Entrevistas

Especial Setembro Amarelo: como identificar quem pensa em suicídio?

Ingrid Cunha, mestranda em Psicologia na UFRGS, fala ao ‘Sete Íris’ sobre como identificar quem pensa em suicídio e como podemos ajudar essa pessoa

Quase um milhão de pessoas morrem por suicídio anualmente. É importante desmistificar essa questão, tratá-la com seriedade e como uma questão de saúde pública. Precisamos estar atento à nossa volta, conhecer os fatores de risco e potencializar os preventivos. Porque sabe aquela ideia do senso comum de “quem quer se matar de verdade não avisa, só se mata?” Isso não é verdade. A maioria das pessoas dá algum sinal de que precisa de ajuda ou de que o suicídio está na iminência de acontecer. Mas como identificar quem pensa no suicídio? E como ajudar essa pessoa? A psicóloga Ingrid Cunha comentou essas questões.

SI: Como podemos identificar quem pensa em suicídio?

IC: Antes dos sinais que as pessoas podem dar indicando que pretendem cometer suicídio, podemos ficar atentos aos fatores de risco pro suicídio, ou seja, o que pode aumentar a probabilidade disso acontecer. Os principais são: se a pessoa já teve depressão ou se sofre ou já sofreu de algum outro transtorno psicológico; e se ela passou por algum trauma recentemente.

Os sinais de uma pessoa que pode estar pensando no suicídio são: falta de interesse em fazer planos pro futuro; falta de esperança nas tentativas de resolver os próprios problemas; se a pessoa começa a dizer coisas como ‘eu não aguento mais’ ou ‘eu não sei mais o que fazer da vida’. Não é aquele ‘eu não sei mais o que fazer da vida’ que a gente diz em tom de brincadeira, tem todo um contexto a ser observado. Também podemos prestar atenção em quando a pessoa começa a dizer que os outros fariam melhor sem ela; que talvez ela devesse sumir ou desaparecer, que ela é um problema na vida alheia. Se ela está se sentindo triste, está isolada ou com dificuldades de cumprir as tarefas do dia a dia há um tempo. Se ela tem comportamentos de automutilação e se machuca de alguma maneira, também é um sinal. Se ela já tentou suicídio uma vez é muito provável que tente de novo. Algumas pessoas que pensam em suicídio também começam a se despedir dos amigos e familiares, começam a finalizar os assuntos, a doar suas coisas. Além disso, muita gente que cogita o suicídio pede ajuda diretamente e chega a praticamente dizer que estão considerando isso. Não é tão incomum quanto a gente pensa.

SI: O que podemos fazer para ajudar?

IC: É difícil que as palavras de uma pessoa leiga possa ajudar. É até mais provável que atrapalhe. Devemos orientar com todo o cuidado, que a pessoa busque tratamento por um profissional psiquiatra ou psicólogo que possa ajudá-la de verdade.

Mas tem coisas que a gente pode não fazer: não julgar e não culpar a pessoa pelo que ela está sentindo. Ela já se sente culpada, você pode ter certeza. E ela também já se julga o suficiente, não precisa que mais ninguém faça isso por ela. Então o que a gente pode fazer, nesses casos, é não fazer. Tentar só escutar, deixar ela falar. Dar esse espaço de acolhimento, de uma escuta mais passiva. De realmente estar escutando o que ela está dizendo sem fazer nenhum julgamento – isso é bem difícil. Às vezes a gente leva anos na Psicologia para poder desenvolver isso.

Se houver evidências muito claras de que aquilo está prestes a acontecer, também não podemos ter medo de perguntar, nem de falar sobre o assunto. É preciso ser direto e não abordar o suicídio com medo, porque, normalmente, a pessoa vai dizer. É bem surpreendente como, às vezes, a gente acha que é um assunto delicado, mas a pessoa que considera isso, vai dizer. Então, se você perceber que está na iminência de algo muito grave acontecer, tem que ter a coragem de perguntar: você está considerando suicídio? Você já considerou alguma vez suicídio? É uma pergunta difícil, tem que estar preparado para a resposta, mas tem que ter coragem de lidar com o assunto de forma direta para que essa pessoa possa ser encaminhada para tratamento.

 

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