Comportamento

Nietzsche e o sucesso dos aplicativos de compartilhamento de imagens

Diariamente no Twitter, minha rede social favorita, me deparo com diversos tipos de textos e fontes. Um deles me chamou especial atenção na última semana, era um artigo para o site da The Economist, a mais importante revista do mundo, e o título dizia: “Por que Nietzsche aprovaria os aplicativos de compartilhamento de imagens?”. Como leitora do filósofo fiquei curiosa e fui ler a relação que o articulista Jonathan Beckham adotou. Eu concordei e discordei em alguns pontos e resolvi, com alguma pretensão, abordar o assunto aqui com – talvez – um pouco mais de debate. Em “O nascimento da tragédia”, Nietzsche disserta sobre reconstrução histórica, intuição psicológica e revolução estética-cultural. O que isso tem a ver com os modernos aplicativos que são capazes de nos deixar mais bonitos, mais jovens, mais perfeitos, mais atraentes e ao mesmo tempo nos colocam em eterna exposição nas ocasiões mais reais e espontâneas que se pode ter? Tudo. O filósofo defende em toda sua obra como todos somos seres propensos e aptos à arte e como ela nos causa estranhamento e conforto na fuga e representação da realidade. O artigo expõe a ideia que vivemos essa dicotomia diariamente através de aplicativos que nos permitem edições rebuscadas e aqueles que são tão instantâneos que nos colocam no oposto disso, no mais íntimo e arrebatador impulso de verdade.  Através de Apolo – deus do sonho, das formas, dos limites individuais – e de Dionísio – gênio do impulso e excesso, da dança, libertação dos instintos, Nietzsche afirma que manifestamos nossos verdadeiros anseios, sonhos e aflições pelas imagens que escolhemos e pelas quais nos representamos, em um eterno conflito entre o real e o imaginário, que gera a tragédia. Para o autor, essa necessidade de se apresentar de outra maneira que não a real é indelével ao ser humano quando se depara com as mazelas e dificuldades do cotidiano, é uma atitude de purificação ao se contemplar em outras esferas e de maneiras dispares do que a que normalmente se vê. Por isso, aplicativos que nos transformam em gatinhos, em bruxas, em velhos, novos, nos colocam flores, luzes e cenários fazem tanto sucesso. É um fenômeno intrínseco ao ser humano que sequer o entende, apenas sente. Por isso, por vezes achamos aquele comportamento estranho no outro, mas o repetimos e encontramos satisfação.

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Portanto, para o Nietzsche, qualquer representação de si mesmo ou da sociedade pelo meio de expressões apolíneas são para justificar as imperfeições do mundo e tornar a vida possível cobrindo tudo com a beleza que queríamos que ela tivesse. Já as manifestações dionísiacas são os ímpetos de vida que nos empelem a compartilhar de maneira básica e primordial.  Desse embate surge a essência da arte, que serve para iludir e atenuar as feridas da existência, os aplicativos tornaram essa prática cotidiana e democratizada. Na época do filósofo só os grandes artistas conseguiam tal façanha. Vivemos constantemente a experiência de rebuscarmos imagens pela edição e de mostrarmos a vida como ela realmente é compartilhando em tempo real e sem filtros e até sem nenhum senso estético, por vezes, vários momentos rotineiros. Ao defender a ideia dessa ligação entre embriaguez social e representação onírica, o filósofo liga ciência e filosofia, onde temos consciência do que vivemos, e justamente por isso buscamos meios de mitigar a verdade. É desta obra que surge a célebre frase “Temos a arte para não morrer com a verdade”. Resta-nos saber, já que somos nós os modernos que vivemos esse momento, se essas aplicações tecnológicas realmente nos salvam da realidade em que sabemos estar ou é uma inconsciente e imprudente fuga da realidade, em que não nos enxergamos mais como verdadeiramente somos, o que seria sim uma grande tragédia no sentido mais literal da palavra. É realmente uma dicotomia entre realidade e arte ou pura e simplesmente uma exposição baseada irrestritamente em ego? Tenho dúvidas.

 

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