Bendito Fruto

Bendito Fruto: Felipe

Ver o cinema de Julia Murat é como comer quiabo

Por Felipe Novaes

Noturno citadino
Um cartaz luminoso ri no ar.
Ó noite, ó minha nêga
toda acesa
de letreiros!… Pena
é que a gente saiba ler… Senão
tu serias de uma beleza única
inteiramente feita
para o amor dos nossos olhos.

Mário Quintana

Depois de ter visto e revisto Histórias que só existem quando lembradas em 2013 e sabendo, recentemente, que outro filme de Julia Murat estava prestes a estrear – o premiado longa Pendular –, experimentei uma falta inusitada de suas imagens. Uma falta que reside no mesmo lugar da saudade de comer quiabo caseiro, preparado em uma cozinha familiar. A condução da narrativa e a construção dos planos em seus filmes revelam potencialidade para se exercitar um tipo sensorial de observação. Enquanto expectador, me pareceu estar conscientemente disponível a oportunidade de uma experiência menos passiva. A universalidade dos movimentos e sons – inteligentemente explorados pela diretora – abrem um espaço de subjetividade sutil, dificilmente reproduzível com textos e diálogos extensos.

Em Pendular, um casal de artistas se mudam para uma fábrica abandonada, onde lar e oficina se confundem no mesmo espaço. Os grandes galpões, o teto alto, as janelas de ferro e os corredores ecoantes dão àquele mundo particular uma aparência de infinito inorgânico. Quando a personagem de Raquel Karro realiza seus ensaios performáticos de dança entre colunas de concreto ou quando o de Rodrigo Bolzan armazena suas esculturas de ferro, é possível sentir o cheiro de ferrugem. O relacionamento dos dois protagonistas – cujos nomes desconhecemos – se funde ao modo como ambos ocupam e organizam aquele espaço de convivência e criação.

O descobrimento do ambiente – guiado através dos olhos e curiosidade da dançarina – tem um desenrolar simultâneo à emergência das questões que cercam a vida íntima do casal. Questões estas muito mais implícitas no não dito do que explícitas na comunicação verbal, bastante escassa entre ela e ele. A fita adesiva com a qual os artistas dividem o espaço nos diz mais dos limites relacionais entre eles do que necessariamente os diálogos. A dominância crescente das obras dele no galpão é muito mais eloquente do que seus protestos e voz, tal qual a adaptação elegante dela, que brinca com o excesso avolumante de estátuas e que reinventa um espaço cujos elementos não são seus.

O silêncio é outro protagonista do filme e parece compor um triângulo intermitente, substituído geralmente pelas cenas de maior solitude dos indivíduos. É nesse dançando no silencio que a elasticidade e resiliência da mulher se evidenciam e mostram como a flexibilidade, perante algo supostamente sufocante, pode garantir a integridade e a preservação da forma. O contraste entre espontaneidade criativa dela e o bloqueio dele constituem outro elemento complementar à organização espacial. Ela demonstra um trânsito fluído entre as peças e restos materiais dele, conseguindo enxergar no emaranhado de vestígios a possibilidade do pulo, da beleza. Ele, ao contrário, se arrasta pelos cômodos cujas paredes ele trata de levantar, não em um trânsito, antes através de uma permanência dominadora. Em diversas ocasiões, vemos o personagem colando fitas adesivas com nomes de objetos e os classificando de acordo com sua finalidade. A ocupação (de espaços físicos ou não) para ela se dá pela mutabilidade e impermanência, avessa àquilo empreendido pelo parceiro.

Afastando-se da tentação do direcionamento textual, Julia Murat resgata a pureza dos sentidos e elenca a experiência como base da narrativa, utilizando-se de outras linguagens como dança, artes plásticas e sonoplastia na construção de sentimentos no lugar de discursos. Reconheço em seus dois filmes uma renúncia genuína de vaidade em favor dessa liberdade para o trânsito fluído do público. Fui ao cinema ver Pendular e saí de lá com a sensação de que estive em um restaurante. Eu comi o filme e ele tinha gosto.

Categorias:Bendito Fruto, Cinema

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