Comportamento

Especial Setembro Amarelo: um relato íntimo sobre a depressão

 

Quando eu lembro dos períodos mais críticos da minha depressão, uma cena específica me vem à cabeça: eu estava na cama há dias. Só me levantava quando era extremamente necessário – para ir ao banheiro, por exemplo. Fazia três dias que eu não tomava banho e pelo menos uma semana que eu não lavava o cabelo. Estava ali completamente à deriva, sem um pingo de esperança em mim. Houve um momento em que finalmente tomei a decisão: “Vou tomar banho.” Algo tão simples e que deveria ser automático se transformou em um grande evento. Pois bem. Fui ao banheiro, coloquei uma música pra tocar, tirei a roupa, entrei debaixo do chuveiro. Uma vez que eu já estava lá, foi fácil. Depois, secando o cabelo com a toalha na frente do espelho, olhei bem pra mim e tive uma das crises de choro mais doídas da minha vida. Eu chorava porque me lembrei do quanto eu sempre gostei de tomar banho. Como é que eu havia parado ali?

A cama havia se tornado meu refúgio e minha prisão. A essa altura eu já havia abandonado a faculdade, os amigos e a fé em mim. Eu ficava deitada ali, esperando o sono chegar. Nesse estágio a depressão muitas vezes nem dói mais, exceto nesses momentos raros de mais lucidez, como o do pós-banho que acabei de descrever. Na maior parte do tempo você apenas existe. Não há mais nada, até que a angústia volte a aparecer. Eu não sei o que é pior.

O maior problema da depressão é que ela se auto-alimenta. Afirmo isso com a humildade de quem não é especialista no assunto, mas que viveu bem tudo isso. A minha depressão era cíclica – as crises mais pesadas aconteciam cerca de duas vezes por ano, e no resto do tempo eu até conseguia disfarçar tudo e viver “normalmente”. Só que a cada ano que passava, as crises pioravam e se tornavam mais perigosas. Com o tempo, você enfia na cabeça que simplesmente é assim e ponto. Apoiada no diagnóstico de depressão crônica, por anos eu tive a plena convicção de que teria a doença para sempre e que o que eu deveria fazer era aprender a lidar com isso para não acabar morrendo eventualmente. A minha sensibilidade exacerbada e quase mediúnica também contribuía para essa crença limitante. Hoje em dia eu sei que nós criamos a nossa realidade. Naquela época eu não conseguia conceber essa ideia e até ficaria ofendida com ela. “Quer dizer que eu criei minha depressão? Que eu ALIMENTO a minha depressão?”, indagaria com raiva, argumentando depois que só quem diz isso é quem nunca passou pelo que eu passei.

Nas duas vezes em que eu quase morri eu não tinha essa intenção. Nunca houve uma decisão: “Eu quero morrer.” Muito menos de me machucar fisicamente. No entanto, em alguns momentos de crise, a razão simplesmente não existe mais. Existe apenas o desespero e a maior angústia do mundo, tão grandes que cegam e nos levam a tomar certas atitudes que, analisadas mais tarde, nem parecem ter vindo da gente. Esse é o motivo pelo qual eu fico tão brava quando ouço julgamentos sobre suicidas. Eu sei que muitos deles morrem em situações de completa irracionalidade. E mesmo os que tomam a decisão de deixar este mundo devem receber empatia – parece óbvio, mas pra muita gente não é. Não querer mais viver não é o mesmo que querer morrer. Muitas vezes é apenas não conseguir mais lidar com a dor.

“Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado.” (Sylvia Plath em A Redoma de Vidro)

Um dos maiores problemas da depressão é que ela não é injusta apenas com o depressivo, mas com todo mundo ao seu redor. Relacionamentos amorosos comumente se tornam tóxicos sem que você se dê conta. De repente você não é mais um bom amante, amigo, filho, pai. Você se afasta de tudo. Deixa de render no trabalho, nos estudos, isso quando ainda consegue manter a rotina. Você se sente incompreendido e se coloca na posição de vítima, não necessariamente sem motivo, mas no fundo existe uma culpa feroz e sensação de incapacidade. Quem está ao redor sofre junto e você sofre mais ainda por causar tudo aquilo. E o pior é que você sabe que por mais que a medicação, a terapia e o apoio dos familiares e amigos te ajudem, nada disso é eficaz se você não tomar a atitude de melhorar. O poder da cura é seu, mas você não consegue nem levantar da cama e tomar banho, quem dirá pegar a sua vida pelas mãos e arrumar tudo.

Eu me sentia um desperdício de potencial, um fracasso ambulante. Não conseguia lidar comigo mesma e absolutamente tudo se tornava insustentável. Me tornei uma pessoa tóxica, uma vítima ambulante. Quando eu olho para esses cerca de sete, oito anos, a minha memória parece fraca. É quase como se eu não estivesse presente em momento algum. É aquele clichê de que parece que existe uma neblina, um gás tóxico ao seu redor, que te consome lentamente e te deixa num torpor constante.

Sylvia Plath conseguiu captar esse sentimento e descrevê-lo bem em A Redoma de Vidro, romance quase autobiográfico que ela lançou poucos meses antes da última tentativa de suicídio, que finalmente tirou a sua vida aos 30 anos. Esse livro eu li recentemente, depois de recuperada, e mexeu muito comigo porque me fez visitar o auge da minha depressão, coisa que considero importante porque, quanto mais eu analiso todo o meu processo com a lucidez de quem não está mais doente, mais o compreendo, consigo falar sobre isso e, principalmente, me perdôo. De acordo com a metáfora de Sylvia, a depressão seria uma redoma de vidro, e é por isso que eu termino este relato emprestando, mais uma vez, as palavras dela:

“Eu sabia que devia ser grata à sra. Guinea, mas não conseguia sentir nada. Não teria feito a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc –, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.” 

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1 resposta »

  1. Também tive depressão por longos anos e é exatamente como você descreve. Foi precisa. Extremamente importante relatos como esses. Na minha época, a internet ainda não chegava nem perto do que é hoje e tive grande dificuldade em me entender e em lidar com tudo que passava. Faltava empatia, informação e cuidado. É bom criarmos espaços assim para que, quem sabe, possamos auxiliar e iluminar o caminho de quem sofre com isso. Parabéns pelo relato sincero e coragem. Sempre. Muito.

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