Comportamento

A irreverência do humor satírico de Millôr

Se vivo, hoje Millôr Fernandes estaria no auge de seus 93 anos. Escritor, jornalista, poeta, desenhista, dramaturgo, mas antes de tudo humorista, teve uma carreira longeva e prolífica que se iniciou precocemente n’O Cruzeiro, quando ele contava com apenas 14 anos de idade.

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assinaturas do Millôr – múltiplas, como ele próprio

A produção de Millôr é marcada pelo tema recorrente do combate à tirania, que fica em evidência em suas obras de oposição à ditadura militar nos diversos eixos culturais de resistência em que atuou – jornalismo, teatro, literatura, etc.

Foi personagem central na trajetória da imprensa alternativa. Em 1964, criou a Revista Pif Paf – apenas 50 dias após o golpe e a instauração da ditadura –, reunindo uma patota de peso, formada por Jaguar, Claudius, Fortuna, Ziraldo e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e desenvolvendo uma estética humorística e gráfica ousada que se repercutiria em outras publicações do gênero.

A revista durou apenas 8 edições, o que certamente não foi nenhuma surpresa para os seus editores, devido ao cunho satírico e do deboche às autoridades. O estopim para o fechamento da revista foi uma “advertência”, de autoria do Millôr: “(…) se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia”.

pif paf www.memorialdademocracia.com.br

o design arrojado de Pif Paf

Infelizmente, não foi breve a duração dos anos de chumbo. Mas, antepondo-se à persistência tirânica estava a ferrenha resistência, da qual Millôr era partidário. “[Uma] marca desses ‘jornalistas e revolucionários’ é a reincidência: são censurados, presos, torturados, vão a falência e continuam publicando”¹.  O cerco dos censores não arrefeceu os ânimos do jovem Millôr. Em 1969, passa a integrar a equipe de O Pasquim, gigante das chamadas publicações nanicas, onde permaneceu até 1975.

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censores se divertindo na revisão d’O Pasquim, segundo Millôr

Em tempos de manifestações de ódio, de grupos supremacistas se erguendo em Charlottesville, de figuras caricatas como Trump e Bolsonaro fomentando o discurso intolerante, xenofóbico, homofóbico e sexista, é de bom proveito evocar o espírito combativo de Millôr –  não sem certa ironia ácida e mordaz, é claro.

charge millor fernandes

Ilustração de 1964: estátua da liberdade segurando o livro Mein Kampf, do Hitler. A validade do trabalho de Millôr 53 anos depois

Referências:

¹Coleção Caros Amigos. “A ditadura militar no Brasil: a história em cima dos fatos.” São Paulo: Caros Amigos Editora (2007).

Fonte da primeira imagem – as assinaturas de Millôr: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/millor-um-nome-a-zelar/

Fonte da segunda imagem – o jogo da democracia: http://memorialdademocracia.com.br/card/pif-paf-de-millor-renova-o-humor-e-a-critica

Fonte da teceira imagem: Antologia d’O Pasquim, Volume 1.

 

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