Comportamento

A comunicação que acredito

Em tempos de redes sociais e de informação acessível, é nítido que as pessoas abriram o verbo. Quero dizer, os canais de manifestação dos pensamentos aumentaram. Junto com isso, alguns sentimentos assolaram os usuários: sensação de estar falando sozinho e sensação de estar sendo julgado. A rede pode ser cruel, assim como o mundo. A interpretação é minha, a partir do sociólogo espanhol Manuel Castells, pesquisador da sociedade em rede, que afirma: “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.”

Não pouco frequente, artistas – vide Ed Sheeran – abandonam as redes sociais por causa da negatividade. Mas não precisamos ir tão longe: quantas vezes já não bateu aquela vontade de sair do Facebook depois de um comentário ingrato? Ou de excluir o Twitter, porque interpretaram de forma errada o que dizemos. Ou trancar o Instagram, porque talvez seja muita exposição.

O psicanalista Christian Dunker acredita que estamos vivendo uma absoluta e radical segregação, onde não vemos mais a face do outro.  “Estamos em um momento em que eu olho pro outro e ele é o radical estranho que eu tenho que me afastar, que eu tenho que me esquivar de conflito, de contato, porque ele é contaminante. Ou ele é um duplo de mim mesmo: que faz o que eu faço, diz sempre o que eu quero ouvir, que está em consonância com o tom da minha alma e que no fundo vai me levar a uma experiência tediosa, desinteressante, de infelicidade, baseada numa espécie de mundo de espelhos”, explica em entrevista para o Nexo.

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Tira foto, troca foto,  fulano curtiu, sicrano não visualizou, coloca vídeo de filho, não pode colocar foto de filho. Tudo foi, aparentemente, potencializado. Assim, o discurso de ódio também ganhou seu lugar. Talvez pela falta de exposição física, as pessoas se sentem mais encorajadas para discordar, manifestarem-se contra políticos, times de futebol, religião, opção sexual, ou mesmo pessoa. De uma opinião que começa praticamente anônima, pode haver compartilhamento e divulgação até virar assunto nacional.

Tudo isso, a gente, que vive aqui nessa internet, já sabe. Mas gostaria de propor algumas reflexões a partir do filósofo e educador Paulo Freire, além de retomar lições básicas de educação: “enquanto um fala, o outro escuta”. Estamos, de fato, presentes? Nos escutando, absorvendo e trocando? Você leu esse texto até aqui? Você dará um feedback? Você concorda? Por quê?

Tenho a impressão de que esqueço de que em qualquer comunicação, há uma experiência política, ideológica, estética e ética no discurso. Mas precisamos escutar e dialogar para perceber. E dialogar, em alguns momentos, também significa ficar em silêncio. Esse silêncio que tem seu sentido e significado – e eu espero que não preguiça e descaso, mas respeito. Paulo Freire defende que aprender criticamente é possível. E só é possível se sairmos e se pararmos de olhar para os discursos “bancários” na internet, meramente transferidor de conteúdo.

A conscientização desses fatores só é possível através de uma reflexão sobre o próprio poder de refletir, implicando num diálogo entre pessoas. Historicamente, as diferenças sociais e características de relações humanas que foram predominantes no mundo não promovem a dialogação. Isso acontece porque há uma responsabilidade social e política que não se desenvolvem em condições de domínio, como por exemplo, as do período colonial; em que o homem era dominado pelo poder dos senhores das terras, governadores-gerais, vice-reis, capitães-gerais, entre outros. Nessa época, quase sempre a maioria das pessoas eram proibidas de falar.

Ainda hoje, há certa predominância nos discursos, principalmente na política. Segundo a Câmara, há apenas 45 mulheres deputadas contra 468 homens, menos de 10% de um Congresso Nacional, que discute, inclusive, questões das mulheres, como o aborto. O caminho é longo, e a insistência em falar e ser ouvida é trabalhosa, mas precisa. 

“Comunicação (é) a co-participação dos sujeitos no ato de pensar… implica numa reciprocidade que não pode ser rompida. O que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se, é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo. A educação é comunicação, e diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados” (Paulo Freire).

Já estamos aqui. Podemos falar, podemos ouvir, podemos expor, podemos trocar. E crescer. Como você se relaciona com o que aparece na sua tela? O que você produz para esse mundo? Ou o que absorve? Que diferença você faz ao estar aí, lendo isso aqui? Informação e comunicação é responsabilidade. Responsabilizemo-nos. E lembremo-nos que não estamos sós: por trás dessas letras todas, tem gente. Que ouve, que lê, que fala, que escreve, que compreende, que dialoga, que propõe – se quiser.

Para saber mais: 

 

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