Feminino

Virginia Woolf além de um teto todo seu

De tanto ouvir e ler por aí a famosa frase, não tinha muita vontade de ler Virginia. “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Eu, que tenho uma internet pra lá de ruim, que morro de vontade de ter uma escrivaninha e não tenho, que sempre divido o espaço com pessoas e barulhos, já teria desistido de escrever se levasse a frase solta ao pé da letra.

Claro que dinheiro e teto facilita. Mas o que mais, Virginia? Abri o livro com vontade. Muita mulher que admiro falava dessa outra mulher. Agora sou mais uma falando dela. O livro não é sobre essa frase e esse título. É sobre ser mulher, sobre entender que talvez essa nossa dificuldade tenha alguma razão histórica, sobre a escrita ter diferentes caminhos para diferentes pessoas, sobre reflexões científicas e sentimentais juntas, sobre solidão.

A gente é mesmo muito só nesse mundo. Por mais em bando que estejamos. Por mais ouvidos e olhos atentos, que tanto facilitam essa solidão. Mas fico pensando no trajeto enorme e solitário pelo qual passou Virginia Woolf. Pelos nãos que a gente recebe e segue. Pelas mãos que se soltam no meio do caminho e a gente se vira e reaprende a andar desgrudada. Pela coragem de Fabi, Júlia, Cacá, Juliana, Marcela, Manu, minha, sua. Descobrir-se só e pequena. Sentar a bunda no chão e fazer. Ou tirar a bunda da cadeira e fazer. Sem aprovação alheia, mas com seu próprio significado e sentimento. No fim – no meio e agora -, só resta a gente. Juntamente sozinhas. E fortes que só.

“Um teto todo seu” parecia desculpa para não escrever. Mas é uma injeção de coragem e de resistência nesse mundo. Se quer escrever – e escrever bem: leia. Da forma e onde puder. Não cometerei o erro de influenciar a leitura com minhas aspas escolhidas. Só acho que, apesar da aparente controvérsia, Virginia não discordaria de Bukowski:

“… você sabe, já tive uma família, um emprego, mas alguma coisa
sempre estava no caminho
mas agora
vendi a casa. encontrei este
lugar, um estúdio enorme, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”

não, jovem, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios,
alagamentos e fogo.

jovem, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas.”

Arte da capa por: Tracey Long.

Categorias:Feminino, Literatura

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