Literatura

Crônica: a verdadeira autoajuda

Hoje em dia, em um mundo regido pelo falso moralismo do politicamente correto é difícil você ser contra alguma coisa. Primeiro porque está na moda ser contra qualquer coisa. Segundo porque sempre tem um – quando não muitos – que se ofendem tão seriamente com a sua opinião que você vira a mosca do cocô do cavalo do bandido. E haja paciência para argumentar ou apenas aturar esses insurgentes sem causa. Mas, eu vou respirar fundo, criar coragem e falar: odeio e tenho tudo contra livros de autoajuda. Acho que aliena, que ilude e, no meu caso, me deprime mais que qualquer linha de um niilista. Acho deplorável. Literatura barata. E não é preconceito, porque eu já li alguns. De Agusto Cury a Rhonda Byrne, com seu famoso “O Segredo”. Único livro na vida que não terminei e que me arrependi de ter comprado. Dinheiro jogado fora e mentalizar aqueles reais de novo na minha conta não deu certo. Como dizem por aí e assino embaixo, autoajuda só ajuda mesmo a quem escreve enriquecer a custa da fragilidade dos outros. Outro dia li, em algum lugar que não me lembro, de alguém que não sei mais quem é, que para fazer um sincero livro de autoajuda só precisa de uma página escrito: venda ilusões. Augusto Cury é quase isso com o “O Vendedor de Sonhos”, auto-ajuda disfarçado de romance. Para mim, os verdadeiros livros de autoajuda são os de crônicas. Esses sim a gente lê e fecha se sentindo melhor. E sem ilusões, muito pelo contrário. O cronista é um pessimista em potencial. E como disse Rita Lee brilhantemente outro dia no Twitter: “Pessimista é aquele que perdeu a esperança de tanto ouvir o otimista falar”. É isso. O cronista é aquele que vê o mundo como ele é, diariamente, é ele que te atenta para o pior do mundo e faz graça disso. A melhor cura é rir de si mesmo. Ele que te mostra que está tudo errado mesmo e o problema não é com você não. Olhe a sua volta, está tudo muito louco. O livro “Topless” da Martha Medeiros tem esse efeito ao cubo. Por quê? Porque ele é feito de crônicas de 1995 – 96 – 97 e … deprimam-se, quase nada mudou! Os temas são: política corrupta, sistema carcerário falho, mulheres acumulando funções, tecnologia dominando a vida, homens perdidos. Tudo igual. Você lê e confere três vezes a data pra ver se não é de hoje mesmo, se surpreende e se aterroriza de como estamos estagnados, mais de vinte anos se foram e os problemas ainda estão aí e pior, agora o Steve Jobs e o Gabo morreram. Martha chega até a prever o futuro na crônica: “Dia Internacional do homem”, onde ela fala da crise existencial masculina pela crescente independência feminina e intui que um dia os homens criariam uma data só pra eles, pois bem, nos últimos anos, aqui no Brasil, o dia 15/07 virou o dia deles. E haja futebol e cerveja. Tirando os avanços tecnológicos que revelam tal qual pé de galinha em rosto de senhora a idade do livro, ele cai muito bem nos dias de hoje, a maioria dos livros de crônica têm esse efeito e são atemporais. Melhor do que gostaríamos. Um fenômeno curioso nas minhas recentes leituras de cronistas: tenho gostado mais dos livros antigos que dos novos. Acredito que justamente por eles terem a licença poética moral de, no tempo em que foram escritos, não estarem sobre a regência do politicamente correto. São perdoáveis. Li uns poucos meses atrás o “Trinta e poucos” do Antonio Prata – que adoro – e não gostei. Tem textos machistas e duvidosos, ele já não tem a desculpa da ignorância. Não me caiu bem. Estamos na transição de fases, com extrema liberdade de expressão (ainda bem!), e dosar o quanto somos militantes engajados e fundamentais para o crescimento da sociedade e o quanto somos apenas chatos querendo impor nossa opinião, é a grande tarefa de todos, em especial dos chamados influenciadores e formadores de opinião. Afora a discussão contemporânea, ler Veríssimo, Martha, Fernanda Torres, Rubem Braga, Ruy Castro, é ler e respirar aliviado: ufa, o problema não é comigo não! Ou então, não apenas SÓ comigo. Nem precisa de análise, nem frases feitas como: acredite nos seus sonhos e sorria acima de qualquer coisa querido amigo porque o mundo é rosa e daqueles que acreditam na sua capacidade de superação. Haja. E por favor, fãs de Augusto Cury e afins, peguem leve com essa que vos escreve, é quase meu aniversário e eu fico sensível nessa data!

Leiam mais crônicas, menos autoajuda.

(Se você quiser discordar de mim vou amar, mas com respeito….)

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