Literatura

A Bienal do Livro e o desafio de formar novos leitores

Os números da Bienal do livro do Rio bateram recorde e a presença dos jovens foi massacrante. Oba! Será? De acordo com dados da organização, entre 31 de agosto e 10 de setembro, o evento recebeu 680 mil visitantes, recorde absoluto e as editoras comemoram os resultados de venda. O principal crescimento foi do público jovem, entre 15 e 19 anos, é a terceira vez consecutiva que a participação dessa faixa etária registra aumento. Essa é uma boa notícia? Tenho dúvidas. Já visitei quatro Bienais do livro do Rio e os dados anteriormente citados não me assustam, surpreendem, muito menos empolgam. Foi bastante visível a adaptação de programação do evento para surtir esta mudança. Tanto os autores convidados como as atrações interativas foram ficando cada vez mais jovens a cada pular de dois anos. Na primeira em que compareci, o espaço mais vazio – e portanto de melhor circulação – era primordialmente ocupado por adultos. Era possível notar uma grande quantidade de professores e os autores convidados correspondiam ao público. Lembro-me de poder trocar palavras com  Edney Silvestre e Miriam Leitão com tranquilidade e autógrafos em 2011, os debates no espaço do “Café Literário” sempre cheios e com assuntos pertinentes à atualidade de cada ano. Depois deste 2011, o fenômeno Youtuber tomou conta da Bienal. Os queridinhos dos adolescentes começaram a dar às caras ao vivo e a cores no evento e foi aí que tudo se deu. Não há mágica, não há interesse real pela leitura. Há ídolos. Em 2015 foi impossível andar calmamente nos pavilhões do Riocentro sem se deparar com algum fã alucinado e aos berros da Kéfera, que foi recorde de vendas no ano. Neste 2017, a atriz mirim de 15 anos, Larissa Manoela arrastou multidões esvaziando os demais debates e ensurdecendo com gritos e tratando com empurrões o restante do público da Bienal para lançar sua autobiografia.  Isso sem citar os coloridos cabelos dos admiradores do Felipe Neto preenchendo a cota Youtuber de sucesso na Bienal. Há algum mal nisso? Não sei. Há algum bem? Também não sei. Essa é uma pergunta que apenas o tempo poderá responder, mas, acho qualquer comemoração precipitada e a necessidade de uma profunda reflexão urgente. Estamos formando novos leitores ou transformando o evento literário em uma mera possibilidade de encontrar ídolos que pouco acrescentam na vida de leitor de um jovem? Os números realmente importam mais que a qualidade do que está sendo consumido e vendido? Enquanto caminhava pelos corredores das editoras ouvi por acaso de uma garota “poxa, não beijei ninguém ainda”. A Bienal virou uma festa teen.

As discussões sobre a obrigatoriedade de listas de vestibulares que ostentam nomes como Machado de Assis, José de Alencar, Goethe e afins,  permeiam com frequência o mundo literário, e a disputa “prazer x obrigação” acaba sempre em um exaustivo round sem vencedores. Incentivar a leitura do jovem é essencial e indiscutivelmente uma unanimidade para um futuro mais promissor de qualquer país, mas me parece que estamos emperrados em um “como?”. Será que é levando ídolos tão jovens quanto para atrair o olhar para aquelas páginas que vão além de 140 caracteres? Será que é apresentando os grandes clássicos que maneira mais atrativa e entusiasmada? Será que é sendo o exemplo e se dedicando mais às leituras consideradas difíceis e chatas? Não sei. Tenho esperanças que a Bienal Teen crie leitores realmente interessados, mas essa esperança não resiste até a página 2. Em um stand, da editora Rocco, que imitava o castelo de Harry Potter, com muitas vassouras, luzes, corujas e varinhas, ouvi de uma adolescente, entre muitas fotos, selfies e poses: “que capa bonita, dá até vontade de ler” com um exemplar do bruxinho nas mãos. Sorri, mas os olhos ainda estavam um pouco chateados de ver no mesmo espaço uma linda homenagem para Clarice Lispector tímida e vazia no canto. Há uma longa estrada para ser percorrida, torçamos para que o pontapé inicial não nos leve para o caminho inverso.

E você, o que acha? Como aproximar os jovens da leitura: com ídolos da mesma faixa etária ou com a obrigatoriedade de clássicos?

 

Categorias:Literatura

4 respostas »

  1. Nessa Bienal senti exatamente isso, havia adolescentes demais (o que nak é de todo ruim) mas não estavam lá por livros ou pela paixão de ler , somente para ver algum astro , e aí que está , não estamos formando leitores, e sim adoradores de celebridades.
    Praticamente todos os adolescentes ou crianças que vi tinham livros de Youtubers e geralmente um só .
    Na Bienal anterior, a Kéfera lotou um dos pavilhões ( o verde eu acho ) , não me lembro de tanta confusão em um lugar em nenhum outro lugar , espero que nos próximos anos tenhamos amadurecidos e passado a dar mais valor a autores nacionais de pequeno porte .

    Curtido por 1 pessoa

      • Sim, mas acho que infelizmente nada vai mudar muito, é um jeito fácil e rápido de atrair jovens , vamos ser sinceros , os organizadores não estão se importando com leitura, só com dinheiro que gera .
        Para eles é bom que muitos jovens encham o lugar pagando ingressos e comprando dezenas de livros de Youtubers … Mas vamos ter fé de que alguma coisa mude

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