Lugares

Curuçá, minha terra, nosso lugar

Hoje pela tarde, acordei com o som da chuva riscando a janela de vidro do meu quarto. Fiquei parada no tempo, olhando para o teto imersa a uma saudade que a chuva trouxera. Passado alguns minutos, levantei da cama e entrei no banho. Eis que me deparo com o shampoo novo que minha mãe havia comprado -, e, em um passar de coincidências saudosistas, era exatamente o cheiro da mesma fragrância que levou para a memória – a lembrança da mocinha de 12 anos usando o shampoo. Terminado o banho, sentei com a família para o jantar. A chuva neste instante, havia cessado, restando então – apenas o cheiro que ela deixa na terra molhada e no asfalto. Com isso, afirmei: “Esse tempo está com cheiro de Curuçá” [cidade onde morei com a família]. Meu pai, que se encontrava segurando a colher, parou e seu rosto se vestiu de uma feição como quem se concentra ao que acabava de ouvir, afirmando em um tom sereno: “Verdade”. E continuamos a sentir o cheiro da lembrança. A respeito disso, devo dizer que me alimento de forma saudável, com esse misto de sensações provocados por fatores externos, dos quais expandem a minha memória olfativa, que tanto prezo.

 

Decerto, veio as recordações – o cheiro da terra molhada em épocas juninas, eu, com a pipoca ou o copo de mingau na mão, como de costume, ficava na plateia assistindo as apresentações, com o meu vestido rosa, nos detalhes floridos nas bordas do pano. Nesse ínterim de sentimentos, a canção que eu estou ouvindo agora, chamada “Poema”, na interpretação magnífica de Ney Matogrosso, me revelou “de repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa/ Morna e ingênua / Que vai ficando no caminho / Que é escuro e frio mas também bonito / Porque é iluminado / Pela beleza do que aconteceu / Há minutos atrás. Acresce que, falar de um lugar onde passei boa parte da minha vida – da infância à adolescência – me faz pensar o quanto o tempo é pueril. De fato, no transcorrer da passagem dos anos, essas lembranças surgem também ao retorno do local de origem, com a convicção de que não serão mais repetidas, pois o que passou virá apenas como o gosto de quem gostava de viver tudo isso e, hoje, são registros, fotografias vertiginosas.

 

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Sinto que vou começar a abrir um espaço maior para escrever essas recordações. Ontem, a cidade completou os seus 260 anos, refleti que já vivi tudo o que eu tinha de viver nessa cidade – e hoje – como diz Theodore no filme HER: “não passam de versões atenuadas do que eu já senti”. Nas viagens para Curuçá, sinto isso, no entanto, há novos encontros. Há descobertas, delicadamente, novas e de uma sensibilidade que não imaginava provar anos depois de ter morado em outra cidade. Nesse sentido, acontecem os encontros com velhos amigos, todos guardados e conservados na “malinha de mão do meu coração”, como sugere a música de Liniker. Afinal, o passado tem essa mania de nos empurrar, mostrando que não sentiremos o mesmo sabor se voltássemos a repetir o que vivemos, todavia, nos faz ter a sorte de poder sentir tudo isso em conjunto com a voz de meus amados avós: “O café está pronto, sentem-se. Vamos tomar juntos”. Passam-se os anos, mas só não passa esse gosto e prazer de amar.

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Conjunto de Xícaras dos meus avós

Categorias:Lugares, Viagens

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