Música

O apanhador só, o machismo travestido da cena alternativa e o Tribunal do Feicebuque

No dia 4 de agosto, a banda gaúcha de rock alternativo Apanhador Só lançou um novo álbum, intitulado “Meio Que Tudo é Um”. Exatas duas semanas depois – ao contrário da agenda de divulgação do novo trabalho, que naturalmente se seguiria ao lançamento – a banda anuncia a suspensão das atividades por tempo indeterminado.

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A decisão do grupo partiu de um burburinho (essa palavra parece pouca para o quiproquó) desencadeado nas redes sociais pelo relato da atriz e escritora Clara Corleone – que, até o momento da publicação desse post alcançara impressionantes 54 mil curtidas – na qual denuncia Felipe Zancanaro, guitarrista da banda, de agressões físicas, verbais e psicológicas. Dentre as denúncias, ela conta como ele a expusera ao risco de contágio de DSTs e que, durante uma altercação, ele quebrou o seu dedo. Leia o depoimento na íntegra:


A indignação que levou Clara decididamente a abrir o jogo foi causada por uma faixa específica do álbum, a décima quarta, intitulada “Livre, leve e louca”. A música, de composição do vocalista Alexandre Kumpinski, diz o seguinte: “eu não te quero de branco, eu não te sonho no altar, eu te quero linda, louca e livre, lado a lado, enquanto nos faça algum sentido estar. (…) Eu não quero que esse elo lindo se transforme em algema”. Clara respondeu com uma paródia da letra que acha ser mais condizente com as atitudes do ex-companheiro.

Por sua vez, o guitarrista fez uma publicação no Facebook, declarando estar arrependido e em desconstrução do machismo.

O interessante da corajosa publicação de Clara foi ter levantado questões tais como a dos relacionamentos abusivos, do machismo velado na cena de música alternativa e de seus integrantes que se dizem, oh, tão desconstruídos – questão bem resumida pela Clara em sua paródia: “não entendo o teu desespero: a minha banda é tão bonitinha!”. Nos fez repensar a questão da relação entre artista e obra e na indigna e irresponsável apropriação dos movimentos sociais para angariar mais likes nos hits.

Contudo, como acontece com os virais das redes sociais, a coisa saiu do controle. O que se seguiu a isso foi um, diria o Tom Zé, “Tribunal do Feicebuque”. Ao post de Felipe, às respostas foram de ódio puro e concentrado.

Fiquei feliz ao abrir o Facebook nessa manhã e me deparar com um post da Clara Corleone, falando sobre essa perda de controle em relação as suas intenções primeiras ao fazer a publicação, como a coisa toda foi para um lado que ela não esperava e que não condiz com os seus desejos. Ela conta, por exemplo, que algumas pessoas foram ao seu inbox para chamar o ex-companheiro de “lixo humano” e dizer que ele deveria morrer. “‘…jogou isso no ventilador e agora tira o corpo fora’. se tirar o corpo fora é não apedrejar um ser humano, sim, eu tiro o meu corpo fora”, diz ela.

Essa coisa do linchamento virtual do Tribunal do Feicebuque me incomoda. A relação de quem apedreja e de quem é apedrejado é desigual. Isso é óbvio, já deveria bastar para reflexão. É desigual e é também desonesta porque quem aponta o dedo se coloca num pedestal de moralidade e de retidão, contra aquela criatura, que ao seu ver é tão vil, tão baixa, e para a qual não há possibilidade de redenção. Ao fazer um comentário no Facebook, os defeitos e erros do comentador não transparecem. Isso me lembra o Poema em linha reta, do Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
(…)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Prestem atenção – antes de apedrejarem a mim também – que, ao relacionar esse poema com o que aconteceu, não estou tentando equiparar atitudes machistas,  misóginas e extremamente perniciosas a simples erros. Estou relacionando a atitude arrogante dos apedrejadores, que aparentemente se julgam os semideuses de Pessoa, que se prestam ao papel de falar por quem não está pedindo representação, são incapazes de confessar um erro mas se deleitam ao apontar o do outro e se colocam numa posição de mocinho, na relação de mocinho X bandido.

Achei interessante que a banda precisou parar as suas atividades em decorrência dessa denúncia. Acho interessante que haja uma postura hostil com o machismo, sim. Machista não entende quando a gente passa a mão no cabelo, falando “meu amor, entenda que isso está errado”. Só compreende quando sente na pele, mesmo. Prova disso é que só depois do bafafá o guitarrista se declarou arrependido e pediu desculpas à ex-companheira pelo mal que lhe proporcionara. Olha o que precisou para que ele tomasse essa simples atitude – é patético.

Minha intenção com esse post, como o de Clara, é de propor uma reflexão sobre as relações abusivas, mas também de propor que coloquemos um espelho na nossa frente a questionarmos se podemos nos atribuir do papel de linchador moral e apedrejador.

 

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