Bendito Fruto

Bendito Fruto: Pedro

A visão da Terra Grande

Da República às pelejas modernistas, o projeto cultural de união nacional alimenta nas capitais apenas o sentimento de desagregação. A consequência é guerra.

por J Pedro de Carvalho

Em uma entrevista para o rádio, muitos anos depois da revolução, Carlos Drummond de Andrade desvela, segundo suas impressões, a empresa ideológica presente no modernismo paulista: “partindo dos costumes alimentares de nossos índios, Oswald elaborou uma espécie de interpretação histórica, que pretendia ser também doutrina sociológica de base filosófica”. O autor itabirano, integrante do modernismo mineiro, naqueles anos finais de política do Café com Leite, comprou uma briga com Oswald de Andrade, precursor do movimento em São Paulo. “Briga, aliás, que o tempo foi diluindo. Oswald não era homem de brigar para sempre”, diz Drummond. Entretanto, em um momento único da história cultural brasileira, assistimos a uma secção cultural, política e ideológica entre os polos econômicos do país, representados pela cultura organizada em meio a Paulicéia Desvairada, metrópole industrializada e europeia, e a das Minas Gerais, rural e sertaneja, cujo movimento modernista acontecia aos poucos, ao longo da década de 20. Mas antes da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, as sementes da desagregação, justamente quando buscavam a unidade cultural brasileira, já germinavam.

Antecedentes

Após a Proclamação da República, evento passado em 1889, a intelligentsia brasileira (desde os positivistas, republicanos, jacobinos e pré-modernistas) empenhava-se em definir novos símbolos nacionais. A disputa pela nova bandeira (o exemplo de Ruy Barbosa), o novo hino (as opiniões de Deodoro da Fonseca) e os novos costumes nacionais. Destinados a abandonar os valores do Brasil Império, adotando, a partir de então, os símbolos ímpares de um Estado com características próprias, a classe intelectual brasileira, durante a República Velha, reconheceu a identidade cultural e os aspectos positivos de sua diferença como características de um povo. As figuras de cada canto da Federação eram parte de um panteão caricato de unidade, desde o gaúcho dos pampas ao mateiro do norte. Já no Rio de Janeiro, centro político, a fresca cultura popular invadia os salões tradicionais, com saraus de violão introduzidos aos palácios por Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, com o samba e o carnaval festejados como manifestações populares, com o futebol tomado como esporte nacional, contando com o endosso do presidente Washington Luís; e com toda a diversidade social desabrochando como elemento a ser valorizado na composição do novo país. A partir do Distrito Federal, uma nova cultura era incorporada ao cenário da República Velha.

pasted image 0Após o seu casamento com o presidente Hermes da Fonseca, o Jornal do Século (1913) destacava Nair de Tefé como “moderninha”. Filha do Barão de Tefé e criada em Paris, foi a primeira mulher caricaturista do mundo e trouxe novos costumes para o Palácio do Catete.

Ainda que em meio à vibrante floração artística da capital, por necessidade, fez-se necessário olhar para os estigmas do Brasil após as primeiras crises da República. Nesse momento, as ideias fomentadas pelos intelectuais mostraram-se sustentadas sobre um pilar bambo. Os pré-modernistas paulistas e cariocas, desbravadores de um projeto de pluralidade nacional, no entanto, restringidos aos contextos elitistas das grandes cidades do sudeste, consideraram equívocos, à luz da contemporaneidade, vistos como classistas e racistas. Ao tangenciar a questão das revoltas da Primeira República e a abolição da escravidão, recém instituída, puseram o homem do norte, o negro, o mulato e a população rural em categorias simplórias, atemporais e universais. Era, pela intelligentsia aristocrática, imaginado um Brasil exótico, mas não reverenciado a partir do olhar individual dos retratados, e sim apenas pelas ideias genéricas e de pertinência política construídas por estrangeiros nacionalistas, vindos das capitais políticas e econômicas.

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Em “A Pátria” (1919), de Pedro Bruno, representou-se o ideal matriarcal positivista no surgimento da nova bandeira nacional. As mulheres que a criam, assim como a mãe que amamenta o bebê, se veem encarregadas da recém-nascida República.

Desde sua fazenda herdada em Taubaté, Monteiro Lobato defendia os princípios da eugenia, pregando a superioridade branca. Euclides da Cunha, em “um parêntesis incômodo”, enxerga o nordestino como matuto e ingênuo, seguindo, por fim, em uma má interpretação da Teoria da Evolução, o caminho considerado por Lobato: “a mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial”. Somemos Gilberto Freyre que, posteriormente, admite os povos negros brasileiros como viajantes voluntários, e não como indivíduos escravizados em um lamentável processo histórico. E a Revolta da Vacina, tratada como a ignorância de um povo frente ao progresso, e não a higienizante e sistemática marginalização do morador do cortiço à periferia, no “bota abaixo” promovido por Pereira Passos. Também em Canudos, na história como os matutos do nordeste, nunca uma resistência de sujeitos politicamente excluídos contra a República centralizada no sudeste. O mesmo no Contestado. O Tenentismo, por fim, sequioso de reestruturar o sistema social oligárquico vigente com o apoio da classe operária, destacando a Coluna Prestes.

O Grupo dos Cinco

Em Canudos, Euclides da Cunha descreve um elemento da psicologia social do sertanejo: a Terra Grande. “É o resto do mundo, a civilização que temem e evitam”, tudo que está fora do sertão, que engloba desde o Rio de Janeiro e Salvador a Roma e Jerusalém. Pelo outro lado, o desconhecimento do homem da capital a respeito da cultura do sertão era proporcional. Quando os modernistas lançaram a empresa sobre esses assuntos tópicos, em generalismos, perderam a essência da psicologia individual e das representações culturais vivas em cada homem. Por culpa do obscurantismo, alguns elementos nocivos foram postos, durante o movimento, como valores identitários nacionais. Caso dos bandeirantes para os paulistas, tratados como heróis pela história, sem embargos maculados pelo genocídio e captura de mais de 300.000 indígenas. Faz-se pertinente recordarmos, então, dos monumentos edificados a Borba Gato e do Monumento às Bandeiras, ainda expostos na cidade de São Paulo.

Nessa mesma cidade, a capital econômica do Brasil República, florescem as articulações pela identificação regionalista. Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia, o Grupo dos Cinco, defendem, em 1922, a Semana de Arte Moderna. Atraem Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti. Também cooptam Plínio Salgado, líder da Ação Integralista Brasileira (partido inspirado nos princípios do movimento fascista italiano). Plínio Salgado, porém, por motivos mais extremistas, acreditava que os demais, de origem burguesa e formação europeia, eram não mais que parte de um movimento de modernismo afrancesado, inspirado pelo intelectualismo parisiense. Decide, a partir daí, conceber a Escola da Anta, adotando o animal como símbolo nacional por suas características endêmicas e seu nome tupi, pois nada poderia ser mais ufanista do que isso.

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Organizadores da Semana de Arte Moderna, em 1922. Oswald de Andrade encontra-se à frente, sentado no chão. (Arquivo O Globo).

Nos anos 20, a Terra Grande, efervescente, cultural, industrial, superando os entraves da República Velha, sobrepujando as revoltas sociais periféricas dos politicamente marginalizados (apenas 3% dos brasileiros votavam nos primeiros anos de democracia) e edificando sua própria cultura, impondo-a sobre qualquer canto país, encontrou a glória. Não durou. A Paulicéia Desvairada sofre, repentinamente, um impedimento. Quando o estado de São Paulo, contrariando o lá e cá do Café com Leite, elege Washington Luís para presidente, forças mineiras reagem, bem como os paraibanos de João Pessoa e os gaúchos varguistas. A consciência contra a centralização do poder, denunciada pelo tenentismo, pela Revolução Esquecida de 24 e pela Coluna Prestes, culmina com o apoio dos mineiros, em 1930, a Getúlio Vargas para a presidência, depondo o paulista de Macaé. Tal feito retira de São Paulo seu protagonismo, desencadeando a Revolução Constitucionalista de 1932, que volta a nos interessar por ser apoiada por intelectuais e membros modernistas do Grupo dos Cinco.

Vargas x São Paulo

“O pioríssimo de tudo, é que tem paulista bastante impuro, bastante ingênuo, bastante sem-vergonha, não sei, que acredita em tenente, que acredita em general, que acredita em gaúcho e acredita em promessa”, escreve Mário de Andrade, em uma carta de 1932. “Não! Vamos dar um basta nisso. Não prometam, deem. Deem um estatuto só para nós, pois que somos diferentes mesmo, e sobretudo não venham brigar mais na terra da gente. (…) Vão brigar na terra deles, nesses brasis africanos onde a puta os pariu!”, conclui o modernista paulista, defendendo o sentimento separatista do estado, enquanto os Batalhões voluntários Fernão Dias e Paes Lemes, nomes sugestivos do mesmo bandeirante, partiam em direção a Minas Gerais, visando ocupar Passa-Quatro e Pouso Alegre, na divisa.

Os mineiros, por outro lado, combatiam ao lado dos gaúchos e paraibanos, contando também com intelectuais a seu dispor, como Juscelino Kubistchek, que integrava o corpo médico. E à maneira do que ocorrera na Revolução de 1930, quando Minas Gerais ocupou o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul tomou Santa Catarina, marchando em direção à São Paulo, os ventos em 1932 sopraram a favor de Getúlio outra vez. A partir desse momento, o discurso cultural de união nacional forjado pelas elites na República, com o propósito de legitimar o Brasil como um país plural e, ainda assim, indivisível, serve ao imaginário paulista como motivação para fins sectários, orientando sua separação sustentada por motivos racistas dirigidos aos estados nortistas da Federação. Mais uma vez, o mineiro nortista é matuto e débil. O gaúcho é bronco. O nordestino, simples e não-aculturado. A anterior diversidade cultural, o projeto de “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, a ideia de união Guararapes e a composição mestiça são desvalidadas. “No momento, eu faria tudo, daria tudo para São Paulo se separar do Brasil”, repete Mário de Andrade, agora ao mineiro Drummond.

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Edição do Jornal das Trincheiras (1932), para o qual o poeta Mário de Andrade contribuiu durante a guerra.

Tudo isso fugira ao esperado por Getúlio Vargas. Ao instaurar o Estado Novo, em 1937, visando contornar a questão da cultura separatista dos estados e centralizar o poder, o ditador promoveu a cerimônia de queima das bandeiras. Na queima, Getúlio hasteou 21 bandeiras nacionais, no lugar de 21 estaduais. Por fim, com a regência do modernista carioca Heitor Villa-Lobos, performou-se o hino nacional e todas as bandeiras estaduais foram atiradas a uma fogueira, bem como tiveram seus usos pelo governos regionais impedidos, indicando a indivisibilidade do novo Brasil. A cerimônia, um marco centralista, foi relatada pelo Correio da Manhã, em ode à bandeira verde e amarela: “Tu és a única, porque só há um Brasil – em torno de ti se refaz de novo a unidade do Brasil, a unidade de pensamento e de ação, a unidade que se conquista pela vontade e pelo coração, a unidade que somente pode reinar quando se instaura pelas decisões históricas, por entre as discórdias e as inimizades públicas, uma só ordem moral e política, a ordem soberana, feita de força e de ideal, a ordem de um único pensamento e de uma só autoridade, o pensamento e a autoridade do Brasil”.

Além do sectarismo costumaz na Primeira República bem como desde a Revolução que levou Vargas ao poder, passando pela Revolução Constitucionalista de 1932 e seu proselitismo à superioridade paulista, encontramos o motivo da queima também nas razões para a criação do Estado Novo, como a Intentona Comunista, de Prestes. O medo dos vermelhos foi a justificativa dada para permanência do presidente no cargo, agora definitivamente como ditador. Um ano depois de promulgar a Constituição Polaca, ainda, ao proibir não só as bandeiras, mas também os partidos políticos, Getúlio voltaria a sofrer mais uma tentativa de golpe, agora encabeçado pelo modernista nacionalista Plínio Salgado, líder da Ação Integralista e da Escola da Anta. Apesar de todas as contra-ofensivas, Getúlio triunfou contra os estados. A bandeira de São Paulo, um dos símbolos proibidos do Estado Novo e agora ícone de resistência ao governo, sobreviveu na cultura popular paulista apenas no escudo do Sport Club Corinthians, onde passou despercebida, e nas cores do São Paulo Futebol Clube, onde foi exaltada.

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Após a proibição da bandeira estadual, paulistas ironizam Getúlio durante a visita do presidente. Usaram como símbolo o escudo do São Paulo Futebol Clube, que levava as cores da bandeira do estado (1937, autor desconhecido).

Desfecho

Desde antes mesmo da República, o preconceito estrutural das capitais econômicas para com o homem sertanejo, mateiro, nortista e mineiro já se instalava. Após ela, graças a um esforço legalista em nome dos ideais positivistas, o racismo foi disfarçado ou até falsamente enobrecido em nome de um projeto nacionalista, levando à demonstração exótica de tipos vistos como regionais, aceitos hoje em nosso imaginário comum. Nesse imaginário, os tipos de diferentes classes, regiões e origens foram retratados pelo viés das elites, reconhecendo-os como subordináveis e débeis, ao exemplo do pensamento pré-modernista: “O mestiço – mulato, mameluco ou cafuz – menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores”, nas palavras de Euclides da Cunha. E não só da República ao Estado Novo, marcado por eventos separatistas, vigorou a divisão entre a cultura real existente e a cultura imaginada pela Terra Grande. Até os dias de hoje, as estátuas de genocidas bandeirantes soerguem-se sobre o horizonte paulistano. Lá, 1932 é comemorado em feriado, graças a uma aproximação do ideal republicano centenário, replicado durante o modernismo paulista. Esse coletivismo positivista, responsável por abarcar genericamente o todo, distinguiu-se da visão mineira, mais próxima do existencialismo, responsável por enxergar o homem individualmente.

E de herança, até o dia de hoje, mesmo tentando transpor a muralha sul-sudeste, os artistas do norte não soam abaixo da fronteira da região Concentrada. Na cultura popular, o futebol tratado é o futebol Rio-São Paulo, as músicas vêm de lá, também os programas de tv. E esses, assim como os filmes, insistem na exotização do homem não-paulista, limitando sua identidade dentro de padrões atemporais, caracterizando-o como capiau, preguiçoso, matuto e interiorano. Seus costumes são um lugar-comum, sua cultura é construída, seu meio é rural, sua fala tipificada. Na cultura literária, com a rivalidade entre os modernistas mineiros e paulistas, em uma rica peleja histórica, documentamos a divisão cultural de um país. A entrevista de Carlos Drummond de Andrade, ao definir o movimento modernista, assim termina: “Os males do mundo vieram do dia em que o guerreiro vitorioso deixou de comer o adversário para fazê-lo escravo, instituindo assim o trabalho e a moral dos escravos”. “E como se manifestava isso em literatura?”, pergunta a jornalista.

“Comendo-se uns aos outros, como você viu”, respondeu o mineiro.

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