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“Uma foto, um texto”: Fim do mundo

A foto:

O texto:

Ei, você veio. Que bom. Senta aqui pra conversar, esquece esse medo de altura. Do que mais você tem medo? Teve medo em 2012? Está com medo do próximo dia 23? Lê todos os calendários maias, incas e astecas para saber quando estaremos enfim fadados ao fim? Não acredito! Pensa sempre no que vai fazer, para quem vai ligar, quais os pecados vai cometer, quais as confissões vai fazer, com quem gostaria de estar? O quanto de medo em você existe pela possibilidade de extinção? Eu? Não, eu não. Eu não temo o fim dos tempos. Estou acostumada com esse fim de mundo diário. Não, não estou falando das notícias catastróficas dos jornais. Nada de corrupção, aquecimento global, exposições polêmicas, preconceitos e indignações seletivas. Eu não falaria disso com essa visão privilegiada, em frente a Sé, no fim de tarde. Estou falando de algo mais particular, íntimo e ao mesmo tempo universal. Falo desses mundos que acabam diariamente em mim e provavelmente em você.  Não me olhe assim. É sério. Há sempre uma morte, uma perda, uma separação. Um paradigma que se quebra, um tudo que se destrói e vira nada, vira um mundo extinto. É sempre assim. Algumas vezes o mundo parece que jamais se recuperará, outras vezes restam algumas ruínas que nos bastam para recomeçar, mas inevitavelmente há dor, há despedida, há transformação. Já parou para pensar que cada pessoa é um mundo? Um universo complexo e único, dotado de ideias e percepções sobre a vida que nenhum outro ser tem igual? Somos mundos. Inteiros. E diferentes. Nós que significamos tudo isso aqui. E quantos deles não extinguimos com o poder meteórico de palavras malditas e mal pensadas?  Ou pior, com o silêncio? Com a omissão? Feitos dinossauros, os sentimentos grandiosos e vorazes viram cinzas em segundos, e explodem almas e corações, deixando um terreno infértil e podrido por anos e anos. E somos nós os deuses da devastidão. Eu penso muito nisso quando vejo São Paulo de cima. Essa porção de prédios, de janelas, de quartos, salas e vidas. Cada um com uma história. É um clichê, eu sei, extremamente desgastado por filmes e poesias. É bonita a cidade do alto. Ainda mais São Paulo que consegue ser imensamente plural. Galáxias e galáxias para serem exploradas. Algumas menos, outras mais bonitas. Esse pensamento me ocorre desde criança, quando saia de carro com meus pais, principalmente na véspera de natal, quando a cidade fica especialmente iluminada e eu imaginava a vida de cada janela a piscar, mas tem se intensificado com o tempo e me tem sido cada vez mais custoso extinguir mundos. Sempre que conheço alguém novo eu tento manter o quanto acessível for possível aquele pedaço obscuro de vida. Vai que me falte água ou colo. Vai que eu encontre inteligência suprema por ali. Vai que eu precise de sombra ou anéis. De um novo sol ou de crateras para me esconder. Ou só de um novo lugar para olhar o todo de outro ângulo. Vai que eu queria trocar o azul pelo vermelho. Vai que. Sim, eu sei. A destruição é por vezes tão necessária e junto vai um tanto de você. E quando envolve amor, então? Vixiaí essa concepção fica ainda mais fácil de se assimilar. É um …boom ….e de repente é sombrio de novo e você se questiona em tudo, tudo, tudo. Tem vontade de mudar de cidade, de país, de roupas, de músicas, de planos, de perfume, de verdades. Tem vontade de não ser tão você, porque não é você que desperta mais o amor do outro. Aquele outro que há segundos você tinha certeza, era o nome que iria pronunciar para o resto da vida. E nem sabemos bem o motivo, afinal, o que mudou? Aonde erramos e não notamos? Quando isso tudo aconteceu? E você quase vira o Hulk, o Thor, a Mulher-maravilha, o Superman, o Batman, o Homem-Aranha e a Marvel inteira para salvar aquele mundo que algum vilão algoz e misterioso deu um jeito de envenenar sorrateiramente. Mas não é cinema e você perde, você perde, de uma hora para outra, aquela pessoa que significava tanto. É o fim do mundo. De fato. O fim de um mundo.  E vem com serenidade de um pôr do sol. Nada de bombas, alienígenas ou tsunamis. De repente, tudo precisa de um novo sentido. Se é por isso que estou aqui? Se um mundo acabou para mim? É provável que sim. Aí eu subo, subo, subo. Astronauta de escada. Degrau a degrau. Para relembrar que há tantos mais por aí, sem deixar de sentir a perda irreparável daquele. Sabe o que é mais engraçado? Enquanto tentamos salvar um, destruímos vários outros. Feito o King Kong, você se vê pendurada na torre da Sé, com sua paixão na mão, pouco ligando para o resto devastado em sua volta, você só quer salvar aquele. E tomba. Gigante e derrotado, na maior cidade do país. Pensando bem, não ria, não é engraçado. Esperamos a grande catástrofe do planeta sem entender que a parte essencial se extingue diariamente em nós, agentes apocalípticos da independência e da solidão. Já vai? Não, não vai, não. Estou precisando da lua que vi em ti, senão essa noite que começa me vai ser muito escura. Fica? Seja meu 2013, meu 24 de setembro, meu BigBang, minha sobrevivência, meu novo mundo. Eu não te prometo a ausência do caos, só manchetes melhores para amanhã. E um pouco de silêncio agora, para ver a cidade se acender e o universo brilhar novamente. Fica?

(Para participar é só seguir o perfil @umafotoumtexto e marcar a foto escolhida no perfil)

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