Poética

Denúncia: Desejo Desaparecido

Colorful balloons flying on sky.

É bem como diz aquela música do Renato Russo, o meu desejo se perdeu de mim. Não sei mais onde procurar. Já pedi pra São Longuinho, colei cartazes de “procura-se”, já revirei a casa, anunciei no carro da pamonha. Sumiu. Talvez esteja escondido em outra pessoa, como diria Marisa Monte: “o seu desejo é meu melhor prazer e o meu destino é querer sempre mais”. Se estiver com você, devolva! Talvez esteja aterrorizando alguma grávida desavisada. Talvez esteja entre as palmas de algum aniversariante coberto de estimas de saúde, amor e paz. Quem sabe esteja se sentindo rejeitado após se deparar com Schopenhauer entre os meus livros preferidos. Ou tenha se entusiasmado e se refugiado no poema “Os votos” de Sergio Jockymann. Ou será que devo procurar no poema cheio de quimeras do Drummond? Talvez ele esteja apenas dormindo, de conchinha com as minhas ilusões, que também andam sumidas. Talvez esteja festejando a minha sobriedade. Acho mesmo que é revolta por eu tê-lo trocado por propostas indecentes. Como se reconquista um desejo? Eu não sei. Talvez o tenha esquecido em algum olhar. Ou o tenha engolido na saliva de algum beijo inusitado. Ou o tesão o seduziu e o convenceu a ser apenas como ele: duro. Ou será que a razão o chamou de canto e o persuadiu a virar medo? Vou marcar o caminho de casa com grãos de sonhos para ver se ele volta. Nada de sonhos metafóricos, esses de padaria mesmo. Será que ele também me procura? Ou aprendeu a viver bem sem mim? Sinto falta dele me atazanando a vida. Feito criança mimada que quer ser atendido na hora. Sinto saudade daquela cosquinha irritante que ele me causava, aquela impaciência descomedida, a eterna insatisfação, a implicância com a letargia, a cumplicidade com as possibilidades. Talvez ele tenha se irritado com a sua relação mal resolvida com a espera. Ou tenha se cansado de brigar por prioridade com as responsabilidades. Talvez esteja de férias nas Maldivas. Ou esteja se especializando pra voltar mandando. Ou se identificou com o mendigo bêbado que vive dizendo que namora a lua. O desejo gosta desses arrombos poéticos. Um romântico. Não sei. Só sei que meu desejo se perdeu de mim. Feito cão que caiu da mudança. E eu olho todo dia pela janela na esperança de vê-lo voltar. 

Categorias:Poética

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