Comportamento

To write or not to write – ou o texto da agonia

Escrever é uma forma de exposição, de se abrir para o diálogo. A escrita pressupõe uma leitura, nem que seja apenas a do próprio autor. E ler é conversar com o que está escrito. Enquanto lemos, refletimos sobre tudo aquilo e formamos opiniões e impressões diversas sobre o que foi exposto.  Mas nem sempre estamos disponíveis para esse diálogo com nossas ideias. Aí mora o bloqueio da escrita.

Escrever é um desafio quando nos tira da zona de conforto.  Aprendi com uma amiga coach que o ideal não é usar a expressão “zona de conforto” porque conforto é algo bom, não precisamos deixar o conforto. Escrever nos tira da zona de acomodação, aquele lugar-tempo onde parece confortável estar, mas que ao mesmo tempo gera angústias que nos impelem a querer sair dele. Escrever é colocar para fora os pensamentos acomodados na mente, que vem e vão mas não saem do lugar por falta de uma forma de expressão.

Escrever é também um modo de se eternizar. A escrita é como um retrato do tempo em que foi colocada no papel e se torna um registro histórico de ideias, sentimentos e emoções. Ao mesmo tempo que ela traz para o presente tudo isso ao lermos, ela nos proporciona um distanciamento do que foi expresso provocando reflexões. Terapeutas e todos aqueles que escrevem seus diários que o digam. Mas a percepção que cada um terá desse deste texto depende da sua própria história e varia a cada leitura dependendo do momento de vida.  A palavra escrita guarda em si memórias e sentimentos do momento em que foi transposta pro papel, mas também pode assumir outros leituras para cada indivíduo – eu, por exemplo, escrevo esse texto transpondo toda a minha agonia em não conseguir escrever tanto quanto eu gostaria ou deveria. Para mim, escritora da vez, esse é o “texto da agonia”. Daqui a alguns anos, em uma nova leitura e momento de vida, os sentimentos que me inspiram a escrever hoje estarão impregnados em cada escolha de palavras, mas a minha leitura poderá se manifestar com menos angústia.

Escrever é um exercício de autonomia. É se permitir expressar seus pensamentos sem interrupções. Um texto só está pronto para ser lido quando o escritor define.  Com o ponto final, o escritor nos diz que aquela era a ideia que ele desejou transmitir. A escrita do ponto final não depende do outro e, por mais que o meio influencie, enquanto o escritor não decide que aquela é o sinal  derradeiro, não temos como inferir que aquele texto está finalizado, comunicando tudo que o autor deseja. Minha dificuldade em escrever é expressa no frequente uso de reticências. Com frequência não finalizo o texto, não completo o pensamento, abdicando do meu direito à autonomia e jogando para o leitor o poder de decidir se completei meus pensamentos ou não. Ou mesmo transmitindo a ele o direito de finalizar o meu fluxo de pensamento, passando uma sensação de que as ideias estão em aberto, que há algo mais ser dito sobre aquilo.

As reflexões sobre o que é escrever podem nos levar a compreender o porque escrever às vezes é tão difícil. Não falo apenas da escolha correta das palavras ou da organização lógica do fluxo de pensamento. Falo principalmente da disponibilidade em trocar com o outro, comunicar algo ou se disponibilizar para o diálogo. Falo da coragem em expor seu pensamento, com ponto final e convicção de que isso era o que o escritor tinha para contar nesse momento. Esse é o meu ponto final de hoje.

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