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“Uma foto, um texto”: O peso do mundo

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O texto:

O barulho do sapato de salto contrastava com o arrastar de pés e sandálias rasteiras nas ruas de pedras. O vestido colado todo preto de grife a isolava entre roupas coloridas e esvoaçantes de panos leves. Os óculos escuros e a maquiagem impecável silenciavam os burburinhos dos comerciantes e locais mais próximos. Tudo destoava na paulistana ao entrar no mercado Ver-o-peso, em Belém. Tinha sido uma viagem difícil e a reunião durará duas horas mais que o planejado. O voo de volta estava marcado para dali a três horas e ainda teria que passar no hotel para pegar a pouca bagagem, mas ela não poderia deixar de visitar aquele espaço tão comentado tanto entre senhoras viciadas na novela das nove como por empresários famosos quando revelado que a próximo negócio seria fechado na cidade. A fama do mercado é extensa e se difunde com uma velocidade impressionante quando qualquer um toma conhecimento que você irá até a capital do Pará. As listas de encomendas e coisas a serem levadas como suvenir não cessam até o “portas no automático” da decolagem. Há solução para tudo. Desde fome e sono até o amor. Dos mais primitivos e fisiológicos problemas, até as mais subjetivas e complexas questões da alma. Uma promessa de felicidade em forma de capitalismo e disfarçado de cultura. Para uma empresária paulista e sisuda, nada mais atraente, seja para desdenhar ou para exercitar a escondida espiritualidade. Quase sempre um misto dos dois.

Enquanto caminhava e causava um frisson mudo, ela continua com a cabeça erguida e passos firmes, como em uma passarela; era força do hábito. Aprendeu desde cedo, por ser mulher, que deveria ter essa postura para conquistar o respeito dos homens. Algo que deveria ser o mínimo, para o sexo feminino, em um mundo tão misógino e corporativista, era uma questão que requeria muito esforço, rímel a prova d’água e band-aid para as feridas dos pés. Ela não se abalava, nem se envaidecia, estava acostumada com a reação, mesmo em São Paulo, ela era bonita e chamava muita atenção, até em ambientes adequados a recebê-la em seus trajes habituais. Era algo que tirava de letra ter a atenção julgadora, admirada e invejosa dos outros.

Apesar de ter interesse em todas as opções gastronômicas, medicinais e culturais do mercado, ela tinha a indicação e um endereço certo já que seu tempo era curto: o box com os vidrinhos coloridos que prometem solução para qualquer mal. Não foi difícil achar, a dona é famosa, e como fama atrai fama, os artistas adoram dar às caras por lá para se abastecerem de tudo que eles já têm.

Era realmente impressionante. Ela sequer conseguia contar quantas possibilidades existiam ali. Um arco-íris de soluções fáceis com um pote de ouro em ml ao final de cada. De impotência sexual à gastrite. De dinheiro ao amor. Para tudo um combinado, uma promessa, um líquido, um placebo, um elixir da vida. Pela primeira vez ela tirou os óculos escuros para observar melhor aquele colorido sem a influência das lentes dos óculos Dolce Gabbana, foi a chave para que uma senhora muito simpática aparecesse e se colocasse a falar sem que ela conseguisse entender um terço do que era dito. Muito simpática e prestativa, a comerciante era uma enciclopédia em audiovisual de todas as ervas e curas das mazelas presentes nas ervas paranaenses. Impassível e imóvel, a empresária escutava com atenção o discurso da articulada senhora. Imaginou que bela parceira de negócios seria com tamanha habilidade de comunicação e convencimento. Só se moveu e saiu de seus próprios pensamentos quando questionada sobre qual solução ela procurava. Foi a primeira vez que ela desviou o olhar dos vidrinhos hipnotizantes e olhou nos olhos da senhora que enfim parou de falar. Encarou aquela mulher de roupas coloridas e visual jovial por longos segundos, sem conseguir esboçar uma resposta. Qual a solução ela procurava?

Era bem sucedida, trabalha até demais, mas não chegava a ser um problema, ela gosta de ser útil. Não estava em um relacionamento estável, mas tinha sempre companhias para se divertir, os homens eram gentis com ela e a solidão por vezes era uma escolha que ela fazia com consciência de que aguentaria, e mais que isso, lhe era necessária. Não tinha nenhum problema de saúde, pelo contrário, tinha boa alimentação, se exercitava, tudo em dia, obrigada. E o dinheiro, bem, estava de bom tamanho. Mas.

O mas é sempre o problema. Voltou a olhar para os frasquinhos tentando achar algum que possuía aquela conjunção adversativa, sem sucesso. Enquanto isso, a impaciente e agitada vendedora já voltava a falar, citando um por um os nomes folclóricos e bem elaborados dos vidrinhos: “Chama dinheiro”, “Amansa corno”, “Chama Negão”, “Chora nos meus pés”, “Vai buscar quem está longe”. Longe. A mente da paulistana continuava longe ouvindo aquelas expressões divertidas. Em algum lugar onde o ‘mas’ habita, em algum limbo vazio e solitário que ninguém consegue acessar. A falta de acesso. Não é esse o mal moderno? O eterno querer mais e ter apesar o mas? Ter todas as possiblidades nas mãos e todo o Google na frente dos olhos. As soluções são clicáveis, compartilháveis e efêmeras. E nos enchem de vazios. De questões que são sumariamente resolvidas, feito um beber de líquidos milagrosos. Engarrafados e chamativos. Pensou em Schopenhauer, em Bauman, no Zuckerberg. Pensou em não pensar, pois ela sempre pensou demais e sentiu de menos e agora toda a sociedade com esse mesmo vício, o vício por saber sobre tudo e esquecer a importância do nada. É no nada que o mas se encontra? Havia nela um descontentamento profundo e indecifrável, um incômodo que era sempre deixado de lado, uma insatisfação que parece não caber no mundo. Talvez por ser leviano, talvez por ser único, talvez por ser de todos e de ninguém, ao mesmo tempo, talvez por ser óbvio, talvez por ser. Era um desejo de chorar que lhe acometia em momentos aleatórios do dia. Era um pensamento de não pertencimento. Era uma vontade de isolamento. Era uma sensação de abandono. Era uma impressão de desimportância. Era uma pergunta sem solução.

“Mas…” Era a única coisa que ela conseguia dizer para a vendedora, que nem reparara, já tinha desistido dela e atendia empenhada um grupo grande de turistas felizes. Ela sorriu, agradeceu em um murmúrio inaudível, colocou os óculos novamente para disfarçar os olhos vermelhos e partiu decidida e pronta para comprar o que terminaria com seu mal. Achara enfim a sua solução fácil e definitiva.

24 horas depois seu corpo foi achado na cama do hotel de luxo ao lado de um vidrinho colorido e vazio. Veneno. Era veneno.

 

(Para participar: seguir o perfil @umafotoumtexto e marcar a foto escolhida. Um texto por semana. Participe)

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