como o Comando Vermelho possuem controle total sobre a vida nas cadeias o que lhes confere poder sobre o processo da criminalização da cidade como um todo, em especial a prática do tráfico. A recente intervenção na Rocinha é de extrema importância para o desmantelamento das facções criminosas cariocas. A junção de forças do Estado com forças nacionais mostrou que dificilmente um confronto maciço é a opção dos traficantes que conhecem o poder efetivo do Estado quando este se propõe a intervir. Mesmo com forte armamento e inúmeros homens, as rotas de fugas – quando disponíveis – são a escolha dos criminosos que temem ser expulsos por uma invasão policial. No entanto, a análise e intervenção do poder público nas raízes do problema também devem ser consideradas e efetivamente elaboradas. As penitenciarias são o berço da organização criminosa carioca e contraditoriamente deveriam ser o túmulo de toda violência articulada na cidade. Não me foi surpresa ao ler a notícia que o traficante Rogério 157, depois de fugir da maior favela do Rio de Janeiro, se aliou ao Comando Vermelho. O que mais chama atenção é que diferentes livros e artigos, como o do Lessing, abordam essa vertente do problema há anos. “A invenção da favela”, de Lícia do Prado e “O Dono do Morro” – que conta a história do traficante Nem, lançado no ano passado – do inglês Misha Glenny, são algumas leituras que ajudam a elucidar esse que considero ser o maior entrave carioca. A literatura e o estudo como arma de combate. Por que não se munir dela? Por que não atacam o berço do crime? Por que não leem, não se informam, não se dispõem a? Não entendo, ou finjo não entender. Enquanto isso, ficamos à mercê de ver – precocemente – em túmulos aqueles que amamos.  

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