Cinema

Documentários imperdíveis

Um gênero particular de filmes apresenta relatos de uma realidade que pode ser desconhecida para a maioria de nós: são os documentários. Com temas variados, podem tratar de moda e política, alimentação e desigualdade social, música e literatura; os documentários fazem pensar e promovem a reflexão mais aprofundada sobre o mundo. Selecionamos alguns representantes do gênero que julgamos essenciais. Confira:

cnqxiio05ndhmg79k4i9sctwyO Holocausto Brasileiro (2016)

por Thaís Albiero

O documentário baseado no livro homônimo da jornalista Daniela Arbex, lançado em 2013, conta a história do Hospital Colônia, um hospício criado em 1903 e localizado em Barbacena (MG). Pessoas que demonstravam qualquer sintoma de doenças mentais ou psicológicas eram internadas à força no local; apesar de ter sido idealizado com boas intenções de tratar os pacientes, a situação saiu do controle e o hospital começou a apresentar superlotação já em 1914. A falta de critério para a internação desses indivíduos causou o problema, pois sintomas como a tristeza já era suficiente para determinar a internação de alguém no Hospital Colônia. Por causa disso, as instalações do lugar e a qualidade de vida dos internos foram deteriorando cada vez mais.

Em 1979 foi o auge do caos dentro do Hospital Colônia: a sujeira, os pacientes todos nus, o frio, a fome, as doenças, e muitas outras humilhações. Os registros do Governo de Minas mostram que ao menos 60 mil pessoas morreram dentro da instituição; os mortos foram enterrados como indigentes em um local claramente inadequado e em alguns casos os corpos foram vendidos para faculdades de medicina. É um documentário chocante; apresenta depoimentos de ex-internos, dos sobreviventes da tragédia e de pessoas que trabalharam dentro do local, assim como o homem que autorizava a venda dos corpos. Uma obra essencial para entender como a indiferença pode matar e como a cultura higienista pode ser perigosa se houver a conivência da sociedade.

363036.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxxArquitetos do Poder

por Fabi Mariano 

Não, o documentário não trata de arquitetura, trata de Marketing. E marketing político. Em tempos tão obscuros e revoltantes da política brasileira, o documentário de 2010 é quase obrigatório. Traz a perspectiva histórica das campanhas eleitorais e mostra que, desde o tempo de Vargas, a construção de um candidato é feita através da comunicação, da manipulação de informações e da idealização, mais do que dos projetos e ideias para o país. Com relatos de políticos, marqueteiros e jornalistas de renome, como Duda Mendonça (responsável pelas campanhas de Lula antes de João Santana), Ciro Gomes e Carlos Henrique Schroder (diretor de jornalismo da Globo na época), o documentário traça a trajetória sempre polêmica e inconcessa das grandiosas campanhas políticas: desde a época do rádio até as ostensivas e agressivas campanhas de marketing das últimas eleições. Para discutir o futuro, principalmente em fase tão decisiva para o Brasil, entre reformas políticas, fundos partidários bilionários e escândalos de caixas 2, é fundamental que olhemos o passado, afinal, foi ele que nos trouxe até aqui. De onde vem o dinheiro para campanhas tão elaboradas? Quais os interesses dos que patrocinam essas campanhas? Por que focamos tanto na personalidade do candidato e não na plataforma política proposta? São mesmo necessárias campanhas tão caras para falar sobre política? São perguntas que você não vai achar no documentário, mas só de te fazer pensar sobre só vale a pena. Assista.

The mask you live in (2015)

por Lu Bento

Um documentário sobre o papel do homem na sociedade poderia ser bem clichê, mas a diretora Jennifer Newsom consegue nos apresentar uma visão crítica das construção social da masculinidade. O documentário fala sobre como o machismo afeta os homens, que são estimulados a não demostrar fraqueza, não se conectarem emocionalmente com outras pessoas  e a serem violentos, pra citar algumas das situações que angustiam os jovens entrevistados  e nos mostram o quanto e necessário questionarmos as construções de papéis de gênero na sociedade sob todos os ângulos. Olhar para as opressões na construção da masculinidade é um exercício necessário para compreender que o comportamento machista é construído e permeado por uma série de imposições aos homens, que também sofrem com o machismo e agem de maneira diferente do que gostariam para se adequar aos padrões.

A premissa do documentário pode gerar uma série  questionamentos, principalmente por visibilizar as opressões sociais vividas pelos homens, mas a obra passa bem longe de justificar o machismo. A ideia é perceber a situação por vários ângulos,  mostrar que não se trata  exatamente uma guerra de sexos e que tanto feminilidades quanto masculinidades estão mais relacionadas a aspectos sociais que biológicos.

O documentário pode ser visto na Netflix e o trailler está disponível no youtube.

imagesWhat Happened, Miss Simone? (2015)

por Érika Camargo

What Happened, Miss Simone? nos mostra a trajetória de Eunice Waymon, jovem de talento inato para o piano até se agigantar e tornar-se a lendária cantora de jazz e ativista pelos direitos civis Nina Simone. A premissa do documentário é o questionamento que a escritora Maya Angelou direcionou a jazzista: “Miss Simone, you are idolized, even loved, by millions now. But what happened, Miss Simone?” [Senhorita Simone, você é idolatrada e até amada por milhões. Mas, o que aconteceu, senhorita Simone?], que condensa o movimento de ascensão e queda da estrela.

O documentário é um bom começo para conhecer o som, a fúria e a intensa paixão que moviam Nina Simone. É bem amarrado, nos permite ter um vislumbre das fases da vida da cantora para compreender um pouco de sua solidão, resultado de uma autenticidade imponente e vivaz. A montagem foi bem-sucedida e o ritmo nos mantém atentos e presos ao enredo. Uma pedida certeira no catálogo da Netflix.

Manoel de Barros – Só Dez por Cento é Mentira

por Andreza Modesto

Um dia eu li que não precisamos das maiores viagens, dos melhores eventos e de grandes datas para sermos felizes. Pelo contrário, podemos ser felizes com pouco e transformar os seres, os lugares, objetos e pessoas, em um desses momentos grandiosos. Aprendi a transformar o pouco em muito, o inútil ao útil, a tristeza em beleza e tantas outras coisas das quais Manuel de Barros provoca em mim. Quando o autor é questionado sobre como gostaria de ser lembrado, ele nos diz que se pudesse ter a marca da perenidade, seria através da poesia e completa “Nós todos somos iguais, vamos para a força, para o pó. E se pudesse permanecer um pouco, seria como poeta”. Melhor do que tentar descrever a fortuna de obras primas de um autor, é dizer o que sua poesia mudou na vida daquele que se sentiu tocado por ela.

Quando Manuel foi questionado – “Para que serve a poesia?”, ele foi enfático ao dizer que “É a virtude do inútil, é como um traste, algo inútil que está sendo jogado. Uma coisa que a gente não descreve, poesia a gente acha, descobre, eu sou procurado pelas palavras, eu sou excitado por uma palavra, ela se apaixona por mim”. Depois disso, percebi o que mais faz sentido para mim, o de ser encontrada, descoberta por algo ou alguém, nunca gostei de procurar. Procurar sempre foi com algum intuito na cabeça ou outro sentimento antecipado, no entanto, ser encontrada, é maior, é virtude de quem vê além e meu espírito se inebria por isso. Me sinto, me toco, me encontro através das letras, sílabas e a capacidade de transformar uma imagem em poesia. Poesia é, realmente, “voar fora da asa”.

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