Entrevistas

Bianca Mól: A Garota Desdobrável

“Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená, tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar. Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo e a gente quiser, ele vai pousar…”, seja na voz marcante de Toquinho ou nas propagandas antigas da marca famosa de lápis de cores, não há quem não tenha imaginado desenhos ganhando vida ao ouvir “Aquarela”, ou que, na mais terna infância, não tenha sonhado com gestos, falas e histórias dos personagens que criou com as próprias mãos. A imaginação  se desdobrando, em magia e companhia das folhas que suportam devaneios e poesia sem pudores, nunca foi só um sonho longínquo e perdido para Bianca Mól, uma carioca de 26 anos que encanta e emociona a internet com vídeos envolventes e impecáveis.  De temas olímpicos para a Rede Globo à clipe de música, Bianca têm conquistado o coração de espectadores e leitores e está prestes a alcançar 10 mil inscritos no seu canal do YouTube “Garota Desdobrável”. Conversamos com a artista multifacetada que nos enche de bons sentimentos e de uma esperança  aprazível de que o mundo, não, não se descolorirá. Confira as inspirações e curiosidades da garota que dobra nossos corações e os carrega no bolso:

SI: Quando você descobriu a sua aptidão para o desenho? Foi uma vocação ou mais um aprendizado? 

BM: Desde pequena eu amo desenhar. Quando criança, sempre tinha por perto papel, lápis de cor, canetinha… Algo bem parecido com os dias de hoje. Por gostar tanto, lá pelos meus 10 anos entrei em um curso de desenho. Acontece que as coisas não se desenrolaram como eu esperava. Naquela época, eu estava louca para fazer traços no estilo mangá, sabe? Chegando na aula, os professores pediram pra gente copiar maçãs e fazer a sombra delas. Eu não tinha o menor jeito para natureza morta. Queria só saber dos desenhos japoneses, com aqueles olhões gigantes, os cabelos coloridos, as saias pregueadas. Eu não me recordo ao certo, mas devo ter frequentado durante um mês com a minha irmã. Fora essa experiência curta, nunca fiz curso. Acho que traumatizei. rs

Eu gostava – e gosto – de experimentar estilos diferentes, por isso percebo que viajei bastante nos traços com o tempo. Faz parte de se descobrir.

SI: Como surgiu a ideia do canal e dos vídeos? 

BM: O canal surgiu a partir de uma inquietude de criar conteúdo. Eu sempre tive diários, depois blogs. O “Garota Desdobrável”, inclusive, nasceu como um espaço na internet onde eu pudesse postar minhas crônicas, meus pensamentos e os meus devaneios. Ao mesmo tempo, eu tinha bastante vontade de seguir no meio audiovisual. Todas as áreas me atraíam, em especial o Roteiro e a Direção de Arte.

No entanto, só tinha a experiência da universidade, dos cursos… Foi quando, um dia, resolvi gravar um vídeo me desenhando. Foi pouco tempo depois de retomar o hábito de desenhar, após um hiato de quase cinco anos. Logo em seguida, minha mãe sugeriu que eu narrasse um dos vídeos com uma das histórias que eu escrevia. Como sou tímida, a minha primeira reação foi negar efusivamente. Nossa, eu neguei demais! A minha sorte foi que ela me deu força, e eu resolvi (pelo menos) tentar. O resto é história – literalmente. Logo no primeiro vídeo eu senti que havia me encontrado. Pude me “desdobrar” nas diversas áreas e achar, enfim, uma forma de me expressar para o mundo.

Já se passaram quase quatro anos e a cada vez eu sinto que me encontrei mais. O estilo mudou um pouco, mas a essência da contação de histórias com as animações artesanais se manteve.

Garota Desdobrável 2
 

SI: Você faz tudo sozinha. Como é o processo criativo e de criação? 

BM: Tudo nasce na ideia. Ela pode vir de uma canção, de um objeto, de algo que li ou ouvi na rua, num filme, num sonho. A partir daí, em geral, costumo procurar a trilha sonora perfeita. Quem adora me ajudar nisso é minha mãe, e essa parte sempre dá um trabalhão. Pesquisamos um bocado, viajamos por vários estilos. Tudo para encontrar uma música que dialogue com a história. Ou melhor: que abrace a história.

Daí para frente, escrevo. Quando a ideia está clara, o roteiro flui rapidamente, como se já estivesse escrito em algum lugar da cabeça. Então, com o roteiro pronto, divido as etapas do que preciso produzir e parto para os desenhos – sempre a parte mais demorada. Lápis, caneta e, enfim, lápis de cor, aquarela ou canetinha.

Depois é a hora das filmagens e das animações, algumas com e outras sem stop motion. É quando eu descubro novas técnicas e possibilidades, seja com a câmera, seja com a luz, seja com o cenário… Logo após é hora de narrar.

Por último fica a montagem: transformar cada parte em uma história só. Cada vídeo me exige bastante, pois sinto que preciso mergulhar naquele universo para criar. É por isso, imagino, que me sinto realizada a cada término. Foi a forma que encontrei de expressar o que guardo em mim e o que mora na minha imaginação. Ler, depois, mensagens de pessoas que foram tocadas por essa arte de alguma forma faz todo o esforço valer a pena.

SI: Quanto tempo demora em média para um vídeo ficar pronto? 

BM: Isso varia. No começo, quando os vídeos eram mais simples, levava de um dia a uma semana. Hoje, faço inúmeros cenários e personagens, além de sempre querer experimentar o novo. Por causa disso, dificilmente produzo um vídeo em menos de um mês, conciliando outras atividades do dia a dia. Gosto de ter tempo para criar e poder me dedicar a cada pedacinho de papel, pois acredito que a beleza more tanto nos detalhes quanto na simplicidade. 🙂

 SI: Qual é a parte mais difícil? Tem alguma etapa que você goste mais de fazer?

BM: Eu não sei se é a etapa mais difícil, mas a etapa menos prazerosa é editar o áudio, porque significa ouvir a minha própria voz várias vezes. Isso acontece também na montagem e às vezes me deixa com vergonha. Não adianta, algumas coisas nunca mudam! rs

Sobre a etapa que mais gosto: difícil também. Eu sou toda indecisa. Amo a hora de buscar trilhas sonoras, pois sinto que realmente viajo por mundos diferentes. A música tem disso. Mas também sou apaixonada pela hora de colorir. Parece que tudo ganha vida.

SI: O que te inspira? 

BM: Ah, é tanta coisa! Música clássica me inspira. Eu coloco o fone e aumento para o volume máximo. Aí vou longe. MPB me inspira, também – a gente tem uns artistas maravilhosos, que cantam verdadeiras poesias, não é? O cinema me inspira, como a literatura – em ambos me interesso bastante pelo realismo fantástico. A lista só cresce. O mar me inspira. E o céu também. O céu tem um poder imenso sobre mim, pois amo tudo relacionado à astronomia, espaço, cosmos, ciência, natureza – pra mim, uma fonte inesgotável de boas ideias.

Acabo de tirar esta foto e não consigo não chamar de "rascunho"

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SI: Você fez um trabalho para o Globo Esporte nas Olimpíadas. Como foi o convite e a repercussão? Foi diferente produzir para a TV?

BM: Isso foi tão incrível! Às vezes eu custo a acreditar que foi verdade. O convite surgiu a partir do Globoesporte.com, daí seguiu para a televisão. Eu tive total liberdade para criar e contar as histórias que conto, só que com o direcionamento esportivo.

Todo o projeto foi bastante trabalhoso e me exigiu demais – em média, um ano e meio de produção. Tudo valeu a pena, pois foi ele que me permitiu ver minha arte, que me é tão pessoal e subjetiva, passear por casas que eu nunca pensei que poderia entrar. Eu me arrepio só de pensar! Vou sempre agradecer a todos que me ajudaram a tornar isso possível, lá no GloboEsporte.com, no Globo Esporte (TV) e no Esporte Espetacular (TV).É que criar conteúdo televisivo sempre foi um sonho. Eu nunca imaginaria, nem no meu mais alto devaneio, que o realizaria com algo que nasceu como um hobbie e, aos poucos, se tornou o meu universo.

(Você pode ver o trabalho da Bianca para o GloboEsporte.com neste link: Olimpíada Desdobrável)

SI: Você acabou de lançar um videoclipe com a banda República Popular. Quanto tempo se dedicou a essa projeto? O clipe foi feito conjuntamente com a banda ou você idealizou o enredo sozinha? Qual a sensação de ilustrar uma música?

BM: A produção do clipe, levando em conta todas as etapas, levou cerca de três meses. Isso inclui bastante pesquisa e curadoria no acervo de fotos, roteiro, produção, criação das ilustrações, filmagens, animação, montagem, finalização. Em especial, a parte da pré-produção me levou bastante tempo. Além de pensar no conceito, precisava entender a dinâmica de um videoclipe, pois foi a minha primeira vez criando um. Queria passear pelo tempo e pelas memórias sem perder o ritmo.

A canção “Curió” me tocou desde a primeira vez que escutei. Até hoje, após oito meses, me emociono e descubro nela algo novo. Além de tudo, eu e os rapazes da banda nos demos bem demais, o que só ajudou a construir uma obra em sintonia. O Igor, o Sergio, o Vinítius e o Viktor me deram, desde o começo, toda a liberdade para criar, e isso é uma grande prova de confiança em um artista.

É por isso que eu penso que ilustrar uma música deve ser algo bom. Agora, ilustrar uma música que fala direto com o seu coração é como ganhar na loteria. 🙂

(Você pode ver o clipe e uma entrevista com a banda para o Sete Íris neste link: República Popular: poesia para sossegar)

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SI: O que você lê normalmente? Ouve? Consome culturalmente de uma forma geral? 

BM: Eu sou apaixonada pelo Gabriel García Márquez. Além dele, me interesso demais pela obra do Shaun Tan, um escritor, ilustrador e quadrinista australiano que, para mim, tem um mapa com os cantos mais bonitos e diferentes da imaginação. O Liniers é outro. Sou fascinada pelo seu universo.

Falando de autores brasileiros, sou do time Machado de Assis. Do Jorge Amado também. Já fui uma imensa fã do Luis Fernando Veríssimo – é provavelmente o autor com mais livros aqui em casa – mas não tenho acompanhado muito o seu trabalho recente.

No quesito música, creio que o que mais escuto seja música clássica, rock e MPB. Estão sempre com um lugar reservado no meu coração: Beatles, Queen, Chico Buarque, David Bowie. Ultimamente tenho escutado bastante 5 a Seco. As letras e as melodias são lindas e tenho certeza que eles já cavaram o lugarzinho deles no meu coração, também.

Eu amo todo o tipo de storytelling. Gosto de buscar filmes novos ou clássicos, ouvir podcasts (de “StarTalk”, sobre ciência, a “The Moth”, sobre histórias) ou mergulhar em jogos que mais se aproximem de uma experiência cinematográfica. Tudo é entretenimento, tudo faz viajar por outros universos e tudo alimenta a nossa criatividade.

SI: Você tem algum trabalho preferido? Qual? Por quê?

BM: No momento, só consigo pensar no clipe “Curió”. Foi um processo tão novo e especial pra mim que me trouxe muita coisa boa. Nele, pude adentrar num mundo que me encanta: o das lembranças. Trabalhar com fotografias antigas, com linguagens diferentes, com a questão do tempo, do amor, da nostalgia, da saudade.

SI: Quais são os seus sonhos e projetos futuros?

BM: Eu sonho com dirigir um longa-metragem. Com levar a minha arte pra mais e mais pessoas por aí. É o retorno positivo que me faz seguir em frente, além da vontade de criar.

No campo dos projetos, já penso em um novo livro, em uma loja com a minha arte… Eu sempre me pego pensando nisso. Vamos torcer para, em breve, algum deles sair do papel! 🙂

SI: Vamos fazer um bate-bola! 

Cor preferida: Essa é difícil. Acho uma injustiça com as cores. Mas vamos lá: verde água.
Um livro: Cem Anos de Solidão. Desculpe o clichê, mas esse livro me marcou demais!
Uma música: Bohemian Rhapsody . E Blackbird. E… Ok. Parei.
Uma pessoa: Mãe.
Uma frase: “Mulher é desdobrável. Eu sou.” (Adélia Prado em “Com licença poética”)

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Para saber mais sobre A Garota Desdobrável:

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