Literatura

A tradição de recontar histórias – e o que há por trás dos contos populares

A arte de recontar histórias é milenar, geralmente transmitida pela forma oral. Sem uma origem bem definida, os contos populares são lembrados por crianças e adultos do mundo todo; a lembrança da história contada antes de dormir pelos pais ou avós é quase sempre presente na memória dos adultos. Como essas histórias não tinham uma origem exata, alterá-las de acordo com a cultura do povo e as características locais era um hábito comum. Os camponeses, para afugentar o tédio do trabalho doméstico, reuniam-se em frente à lareira, contavam e ouviam as histórias populares, consequentemente passando o costume aos seus filhos e assim por diante. Quando famílias da nobreza contratavam uma mulher para cuidar de seus filhos, essa ama – geralmente uma camponesa ou alguém de classe social mais baixa – contava os mesmos contos populares para as crianças, levando a tradição para os lares mais abastados da época.

O fenômeno é mundial e os contos populares estão presentes em praticamente todas as culturas. As versões mais conhecidas são aquelas reproduzidas pelos alemães irmãos Grimm – Jacob e Wilhelm – pelo francês Charles Perrault e pelo dinamarquês Hans Christian Andersen. Todos eles registraram e popularizaram entre os anos de 1600 até 1800 os contos populares de tradição oral presentes na época, apesar de não terem um país de origem e nem um autor definido.

Os responsáveis por passar os contos populares para a versão escrita adaptavam as histórias, que nem sempre tinham enredos agradáveis; na verdade os contos populares eram marcados pela violência, pelo registro das dificuldades dos camponeses para sobreviver com tão pouco e por recursos literários que traziam o terror para dentro do enredo. Além disso, cada região da Europa e de outros continentes possuía versões diferentes do mesmo conto, apesar de geralmente seguirem as características principais que identificavam as histórias.

O historiador cultural Robert Darnton em seu livro “Histórias que os camponeses contam” explica que Charles Perrault adaptou os contos populares de forma a agradar uma parcela específica da população em seu livro “Os contos da Mamãe Ganso” de 1697, como explica o trecho: “Perrault, mestre do gênero, realmente recolheu seu material da tradição oral do povo (sua principal fonte, provavelmente, era a babá de seu filho). Mas ele retocou tudo, para atender ao gosto dos sofisticados frequentadores dos salões, precieuses e cortesãos aos quais ele endereçou a primeira versão publicada de Mamãe Ganso”.

O escritor também destaca as características registradas do uso da fantasia em contos germânicos e franceses: “Enquanto os contos germânicos mantêm um tom de terror e fantasia, os franceses enfatizam o humor e a domesticidade. Pássaros de fogo acomodam-se nos galinheiros. Elfos, demônios, espíritos da floresta, toda a panóplia indo-europeia de seres mágicos reduz-se, na França, a duas espécies, os ogres e as fadas. E essas criaturas restantes adquirem fraquezas humanas e, em geral, deixam os seres humanos resolverem seus problemas com seus próprios recursos, ou seja, esperteza e ‘cartesianismo’ – expressão que os franceses aplicam, vulgarmente, a sua tendência para a astúcia e a intriga”.

Já as versões italianas dos contos trazem ao enredo um aspecto definido por Darnton como “bufão e maquiavélico”; em comparação às histórias alemãs, a característica do humor italiano transparece ainda mais, afinal os germânicos utilizam o macabro como um dos principais elementos para a constituição e reprodução dos contos populares. Enquanto o “Barba Azul” italiano é um demônio que acaba por ser dominado e enganado pela sua próxima vítima, o vilão alemão é um bruxo misterioso que leva moças para a sua casa no meio da floresta. A narrativa é toda direcionada para um quarto proibido da casa, uma verdadeira “câmara de horrores”, em que o principal relato é o assassinato: “Ele a derrubou, arrastou-a pelo cabelo, cortou-lhe a cabeça no cepo e retalhou-a em pedaços, de modo que seu sangue escorreu pelo chão. Depois, atirou-a na bacia, com o resto”.

Robert Darnton explica que: “Embora cada história se prenda à mesma estrutura, as versões das diferentes tradições produzem efeitos inteiramente diversos – burlescos, nas versões italianas; horríficos, nas alemãs; dramáticos, nas francesas; e humorísticos, nas inglesas.”; ou seja, esse fenômeno das diferentes versões dos contos populares acontece não só com os escritores mais conhecidos. O historiador conta que os folcloristas franceses, ao realizar uma extensa pesquisa, registraram mais de dez mil contos, em dialetos diferentes, dentro da França e de outros territórios de idioma francês. Foram encontradas cerca de 80 versões diferentes do “Petit poucet” (O Pequeno Polegar); 35 “Chapeuzinhos Vermelhos”; 105 “Cinderelas” além de inúmeras outras.

gustave dorè le petit poucet

Ilustração: Gustave Doré

Gustave Doré - chapeuzinho

Ilustração: Gustave Doré

Apesar de todas as diferenças um aspecto essencial pode ser encontrado na maioria dos contos populares originados na Europa. A descrição das famílias protagonistas dos contos sempre gira em torno de um pai, uma mãe e filhos demais para serem alimentados, ou uma filha que não é habilidosa no campo, não sendo capaz de ajudar na renda da casa e que acaba sendo vendida para algum membro da nobreza. Consequentemente, mais herdeiros interfere diretamente na quantidade de terra a ser dividida em ocasião da morte do pai, então a relação entre os irmãos não era fácil; muitas vezes mais uma boca para alimentar significava a diferença entre a pobreza e a indigência. Estudos da história da França entre os séculos XV e XVIII registraram que “Grandes massas humanas viviam num estado de subnutrição crônica, subsistindo sobretudo com uma papa feita de pão e água, eventualmente tendo misturadas algumas verduras de cultivo doméstico. Comiam carne apenas umas poucas vezes por ano, em dias de festa ou depois do abate do outono, que só ocorria quando não tinham silagem suficiente para alimentar o gado durante o inverno.”

Darnton resume as condições dos camponeses: “Os camponeses, no início da França moderna, habitavam um mundo de madrastas e órfãos, de labuta inexorável e interminável, e de emoções brutais, tanto aparentes como reprimidas”. Estudar e conhecer os contos populares é de interesse histórico, pois percebemos o quanto o mundo e a condição humana progrediram com o passar do tempo. Naquela época as crianças não eram vistas e nem tratadas como criaturas inocentes; elas trabalhavam arduamente e, como os cômodos das casas eram minúsculos e só havia um quarto para diversas pessoas, elas observavam as atividades sexuais dos pais como algo normal, introduzindo o sexo desde muito cedo nas vidas de meninos e de meninas. Ou seja, por trás das lições moralizantes e do divertimento escapista presente nos contos populares, essas narrativas da tradição oral mostram um realismo social muito cruel.

Os protagonistas dos contos geralmente sobreviviam por meio da esperteza, da mentira, do ato de enganar o outro em uma luta entre a vida e a morte, como fica claro em diversas histórias, como “O Gato de Botas” e “O Pequeno Polegar”. Na sua maioria das vezes os enredos serviam para demonstrar os perigos presentes no mundo para adultos e crianças que estavam em formação e já precisavam encará-lo de frente. Alguns enredos destacavam que a bondade poderia ser recompensada, assim como a esperteza. Cada conto terminava com uma moral, um ensinamento importante para todos que precisavam enfrentar uma realidade cruel: pode-se encontrar generosidade pelo caminho, assim como bruxas, lobos e ogros.

A Editora Zahar lançou em 2013 um volume que conta com 26 contos dos escritores mais conhecidos do gênero. O livro inclui diversas notas que dão o panorama histórico da época em que foram escritos e cerca de 240 ilustrações, além da biografia dos autores. Para quem quer conhecer mais a fundo o universos dos contos populares, a edição é mais do que recomendada.

Referência:

DARNTON, Robert. “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, em: O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1996, p. 21-101.

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