Literatura

A construção do Inferno de Dante Alighieri: uma doutrina aristotélica

A mais conhecida obra de Dante Alighieri, celebrada e estudada mundialmente, é o poema épico A Divina Comédia (antes conhecido apenas como “Comédia; o “Divina” foi acrescentado pelo poeta Giovanni Boccaccio) que descreve a viagem de Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. A data de sua publicação é incerta; acredita-se que o livro começou a ser escrito em 1304 e foi terminado em 1321. Esse período coincide com o exílio do poeta. O poema é constituído por diversas simbologias, principalmente pelo número 3.

Dividido em três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso – de 33 cantos cada (exceto o Inferno, que é composto por 34 cantos), o livro foi escrito originalmente em toscano e contribuiu para a formação da língua italiana. Sua importância é universal para entender os problemas de Florença na época de Dante e seu próprio exílio após ser traído por florentinos. Otto Maria Carpeaux explica: “Mas a Divina Comédia não tem ação; não tem enredo. O único elemento que liga os versos, reúne os cantos, junta as três partes, é a pessoa do próprio poeta, constantemente presente. Do começo do Inferno até o fim do Paraíso, é Dante que fala. É uma obra de expressão pessoal, uma obra lírica, no sentido da estética crociana: o lirismo é o centro vital da obra de arte. Por isso a Divina Comédia vive.”

A Divina Comédia é toda permeada pela visão de Dante Alighieri. Ele descreve como deve ser a justiça divina frente aos pecados, falhas e vícios de personagens célebres da literatura e história mundial ou de Florença. A organização do Inferno é cuidadosa e específica e cada círculo é designado a um pecado.

Isto posto, pergunta-se: a estrutura do Inferno elaborada por Dante é totalmente original ou é inspirada por alguma teoria? É sobre isso que este texto será baseado; a análise será simples, pois o assunto e as obras são extensas e contém muitas particularidades. Para uma análise mais aprofundada recomendo a leitura de textos de especialistas da área.

A influência do livro Ética a Nicômaco, de Aristóteles, em A Divina Comédia

Ética a Nicômaco é o principal livro sobre ética escrito por Aristóteles; discípulo de Platão, o filósofo expõe o papel das virtudes, hábitos e prudência na vida dos homens. Aristóteles fala também sobre o conceito de justiça e como ele é aplicado diante de falhas de virtudes, paixões e disposição de caráter cometidos pela humanidade.

Em seu livro “O ser e o tempo da poesia”, Alfredo Bosi discute de que modo a doutrina aristotélica influenciou Dante Alighieri na construção do Inferno e de seus vários níveis, como exemplifica o trecho: “O ponto de vista doutrinário exerce, no poema, o seu papel corrente de mediação entre o olho do poeta e as coisas a serem descritas, as histórias a serem narradas. Enquanto mediador, o ponto de vista ordena as figuras no todo e atribui a cada uma a sua melhor posição dentro de uma hierarquia prévia de valores. Por isso, a Ética de Aristóteles foi absolutamente necessária a Dante na hora de decidir onde devia situar cada alma no funil do Inferno; e quem ficaria acima de quem, abaixo de quem e com quem.”

O Inferno criado por Dante tem o formato de um funil. Quanto mais perto da base está o pecador, mais grave é seu delito e, por conseguinte, o seu castigo. Cada nível do funil é chamado de círculo. A hierarquia dos pecadores é justamente a proposta por Aristóteles na Ética, exceto antes da entrada do Inferno e o 1º e 6º círculos. Essas são criações do poeta de importância significativa; os ignavos – posicionados antes da entrada do Inferno – eram aqueles que escolhiam não fazer o mal, mas por outro lado eram omissos ao bem. No Limbo, o 1º círculo do Inferno, ficavam as crianças não batizadas e aqueles que morreram antes de Cristo, inclusive o guia de Dante pelo Inferno, o poeta Virgílio. Os ocupantes desse primeiro círculo não sofrem um castigo, pois não há culpa consciente; porém não há possibilidade de salvação. Aos hereges é reservado o 6º círculo; eram aqueles que não acreditavam na eternidade da alma.

Uma das principais características dos círculos infernais são as intensidades dos castigos conforme os pecados cometidos. Aristóteles diz que o castigo leva a cura, portanto é natural que o pecado seja punido por um castigo exemplar: “Por outro lado, se as virtudes dizem respeito a ações e paixões, e cada ação e cada paixão é acompanhada de prazer ou de dor, também por este motivo a virtude se relacionará com prazeres e dores. Outra coisa que está a indica-lo é o fato de ser infligido o castigo por esses meios; ora, o castigo é uma espécie de cura, e é da natureza das curas o efetuarem-se pelos contrários.”

Os castigos variam conforme os “níveis” dos círculos infernais. No 1º círculo (não batizados e sábios que morreram antes de Cristo), o castigo é a impossibilidade de salvação; no 2º círculo (luxuriosos), os pecadores são condenadas a um vento incessante que arrasta violentamente suas almas; no 3º círculo (glutões/gulosos), Cérbero arranha-os e esquarteja-os enquanto uma chuva escura os açoita. No 4º círculo (avaros e pródigos), as almas empurram com o peito um bloco de pedra gigante; ao encontrarem-se, separados em dois grupos, gritam uns para os outros “Por que poupas?” ou “Por que dilapidas?” eternamente; no 5º círculo (iracundos e rancorosos), os irados debatem-se no pântano Estígio, enquanto ferem a si mesmos pelo corpo inteiro e os rancorosos jazem no fundo do Estígio, murmurando sempre.

Já no 6º círculo (heréticos), os pecadores permanecem em suas tumbas rodeados por fogo, pois negaram a imortalidade e pregaram durante a vida que a morada última do homem é o sepulcro; no 7º círculo (violentos: sodomitas, suicidas, blasfemadores e usurários), as almas dos suicidas são troncos mortos onde harpias fazem seus ninhos, enquanto os sodomitas, blasfemadores e usurários são açoitados por uma chuva de fogo.

O 8º círculo é o maior de todos, pois é dividido em dez valas, as Malebolge, segundo o castigo a ser cumprido; os rufiões são açoitados por demônios chifrudos, enquanto os aduladores e sedutores chafurdam em fezes; os simoníacos estão presos pelo tronco e seus pés estão em cima do fogo, fazendo-os debaterem-se por estarem com as solas queimadas; magos e adivinhos têm a cabeça torcida em relação ao corpo; os traficantes cozinham em piche fervente. Os hipócritas são condenados a vestir pesadas capas de chumbo; os ladrões são rodeados de serpentes que os atacam, provocando diversas transformações em seu físico; os maus conselheiros são presos por chamas que os envolvem por inteiro e continuamente; os cismáticos e intrigantes são obrigados a percorrer eternamente a vala, e quando cada volta é completa são cruelmente estraçalhados por um diabo; por fim, os falsários, que têm o corpo todo coberto de sarna.

O 9º e último círculo do Inferno também é dividido, distribuído em giros. No giro de Caína encontram-se os traidores de parentes; em Antenora, os traidores da pátria; no giro de Ptolomeia encontram-se os traidores de hóspedes e por fim, no de Judeca estão os traidores de benfeitores. Nos giros de Caína e Antenora, os traidores de parentes e da pátria são condenados a permanecerem imersos no gelo, só com a cabeça para fora:

“Até onde manifesta-se a vergonha

Lívidas sombras no gelo afundavam,

Batendo os dentes como faz cegonha.

Todos pra baixo seus rostos voltavam:

Na boca o frio, nos olhos o magoado

Coração eles todos demonstravam.”

No terceiro giro do nono círculo, a Ptolomeia, os traidores dos hóspedes também são condenados a permanecerem imersos no gelo, porém com os rostos voltados para cima, fazendo com que suas lágrimas congelem e impedindo-lhe a sequência do choro. No quarto e último giro do nono círculo, a Judeca, os principais traidores de seus benfeitores são continuamente mastigados em cada uma das três bocas de Lúcifer; os demais pecadores desse giro estão completamente imersos no gelo e nenhum é identificado.

Portanto, assim é composto o Inferno construído por Dante, inspirado na teoria de Aristóteles. Na Ética, o filósofo explica detalhadamente cada uma das virtudes, paixões e excessos, criando a base para o livro clássico de Dante Alighieri. Outro fator determinante para encaixar cada pecado em seu devido círculo e na gravidade correspondente é a lei do contrapasso. A lei estabelece a correspondência da punição recebida com o pecado cometido, como por exemplo o castigo dos adivinhos, que é permanecer com a cabeça torcida em direção oposta ao tronco; eles não poderão mais ver o que está a sua frente, somente o que está atrás. Alfredo Bosi explica: “Contrapasso quer dizer: correspondência entre a culpa e castigo posto em uma relação contrária ou exasperante. A lei em si, como a de Talião, é moral; a sua dinâmica será, em Dante, poética.”

Apesar de ser uma análise simples, pois seria necessário um estudo mais aprofundado para conseguir abarcar todas as particularidades do texto de Aristóteles que Dante adotou, foi possível estabelecer um vínculo estreito entre as duas obras. Dante Alighieri transformou seu livro em um clássico estudado mundialmente, e conhecido principalmente pela estrutura do Inferno. Ambos os autores elaboraram obras de importância que continuam atuais mesmo séculos depois de sua publicação. Ambos serão lembrados eternamente pela significativa contribuição para a humanidade.

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