Arte

Denise Fraga e a visita da velha senhora

Pré-estreia. Todos de pé, batendo palma. Enquanto isso, Denise Fraga agradecia e convidava as pessoas que trabalharam em “A Visita da Velha Senhora” para subir ao palco. Nós, público, éramos cúmplice de tamanha química. Dava para perceber que Denise tinha razão: deu muito certo. Aquele pessoal todo, junto, era o ensinamento de seus personagens e suas histórias. A sacudida na gente, plateia, só era possível porque eles já estavam sacudidos.

Fotos por: Cacá Bernardes

A velha senhora chegou com nome de visita, mas veio para ficar. A história, de Friedrich Dürrenmatt, foi escrita em 1956 e – veja bem – ainda é atual, se olharmos atentamente. Claire Zachanassian (Denise), saiu da sua cidade natal grávida, pobre e abandonada pelo companheiro da época. Os cidadãos de Güllen esperavam ansiosos sua volta, pois ela estava milionária e deveria ajudá-los. Mas para salvá-los da falência, havia uma condição: só se matassem Alfred Krak (Tuca Andrada), o homem por quem foi apaixonada e abandonou-a. A partir daí, o enredo é construído com graça, vingança, tragédia, especulação, bem estar social, amor, dinheiro.

No meio de tanta trama, Claire grita em algum momento: “O mundo fez de mim uma puta, e agora eu faço dele um puteiro”. O mundo que abandou Claire, é o mesmo em que vivemos: esse que se vê frágil diante de valores morais. Eu, da plateia, que ora sou público de teatro e ora sou cidadã da cidade de Güllen, faço as mesmas perguntas que o diretor Luiz Villaça fez, no programa da peça: “É assim? Somos assim? Onde vamos parar?”.

Pergunto para Denise Fraga sobre a vingança de Claire, baseada no amor, sustentada por dinheiro. Ela diz, atenciosamente: “É uma peça que fala do poder econômico acima de todos nós, que o Dürrenmatt, muito capiciosamente e muito inteligentemente, colocou na mão de uma mulher. Acho que nossa atenção deve estar em como ela transformou isso” – aperta minha mão e segue para cumprimentar e ensinar quem mais ali quisesse.

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Denise Fraga, em foto por Cacá Bernardes

Sorte que eu estava acompanhada, e não pensei sozinha depois. Entre conversa com Manuela Peixoto (amiga e jornalista) e Fábio Herford (prefeito na peça) – que se aproximou afim de uma troca sobre o espetáculo -, tivemos que concordar com Denise. A transformação é inteligente. Quando percebemos, estamos sendo questionados e questionando esse movimento diário e cotidiano da justiça, da esperança e do feminismo nas nossas vidas. Das nossas escolhas conscientes e inconscientes. Da especulação que criamos em cima de possíveis tragédias.

Depois de entender meu olhar, fico curiosa e crio coragem para perguntar qual é o olhar do próprio diretor, Luiz Villaça, se ele pudesse ser (se é que não é, também) espectador. O que te toca nessa peça? “Me faz pensar como a gente não consegue se entender como sociedade. Até hoje o homem não conseguiu um projeto para que as coisas aconteçam do jeito que deveriam acontecer. Que não fosse necessário esse desespero pelo dinheiro, que as relações fossem verdadeiras… a gente não conseguiu. O que me toca é isso.”

Para sentir de perto: 

Teatro do Sesi. Av. Paulista, 1 313. De quinta a domingo, 20h. Grátis.

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