Poética

O breu da perfeição

Fim de festa. Assoprava as velas ainda acesas pela casa com força e pausadamente, mentalizando boa viagem a cada amigo recém-partido. Olhava para o chão vazio, sem os 24 pés dividindo pisos e broncas: “calça alguma coisa, menina”. O sorriso agora é acanhado, infeliz pela falta de ressonância, pela falta de cúmplices  das lembranças. Envergonha-se de sorrir só, não tem a espontaneidade e exagero da gargalhada compartilhada. Toda gargalhada é tímida. Toda memória é egoísta. Cantava em um tom quase inaudível a canção de Vinícius: “(…) felicidade sim (…)” enquanto varria para o canto as migalhas da fartura de alegria, limpando o salão para que o silêncio tirasse a solidão pra dançar “(…) são dois pra lá, dois pra cá (…)”.  Lavava os pratos sem o a guerra de gentilezas, a briga das mãos e do  detergente do “deixa que eu faço”. Os dedos sempre se atrapalhavam, se tocavam, os olhares se uniam e sem a necessidade de palavras  tínhamos um vencedor, que como criança feliz com bolinhas de sabão, se divertia ao explodir cada bomba de um aroma cítrico qualquer. Eram os restos recriando inteiros. A mesa voltava a ter o arranjo de flores comprado especialmente para enfeitar a casa para os seus,  agora com as pétalas caindo uma a uma, podres, para evidenciar a implacabilidade do tempo, cinicamente logo no início da primavera. Os móveis deslocados para abrir espaço para colchões voltavam para seus devidos lugares, encabulados por serem tão bonitos, mas tão inúteis. Enciumados das camas improvisadas, tão antiestéticas, mas donas de tantos sonhos. Vasculhava os banheiros tentando encontrar algum rastro esquecido daqueles mais desligados. Nada ficara para denunciar a distração, para ser desculpa fácil para um telefonema engraçado, um reencontro breve. Tudo era de novo meu, irritantemente em ordem. Poderia escolher a hora e em qual me banhar, sem a água já quente do outro, sem respeitar a fila, sem a expectativa da mensagem de carinho no espelho embaçado.  Tudo era previsível e frio. Apagava as luzes de todos os cômodos agora inabitados, como quem fecha no interruptor os olhos dos amigos, o castigo da organização era o breu, toda perfeição é escura, dispensa testemunhas. Juntava os copos como quem tivesse tentáculos, vários de uma só vez. Esquecendo que suas 22 mãos a mais tinham partido, falhei. Vi em câmera lenta o copo em queda livre, se espatifando pelo chão, quebrando em mil pedaços o silêncio instalado pela casa, descompassando a dança com a solidão . Ninguém gritou “viva!”, ou inventou superstições para amenizar o erro, para mitigar a perda. Senti o dedo rasgando, a quentura instantânea do que fere, xinguei. Os outros copos balançaram em minha mão e previ o estrago. Antes que o segundo copo se chocasse no piso, vi duas mãos me ampararem. Os copos se equilibraram e foram colocados rapidamente na pia, a voz dele estava lá.

– Uma menina tão bonita xingando… –  brincou

– Esqueci que você ainda estava aqui – respondi

– Sempre que doer,  eu vou estar – disse enquanto colocava na própria boca meu dedo que sagrava. Estancando com a saliva o corte.

Uma lágrima escorreu dos meus olhos. Como se lesse meus pensamentos ele colocou minhas mãos em volta do seu pescoço e me levou para a sala vazia e organizada para dançar enquanto cantarolava “(…) dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim. (…)”. A solidão e o silêncio sumiram e eu nem vi, pois este palco, mesmo escuro, ainda insiste em ser meu.

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