Poética

Cena de Cinema: Estacionamento

(Abro hoje uma nova tag pessoal: Cena de Cinema. Todos os sábados uma cena que poderia ser de filme, em diferentes cenários, com diversos personagens. Se é real ou não, pouco importa, só pegue a pipoca e aproveite)

– Que foi?

– Por quê?

– Você parece tensa

– Odeio raios

– Odeia ou tem medo?

– É a mesma coisa…

– É aquela velha história de odiar o desconhecido, ódio irmão do amor etc etc?

– Eu conheço raios muito bem. E estou tensa demais para problematizar filosoficamente os raios

– É seguro aqui

– As pessoas morrem de descargas elétricas em casa, aliás, 19% desse tipo de morte é em casa, só perde para descampados.

– Jornalistas… Elas não morrem do nada. Elas estão usando coisas eletrônicas, você não está

– O medo não é muito racional …

– Achava que você tinha medo de palhaços

– Não há uma restrição de medos por pessoa

– Quer um abraço para se sentir mais segura?

– Só se você fosse todo feito de borracha

– Não é o caso…

– Carros são os lugares mais seguros, sabia? Eu me sinto protegida neles

– Ué, por que não descemos então?

– Pra onde?

– Pro carro!

– Por que faríamos isso?

– Pra você não ficar tensa

– A gente não tem pra onde ir, sair com esse tempo horroroso…

– Não é pra gente ir a algum lugar, é só pra ficar no carro. Parados.

– Será?

– Por que não? O banco é reclinável, tem ar condicionado, som… A gente pode até levar pipoca. Vamos?

– Vamos!

– A melhor pergunta da noite: no meu ou no seu?

– Engraçadinho

(No carro, com uma verdadeira tempestade de verão lá fora)

– Você realmente relaxou aqui…

– É a melhor forma de lidar com o medo: racionalizar.

– Nisso você é boa

– Obrigada

– Não foi um elogio

– Não sou tão durona como você pensa…

– Eu não penso. Eu sinto

– Desculpe, senhor sensível.

– Convença-me do contrário

– Eu já poetizei os raios, sabia? Um dia, em uma legenda do Instagram, eu perguntei o que as pessoas mudariam no mundo se fossem Deus. Pensei em eliminar os raios, mas em uma conversa despretensiosa eu cheguei à conclusão que seria anti-poético eliminar a única coisa que une céu e terra em um contínuo de forte energia. Quase uma metáfora do amor. Isso não é racionalizar.

– O que você mudaria no mundo?

– Na época eu falei nuvens coloridas porque a foto tinha um rastro colorido no céu. Mas, pensando bem, ficaria um pouco como um horrendo quadro do Romero Britto.

– hahahaha

– O que você mudaria no mundo?

– Eu faria você me amar

– Você entende bem pouco de ser Deus, né?

– Por quê?

– Qualquer pessoa sabe que Deus não pode interferir no livre arbítrio das pessoas. Fazer alguém amar está fora de cogitação. Aliás, bastava ver Aladin para saber disso…

– Você é cruel, sabia?

– Sim, estou acabando com a pipoca sozinha. Cruel. Anda, responde, o que você mudaria no mundo?

– Eu inventaria um mundo novo pra você. Onde a noite e o dia coexistiram. A chuva e o sol também, onde cada casamento é de viúva, de alguém capaz de valorizar o amor por já tê-lo visto morrer um dia. À luz sempre branda, como você gosta. Nada de raios ofuscantes em um calor indigno. Temperatura amena, um nublado constante, sempre na expectativa da nitidez, que sabemos, desde Sócrates, nunca chega. Estrelas de gotas, que descem, cadentes, quando pesadas pelos superfícies, dando-lhe a multiplicidade ampla dos desejos fáceis. E uma trilha sonora de piano que nunca cessa, só para você ter sempre esse semblante de quem gosta de ser feliz na tristeza, na introspecção mais genuína, na sinceridade da dor.

– Você aprendeu rápido a ser Deus, um Deus meio egoísta, mas não tenho argumentos para refutar que Ele deveras não o seja…

– Por que egoísta?

– Arrumou um jeito de me fazer amá-lo

– Acho que você estava errada

– Sobre o que?

– Sobre o raio ser a única coisa que une terra e céu

– O que mais une?

– Esquece…

– Os raios pararam…

– Quer subir?

– Não. Eu gosto do mundo que inventaram pra mim.

 

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