Literatura

Pelos caminhos da tradução

Uma das principais oportunidades que  a graduação de Estudos Literários proporcionou foi ter contato com disciplinas dos cursos de Letras e de Linguística. A grade curricular de EL é muito flexível e o próprio aluno pode moldá-la de acordo com seus interesses específicos a partir do segundo semestre, após completar um semestre de matérias obrigatórias. Uma das experiências mais ricas – que acabou por tornar-se uma das minhas principais áreas de atuação – foi ter cursado duas disciplinas de tradução, uma teórica e, logo em seguida, uma prática.

A tradução não é um processo fácil; o tradutor enfrenta diversas dificuldades quando precisa encarar textos complexos e fugir não é uma opção. Por isso o texto de hoje vai contar um pouco sobre a minha experiência com a tradução e quais os caminhos foram utilizados para buscar soluções satisfatórias ao texto.

A disciplina prática de tradução exigiu como trabalho final formar grupos e selecionar um texto sobre qualquer assunto para que fizéssemos a sua tradução. Um único requisito foi pedido: o texto – por razões óbvias – não poderia ter uma versão em português já publicada ou traduzida.

Escolhemos um texto de uma renomada professora universitária do Canadá, Luise Von Flotow, para traduzirmos. O nome do artigo é “The Gender in Translation: The Issues Go On” e fala sobre a questão do gênero dentro da tradução e como o assunto é tratado por outras línguas e culturas, ou seja, como diferentes países lidam com a questão de gênero em suas traduções. Usamos como critério o desejo de traduzir para o português um texto sobre um assunto tão pouco discutido e com poucas referências em nossa língua materna; assim seria possível auxiliar estudiosos de gênero em suas pesquisas e trazer o assunto para perto de pessoas interessadas. Além disso, possibilitaria uma discussão maior e mais aprofundada sobre um tema tão importante nos âmbitos social e acadêmico.

A primeira dificuldade encontrada no texto em inglês foi a extensão dos parágrafos; eram muito longos e truncados, dificultando ao máximo o entendimento do leitor. E não só os parágrafos eram longos, como também as frases. A explicação de conceitos era feita de forma um pouco confusa, sem pausas e com repetições excessivas. Tais fatores tornavam o texto pouco compreensível e até mais complexo do que deveria ser, prejudicando o entendimento geral de conceitos essenciais para o assunto. Uma solução para o problema foi diminuir a extensão dos parágrafos explicando ideias de forma mais enxuta – sem perder, é lógico, o sentido do texto -, eliminar ou substituir repetições de termos e omitir repetições de sujeito. Houve uma exceção em que a repetição em excesso tratava-se de um recurso linguístico fundamental: um trecho traduzido do hebreu em que a repetição era originada da oralidade.

Nos deparamos também com diversas citações da autora a outros textos de referência (a maioria em inglês). Nesses casos específicos, optamos por não traduzir os títulos que apresentavam vocabulário simples por supor que o público alvo do artigo teria um nível bom de conhecimento e entendimento do inglês. Títulos originados do alemão e do francês – também simples – foram traduzidos livremente pelo grupo.

Alguns termos receberam cuidado e atenção especial do grupo para que a tradução fosse fiel à mensagem do idioma original. Tais explicações foram retiradas do relatório feito por nós (eu e mais duas amigas) relatando as principais dificuldades encontradas pelo caminho. Os termos estão listados a seguir:

Groundling

Há, nesse termo, uma complicação que dificultou nossa tradução. Por ser retirado de uma citação de outro texto (At the Start…Gênesis Made New – Mary Phil Korsak), tivemos que compreender o contexto do livro e a ideia transmitida, para que pudéssemos nos aproximar ao máximo do sentido original. Como era um livro que modificava a acepção original da Gênesis, recorremos à Bíblia para entender qual tinha sido o propósito da mudança. Enquanto na Bíblia o versículo diz que “Deus mandou ao homem um profundo sono”, na tradução de Korsak ela substitui homem por groundling, para criar um sentido que não focasse o gênero. Achamos no dicionário referências a plantas – entre elas a trepadeira – e a gobião (peixe). Optamos por ‘planta trepadeira’, já que o termo nos remetia a uma ideia de origem/chão, a qual, segundo conseguimos interpretar, era a linha de raciocínio de Korsak.

‘In your face’ gay

Preferimos não traduzir a expressão literalmente (“na sua cara”) devido a sua informalidade, pois acreditamos que não se adequaria à construção de sentido do texto. Omitimos a expressão por pensarmos que os termos “aberto e agressivamente gay” já correspondem ao sentido de “’in your face’ gay”.

Queer

Esse termo se mostrou uma questão central no texto e, inclusive, sua possibilidade de tradução para outras línguas é discutida no artigo. Assim, optamos por não traduzi-lo e indicamos a leitura de alguns teóricos importantes que tratam do tema em uma pequena nota de rodapé. No texto em inglês, há o subtítulo “Queering the text”. A dificuldade residiu no fato de que queer não tem tradução para o português, usa-se como estrangeirismo, portanto, também não temos o verbo. Dessa forma, decidimos por “Tornando o texto queer”, cientes da perda tradutória, mas numa tentativa de manter o máximo da construção de sentido do texto.

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Expressão sem tradução para o português. Optamos por traduzir o termo para “tornando-se mutáveis”, pois isolando as palavras em inglês e inserindo-as no contexto do parágrafo, conseguimos construir uma expressão aproximada do sentido original.

To ‘gay’ the text

Como a palavra ‘gay’ não pode ser usada como verbo em português, decidimos usar o verbo ‘tornar’, o que resultou na expressão “tornar o texto gay”, ou seja, inserir características do universo gay no texto traduzido.

Wo-man

Há o trocadilho com o termo wo-man, no qual ‘man’ faz parte da construção de ‘woman’. Como não é possível em português manter o duplo sentido com as palavras homem-mulher/ feminino-masculino, optamos por, no corpo do texto, dar o sentido do trocadilho: “Esta deve ser chamada mulher/ Pois do homem veio seu nome/ Assim como sua origem”. Entretanto, deixamos apontado em nota de rodapé o duplo sentido do termo em inglês, evidenciando que a origem da mulher a partir do homem se dá, inclusive, na sua própria designação.

Além das palavras apresentadas, nos deparamos com termos muito específicos, como o conceito em latim originado na área do Direito: mater semper certa est (mater semper certa est, pater nunquan é um princípio do direito romanoSignifica que a maternidade é um feito biológico, que se dá pela gravidez e do qual não se pode questionar. Esse conceito deixou de ser válido desde 1978, quando a primeira criança foi concebida pela técnica de fertilização in-vitro). Pela complexidade do termo optamos por acrescentar uma nota de rodapé explicando a noção básica que rege a ideia, apresentando um resumo preciso da expressão para não prejudicar o entendimento do texto.

Revisitando uma atividade satisfatória, tentei mostrar que a tradução é complexa, delicada e exige muita dedicação; a tradução literária, por sua vez, exige mais cuidado ainda para que as ideias passadas pelo escritor não se percam no meio do processo, causando alterações não desejadas no enredo. Neste Dia Mundial do Tradutor, fica a minha profunda admiração e respeito para aqueles que exercem essa profissão tão maravilhosa e complexa. Já pararam para pensar o que seríamos de nós sem os tradutores?

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