Arte

MBL e o triunfo do obscurantismo

Para que servem as obras de arte?

Em 1928, dois notáveis espanhóis se encontraram em Paris para realizar um filme que nomearam Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz). Eram eles o artista plástico Salvador Dalí e o diretor de cinema Luís Buñuel. Em 1930, Buñuel dirigiu L’age D’or (A Idade do Ouro).

Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro são emblemas do cinema surrealista, movimento que projeta imagens mentais absurdas e oníricas sobre a tela. Segundo Eduardo Penuela Canizal no livro História do Cinema Mundial, “o cinema surrealista encarnou e encarna uma constante luta contra a sacrossanta perseverança do uso conservador dos signos contra os lacres utilizados para engarrafar a significação e imobilizá-la nos parâmetros de uma ordem social hipócrita”.

Cenas de Un Chien Andalou e L’age D’or, respectivamente

Os surrealistas subvertiam a linguagem a fim de atinar os substratos do inconsciente, o que não era realizável através da linguagem conservadora racionalizada, cativa de preceitos morais burgueses.

A linguagem proposta por Buñuel, sobretudo com A Idade do Ouro – que questiona os dogmas da sociedade, inclusive da igreja católica – incomodou as camadas mais conservadoras da sociedade parisiense. A Liga dos Patriotas e a Liga Anti-Semita realizaram manifestações contrárias à obra, chegando a agredir quem saía das salas de exibição em que rodavam o filme. Para conter a reação, o então prefeito da França, Jean Chiappe, proibiu a exibição do filme em Paris, fechando o cerco da censura e, consequentemente, enclausurando a sétima arte. O filme A Idade do Ouro foi proibido na França até 1980.

No Brasil, Glauber Rocha também forçou, com o vigor do seu suor e sangue, os limites da linguagem cinematográfica com o cinema novo. Como aconteceu com Buñuel, o cerco censório se encerrara sobre o diretor brasileiro, sob os desmandos de uma ditadura que massacrou a produção cultural nos seus anos de chumbo.

Gilles Deleuze, na introdução do livro Crítica e Clínica, evoca Proust para afirmar que “o escritor arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, leva-a a delirar”, o que pode ser dito a respeito dos artistas no geral. “O limite não está fora da linguagem, ele é o seu fora: é feito de audições não-linguageiras, mas que só a linguagem torna possíveis”.

A arte engendra linguagens que faz a linguagem dar espaçados e bailarinos saltos sobre o ar; a percepção humana avança mais velozmente sobre as asas dos poetas, porque através deles nos é permitido sonhar. É por isso que, quando o autoritarismo e o conservadorismo calam os artistas, cortam as antenas que colocam a sociedade em contato com visões e críticas aléns. “Os artistas são as antenas da raça”, expressou certa vez o poeta estadunidense Ezra Pound. Uma sociedade cujos artistas foram atados e amordaçados perde a possibilidade de existir de forma plena, não consegue se afirmar e definir sua identidade; respira com a ajuda de aparelhos. E esta é uma das razões pela qual devemos nos opor firmemente à censura e ao pensamento tacanho.

Ademais, poderíamos também questionar: quem são os censores? Como podem atribuir a si mesmos o direito de definir o que é uma obra de arte “legítima” e o que não é? É como Leila Diniz questiona na lendária entrevista que concedera ao Pasquim em 1969: “Que tipo de preparo tem uma pessoa que vai julgar e censurar uma obra de arte? Eu não teria coragem de ser censor. Se eu fosse julgar uma obra de arte, eu teria de ser uma pessoa inteligentérrima, cultérrima, muito humana e muito por dentro das coisas”, ao que ela completa com um simples, mas cabal comentário “Censura é ridículo, não tem sentido nenhum”.

Por falar na “sacrossanta perseverança do uso conservador dos signos” e em “uma ordem social hipócrita”, lembramos que, recentemente, o Santander Cultural de Porto Alegre (RS) retirou de cartaz uma mostra intitulada Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que reuniu 264 obras brasileiras, incluindo de artistas como Cândido Portinari, Alfredo Volpi e Lygia Clark, expondo mais de um século das artes plásticas e seu relacionamento com a sexualidade, questões de gênero e com o universo LGBT.

A exposição foi alvo de críticas de jovens conservadores, sob acusações de pedofilia e zoofilia. “Só tem putaria”, afirma em vídeo um desses jovens, enquanto passeia pelas galerias da exposição. O grupo Movimento Brasil Livre reverberou e alardeou as críticas, e, enfim, lograram o encerramento da exposição – como em Paris de 1930. Os ataques não se restringiram ao plano virtual e as manifestações chegaram ao museu em forma de confronto aos transeuntes e curadores da mostra, como em Paris de 1930.

A reação histérica foi alvo de críticas e deboche por vários veículos internet afora – inclusive da também conservadora Revista VEJA, que reuniu, em uma publicação, sete obras de arte que poderiam chocar o MBL, além de uma matéria na versão impressa em que o episódio é chamado de “Vitória das trevas”.

Sem título

Sabedoria popular: usuário do Twitter aponta contradição hipócrita do pensamento reacionário. A norma, segundo esse pensamento, é ser heterossexual, e o que foge à isso é simplesmente depravação

Iran Giusti, criador do Tumblr “Criança Viada” – que inspirou os quadros da artista Bia Leite, alvo de denúncias de pedofilia – questiona: “Como dizer que uma obra de arte que contém imagem de zoofilia é apologia? Obras sobre crimes, sobre guerras, sobre violência são apologia à estas coisas? Vai ter boicote ao Museu do Prado que expõe ‘O Jardim das delícias terrenas’, do Bosch e que conta com várias imagens de zoofilia?”

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“O Jardim das Delícias Terrenas”, de Hieronymus Bosch.

Ao jornal Zero Hora Fernando Baril, autor de outra obra que inspirou reações indignadas, explicou que “Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem. Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse ‘desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde’, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.”

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Ce n’est pas un jésus christ. “Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva”, obra de Fernando Baril, 1996.

Para o MBL, falar de sexo ainda é tabu. Para o MBL, travesti é sinônimo necessário e imediato de prostituição. Retratar a zoofilia, para o MBL, é, necessariamente, fazer apologia à prática. Para o MBL, a norma é ser heterossexual – o que foge à isso é simples depravação. Para o MBL, a arte deve se conter no discurso “muito limpo e muito leve” dos preceitos morais burgueses e cristãos.

O grupo MBL não tá por dentro, não é, como diria Leila Diniz “inteligentérrimo, cultérrimo” para pautar exposições de arte. O MBL desconhece a função de ruptura da arte. A crítica reverberada pelo MBL é descontextualizada e preconceituosa. Em outras palavras, é burra ou é desonesta.

Quase 90 anos após o ataque conservador e a consequente censura à enunciação inovadora do surrealismo, que, ainda de acordo com Canizal, “rejeitava as formas artísticas estagnadas em modos de representação assaz conservadores” e se debelava contra “a falsa moral de uma sociedade intolerante e opressora”, ainda é necessário denunciar o pensamento obscuro. Ainda precisamos ficar alertas enquanto caminhamos pelos cinemas e galerias de arte, nos preocupar com o policiamento da moral e bons costumes, determinados pelas mesmas estruturas de poder, empenhados pelos mesmo bons samaritanos e pela mesma imposição de normas pela cíclica agressividade da gente de bem.

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