Poética

Especial Dia dos Pais: A morte e a máquina azul

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Quando eu era pequena havia um som que me fazia esquecer qualquer brinquedo. Um não. Uma sequência deles. Primeiro era a porta do armário mais alto do quarto dos meus pais abrindo, logo depois os passos dele até a mesa da cozinha, o peso da máquina colocada sobre a mesa, o zíper da capa abrindo, as teclas, o aviso do término da folha. Plim! O som da máquina de escrever. Nada no mundo era mais fascinante para mim do que aquilo. Como mágica as palavras impressas, retinhas, retinhas, uniformes, em uma tipografia bonita. Meus olhos – que já eram grandes – se espichavam ainda mais. Encantados, surpresos, curiosos com a magia daquela máquina azul. Ficava com os braços cruzados, o queixo apoiado neles, cabeça torta só pra acompanhar meu pai brincando de fabricar textos. Textos, aqueles dos livros que eu tanto gostava e que fazia minha mãe ler para mim a cada noite antes de dormir. Era naquela máquina que eles ficavam escondidos e surgiam com o bater de dedos, uma depois a outra e outra e outra. Incrível! Ficava quietinha, esperando um erro e uma bola de papel pingar ao meu lado para desamassá-la e “ohhh” ver de pertinho o desenho perfeito de cada palavra. Lia com os olhos arregalados e a boca bem aberta, para o mundo entrar depressa. Sempre que meu pai terminava, eu pedia a ele para escrever um pouco. Ele sorria. Colocava uma almofada na cadeira para dar para a minha altura e me deixava brincar. Era o momento mais feliz. Escrevia meu nome, o do papai, da mamãe, do meu irmão e qualquer palavra nova que tivesse aprendido na escola. “Agora chega”, dizia meu pai me tirando da mesa e guardando aquela máquina mágica. E eu de bico querendo mais. “Outro dia”. Por alguns anos foi assim. Um dia, durante esse ritual sagrado que me fazia largar bonecas, jogos, ursinhos, eu tomei coragem e reivindiquei – depois de muito treinar – a máquina para mim. Não era justo que meu pai, só por ser maior e essa coisa toda autoritária de adulto, pudesse brincar o quanto e quando quisesse e eu não. E ele parecia muito sisudo ao fazer isso, fazia seus textos e sequer as ilustrava com desenhos nos cantos depois. Nem deveria entender o quanto encantador e qual o potencial daquele objeto. Pedi: segura e decidida.

– Pai, me dá essa máquina.

Ele riu. Riu. E eu fiquei brava. Mania dos adultos de rirem das crianças. Eu estava falando sério. Muito sério. Ele disse algo como “isso não é para criança”, “vai ficar ultrapassado”, “os primeiros computadores estão aí” e guardou de novo a máquina no armário mais alto. Bufei. Inatingível. Mas não. Eu não desisti. Tinhosa desde pequena. Todas as outras vezes que ele a pegava eu a pedia para mim. A resposta era sempre a risada e um afago irritante. Até que um dia, eu pedi novamente, ele sério se abaixou até a minha altura, fez um carinho, me olhou nos olhos e disse:

– Filha, quando eu morrer, eu prometo que ela vai ser sua.

Era para eu ter ficado feliz? Eu nunca soube se era ou não. O fato é que eu não fiquei. Fiquei apavorada. Como assim morrer? Meu pai precisaria morrer pra eu ter a máquina azul mágica? Não disse nada. Corri para o quarto e por lá fiquei. Algumas horas depois eu reapareci com um papel na mão, era para o meu pai. Ele abriu: bilhete, uma quase carta, toda enfeitada com lápis, canetinhas, tintas, canetas com cheiro de pipoca, uva e pêssego. Lilás, rosa, amarelo, laranja, azul. O bilhete dizia que eu preferia as canetas coloridas à máquina que só escrevia em preto e branco. Que meu pai poderia ficar com ela para sempre, não precisava morrer. Não queria mais. Eu tinha 8 anos e o fiz chorar. Eu não entendi bem o porquê, mas ganhei o maior abraço do mundo. Desde aquele dia o ritual da máquina era diferente para mim. Eu ainda gostava, mas a temia também. Era como se fosse uma ampulheta e cada barulho de nova letra um segundo menos com meu pai. Como um cuco maldito, que ao invés de adicionar horas, diminuía – em uma contagem regressiva cruel.

O tempo passou. Eu cresci. As novas tecnologias vieram. Meu pai nunca se desfez da velha máquina de escrever azul. Nos mudamos, nos separamos, um vez e mais outra. E ele sempre a levava com ele. No dia do meu aniversário , vinte anos depois, um pesado pacote me esperava na porta de casa. Não tinha ideia do que poderia ser. Abri e me arrepiei inteira ao me deparar com a velha máquina de escrever azul do meu pai. Liguei com o coração apertado e quase chorando na hora para ele:

– Pai…  E a lágrima caiu quando escutei sua voz forte e normal. Alívio.

– Morto eu estou se não reconhecer que você a sabe usar melhor que qualquer pessoa do mundo. Morto eu estou se não lhe dar minha maior herança ainda a tempo de vê-la transformar palavras em sorrisos, lágrimas e poesia. Morto eu estou se não reconhecer que ela sempre foi e é sua, filha. A mágica está em você.

(Não tive voz para responder. Eu tinha 28 anos e ele me fez chorar)

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