Poética

Pelo mundo

faith-1124313_1920

Dizem que sou cética. Pessimista. Que não tenho esperanças no mundo. Quase uma niilista. Dessas que têm o livro de Nietzsche na cabeceira. Que encara o mundo com um certo mau humor, torcendo pelas profecias maias, incas, bíblicas, ou qualquer outra que coloque um fim apoteótico nessa humanidade que, indiscutivelmente, deu errado. Culpam o jornalismo, que teria me endurecido além da medida. Culpam os outros, que me machucaram além do suportável. Culpam a literatura que me deu um mundo insuperável. Devo confessar que acho bonito que tentem achar as possíveis razões de tamanho embrutecimento em questões externas, alheias a minha vontade, como um desvirginamento, uma perda irrecuperável da fé, um latrocínio da inocência, sem chance de defesa, sem escolha pessoal, sem influência interna e consentida. É como se fosse legítimo eu devolver ao mundo a pancada que ele mesmo me deu. Como sempre faço, sempre mesmo, deixo que falem, que contestem, que se indignem, que julguem, que me definam. Quando buscam minha aprovação, só sorrio, como quem consente sem deixar de duvidar. Gosto do exercício que fazem de tentar me decifrar, me justificar. Escrevo isso enquanto olho fotos de viagens. A Fontana di Trevi em Roma, onde joguei um euro e fiz um pedido silencioso e escuro, porque segundo a tradição, tem que ser de costas, de olhos fechados. Um euro já naquela época valia um bocado, os gregos e os espanhóis que o digam. Enquanto vejo a foto da Pont des arts em Paris, onde os apaixonados prendem seus nomes em cadeados e lançam as chaves ao Sena como forma de promessa de amor eterno e onde eu, vejam só, ensaiei uma paixão –  como diria Caio Fernando Abreu, era quase agosto, e para atravessar agosto precisamos se não ter, inventar um amor – e olha que a prefeitura de Paris não gosta nada da ideia, mas a persistência dos apaixonados, ah, a persistência dos apaixonados…. Vendo a foto da igreja do Senhor do Bonfim, na Bahia, em que fitas do santo enfeitam e colorem a cidade e os pulsos que carregam desejos sinceros. Um nó de crença. Fotos em  Stratford-upon-Avon, cidade de Shakespeare, onde me permiti ser meio Julieta, meio Desdêmona. Ou na Street Art na Av. Amsterdam com a Rua 90, quando senti o coração apertado e os olhos marejados ao brincar na escultura de quase quatro metros com as letras LOVE, do artista Robert Indiana, em Nova York. Entre tantos países, tantas cidades, tantas culturas, tantas maneiras de dar crédito, de tecer sonhos, de acreditar. A minha fé eu escondo, ou espalho pelo mundo. Eu a despejo em nomes secretos, juras descompromissadas, paisagens distantes. Deixo a minha fé longe do alcance das mãos, sei que ela está lá, em algum lugar, ou em vários deles, mas não faço dela meu caminho, meu porto seguro. Apenas um cenário para ser visitado, pequenos encontros, mas suficientes para que eu continue desejando encontrá-la  muitas vezes mais, sem saber bem onde ou em quem. O que meus amigos não sabem é que na cabeceira descansa Nietzsche, mas debaixo do meu travesseiro, dorme Drummond.

(E a sua fé? Onde se esconde?)

Categorias:Poética

Marcado como:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s