Poética

Carta: domingos vazios

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Vovó,

Já são quase quatro meses sem a senhora. Como o tempo voa… E como ele é cruel ao levar pessoas que amamos tanto. Hoje, você estaria completando 88 anos e é triste não poder te dar um abraço apertado de feliz aniversário. Foi difícil habituar-se a sua ausência. Ainda é. São tantas coisas que você não pôde/não poderá ver e eu tenho certeza que traria uma alegria imensa para a senhora: o nascimento de mais uma neta, o casamento da Ju, a nova gestação da Raquel… A senhora sempre dizia que queria ver os filhos e os netos (e os bisnetos!) “encaminhados na vida” e com um bom futuro. Lembro o quanto a senhora se preocupava comigo em Campinas e com todos os outros que saíram de casa para conquistar boas oportunidades em outras cidades (ou país, no caso do César). Em breve eu me mudarei para São Paulo, vó. Fico imaginando o que a senhora diria se tivesse tempo para testemunhar isso. Ficaria com medo, diria que é besteira e que eu deveria continuar morando com os meus pais e arrumar um emprego por aqui. Não se preocupe, vovó. Eu ficarei bem; bem e feliz. As vezes precisamos enfrentar desafios para crescer cada vez mais e este será o meu. Fique tranquila, eu estou muito animada para começar.

Sabe, vovó, eu fico pensando que deveria ter demonstrado mais meu amor pela senhora; meu jeito de ser, toda quietinha e introvertida, impediu que eu fosse mais aberta. Eu tentava mostrar meus sentimentos de outras maneiras e espero que a senhora tenha enxergado e entendido. Desculpe se eu não deixei mais evidente. Estamos sentindo sua falta, vovó. Os domingos, antes preenchidos pelo tradicional café da tarde na casa da vovó, ficaram bem vazios. Eu sempre tentei estar presente para te ver por algumas horas, reunida com uma parte da família, conversando e passando um tempo gostoso com todos. Sinto que a senhora se alegrava vendo a família toda ao seu lado.

A verdade é que ninguém nunca está preparado para a morte, por mais que digam o contrário. Sempre existe aquela pontinha de esperança, aquela positividade perdida em meio de tanta tristeza que nos faz acreditar que não, ainda não acabou. Era o que eu sentia quando veio a notícia de que o seu coração estava fraquinho; eu não queria acreditar na gravidade da situação pois nós já tínhamos visto a senhora passando por coisas piores e se recuperando bem, sempre voltando para casa mais forte do que imaginávamos. Mais de uma vez, bem mais de uma vez. A senhora reclamava de dores nos joelhos, que te impediam de andar normalmente, e da diabetes (sempre controlada, por sinal) limitando a sua alimentação. Estava surpreendentemente bem e saudável para alguém da sua idade.

Apesar disso, contrariando as melhores expectativas de quem estava em negação, a senhora nos deixou menos de dois dias depois. Em um domingo. E novamente, família e amigos se reuniram para te visitar. Mas dessa vez não houve conversa, não houve riso. Nos reunimos para um último domingo em sua companhia, para o dia que ninguém desejava ver chegar. Nos reunimos para o adeus. Vó, foi difícil aceitar a sua partida, difícil assimilar. Foi tudo muito rápido. Fez-me perceber que somos nada e que é necessário cercar-nos de quem amamos, demonstrar em vida os nossos sentimentos e fazer o bem. A vida é um sopro. Meu coração partiu quando a senhora nos deixou e ainda sinto um nó na garganta quando lembro de nossos momentos juntas, mas me consola saber que agora não existe mais dor, sofrimento ou preocupação. Lembro do seu rosto sereno em nosso último encontro e sei que a senhora partiu em paz e sem dor, sabendo que o seu papel estava completo neste mundo.

Meus domingos e minha vida não são os mesmos sem a senhora, vovó. Sinto sua falta, mas sei que está bem. Obrigada por tudo. Eu sempre te amarei.

Com muito amor,

Thaís.

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