Cinema

Cinema Nacional: não espere passar na Plim-Plim

Qual foi a última vez que você viu um filme nacional no cinema? Não se preocupe, não vai ter lição de moral, nem textão sobre nosso complexo de vira-latas. Somos mesmo. Ao menos no quesito cinema. Não há como comparar as megaproduções norte-americanas com o nosso modesto cinema brasileiro. A questão é: não há o que comparar. São coisas distintas e podem coexistir – muito bem, obrigada – no universo da arte. O que pretendo é fazer você olhar com mais carinho para esse vira-lata charmoso. É comum – e me incluo absolutamente nisso – pensarmos: não vou ao cinema não, logo esse filme passa de graça na Tela Quente da Globo. De fato, eles passam. Mas, sem toda a magia do cinema. Sem a tela escura, sem a pipoca, sem a apreensão em saber qual desconhecido sentará ao seu lado, sem a falta de disputa de atenção. Ir ao cinema é um entretenimento diferente. Tanto que, por mais serviços de streaming que temos e vamos ter, o cinema continua com seu lugar. Mas, voltando à pergunta do início do texto: qual a última vez? Eu torço para que não tenha sido com “Central do Brasil”, “Tropa de Elite” ou “Até que a sorte nos separe”. Nada contra o Leandro Hassum, muito menos contra a Fernanda Montenegro e Wagner Moura, mas nos últimos anos o Brasil teve excelentes filmes perdidos entressafras que mereciam um olhar mais atento dos compatriotas.

fica.4Eu me dei conta que o cinema nacional tem um potencial oculto em uma madrugada insone – o que é muito comum. Em um desses dias em que me vejo escrevendo ou lendo até 4h da manhã, começou no Corujão ou Sessão de Galã, tanto faz, “Fica comigo esta noite”, era o nome da agradável surpresa. A princípio uma comédia romântica que brinca com a morte. Depois de algumas poucas cenas o filme se torna uma ótima história de amor, com diálogos inteligentes e bem humorados, citações poéticas que vão de Fernando Pessoa a Nietszche. Vladimir Brictha e Alinne Moraes se destacam por suas atuações brilhantes, acompanhados de Laura Cardoso, o apaixonante Gustavo Falcão e Milton Gonçalves, a direção é de João Falcão. Buscando sobre o filme, descobri que foi lançado em 2006, quando eu ainda morava em uma cidade do interior de Minas, o que provavelmente faz com que eu nem me lembre da estreia ou dos comentários da obra. Uma pena. filme foge à regra dos filmes nacionais de prestígio como “Central do Brasil”, “Tropa de Elite”, “Abril Despedaçado”, “Cidade de Deus”. Não existe violência, pobreza e nenhum drama pesado. A única tristeza é levada com muita leveza e poesia, a morte do marido de um jovem casal com uma relação desgastada, mas visivelmente sincera e intensa. Edu, o marido, faz de tudo então para voltar ao mundo dos vivos para se despedir de forma decente da mulher que ama, para isso conta com os conselhos de outro fantasma apaixonado, que espera há muitos anos por sua paixão. Um enredo que tinha tudo para cair no banal, ou até no ridículo, mas mantém uma postura impecável de reflexões e entrelinhas cobertas de questões pertinentes a qualquer um que já tenha amado ou simplesmente vivido. Um encanto. Desde esse dia eu liguei o meu radar para o cinema nacional. Não me arrependi.

443161.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxxDe “Minha Mãe é uma Peça” –  sim, aquele com Paulo Gustavo –  passando por “Se eu fosse você” até “O filme da minha vida” recém-exaustivamente-lançado por Selton Mello, bons filmes têm me levado ao cinema para apreciar uma obra sem legendas. Alguns com mais, outros com menos sucesso, mas sempre saio renovada e feliz das salas. Há poesia e diversão nos nossos filmes. Há emoção demais. O “Entre Abelhas” (2015) com Fábio Porchat é uma lição poética e séria – quem diria – sobre a depressão. O belíssimo “De onde eu te vejo” (2016) com Denise Fraga e o precoce e tristemente morto Domingos Montagner  é uma aula de sensibilidade, de introspecção e relacionamento dada através da história de um casal que se separa e vai morar um de frente para o outro. O texto é lindo. Eu chorei. “Aquarius” (2016) carrega toda importância política e social com um debate sempre relevante sobre interesse imobiliário. “O filme da minha vida” (2017) é de uma singeleza desconcertante e trata de um assunto pouco abordado por vira-latas e raças puras, o amor masculino. De pai. De filho. De marido. De ser capaz de abdicar de muito em prol daqueles que ama.

Neste último filme citado, o personagem do Selton Mello pergunta ao maquinista do trem: “Por que o que você faz é bonito?”, em entrevista ao Conversa com Bial, na Globo, no último dia 3, o próprio ator-diretor respondeu sobre a profissão no cinema: “A pessoa vai ali naquela sala escura e ela pode se transformar, ela pode se deparar com sentimentos que talvez estejam escondidos e ela pode sair dali e resolver coisas”. O cinema é um espelho onde vemos refletidos nossos sonhosambições, medos, amores e todos os sentimentos que, às vezes, sequer ousamos tocar, é natural que nos identifiquemos com maior facilidade com a arte e a representação de artistas da nossa própria cultural. Fazemos isso com a música, com a literatura, com a televisão, por que não com o cinema? Se dê essa chance e adote esse vira-lata de olhar tristonho e rabinho abanando. Você pode se apaixonar, assim como eu. Vá ao cinema ver o Brasil. Vá se ver. 

Trailer: O Filme da minha vida

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