Arte

Macumba Antropófaga anuncia: é primavera

No último final de semana (23 e 24 de setembro), houve as últimas apresentações da temporada da peça “Macumba Antropófaga” no Teatro Oficina. Na mesma semana-mês-ano em que discutimos arte censurada, Amazônia sendo vendida, homossexualidade sendo considerada doença; o teatro no meio do Bixiga – aquele bairro especial de São Paulo – nos convidava para o ato. Ato de dar as mãos, de mexer o corpo, de olhar no olho.

A Macumba começa na rua. Começa com choque. Numa corrente, em que todos os presentes são convidados a dar as mãos,  a energia de uma ponta chega na outra. Quem está do lado esquerdo imita o movimento que já aconteceu no direito. Até chegar na última pessoa. Que grita.

Então andamos. Passamos e passeamos pela Maloca da Jaceguay, Casa de Dona Yayá, TBC, Casa de Oswald de Andrade, São Domingos, Japurá, rua do Bixiga. Escutamos o bairro em silêncio, que fala, que briga, que tem pássaro e passos. Voltamos ao Teatro Oficina, pra presenciar a paixão de Oswald de Andrade (Marcelo Drummond) e Tarsila do Amaral (Letícia Coura).

Durante a peça, revistamos deuses, animais e ancestrais. Escutamos os índios, que ainda cantam e ainda cuidam da nossa terra. Gente que come o outro. Que lambe, que abre as pernas, que grita. Toda essa imoralidade castrada. Essa arte censurada. O amor ofendido. Que lá resiste, como se fosse festa. Como se fosse normal (por que não?) andar nu e de mãos dadas.

Era primavera. É e será por um tempo, aqui no Brasil. O espetáculo termina sua temporada, mas deixa flores. Tempo de renascer. Apesar de. Apesar das facadas, apesar da rejeição, apesar da dificuldade. Apesar da gente – vamos pedir piedade – que rejeita. Que ignora o outro. O Teatro Oficina é sempre esse lembrete de que temos poder. Mesmo que a arte e o teatro esteja abandonado pelos grandes. Ele existe. Está lá. Numa realidade fora da numérica e mercadológica, mas que funciona. Ao seu modo.

Para terminar, as apas de Zé Celso, essa sobriedade resistente brasileira: “Nós todos temos que nos engajar. A gente tem que comer tudo isso que nos apavora. A gente tem que virar do avesso essa visão de vida para começar perceber o conjunto: nós somos juntos, mas temos que nos ligar. Eu não faço mais foto individual. ‘Deixa eu fazer uma foto com você?’ Não faço. Se quiser foto, é com muita gente. Como o quadro da Tarsila, Operários. Bravo pra vocês!”

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