Literatura

Os livros que nos fizeram chorar

“Falar de literatura, então, é falar da vida; da própria vida e da vida dos outros, da felicidade e da dor.” 

Essa é uma das definições que Rosa Montero dá para a literatura em seu livro A Louca da Casa; é justamente por falar da vida que muitas vezes nos emocionamos com o enredo de um livro. Sejam elas reais ou fictícias, as histórias têm o poder de despertar empatia nos leitores, de fazer com que nos enxerguemos na mesma situação do personagem principal de um livro. A literatura envolve, arrasta, traga para dentro de um mundo diferente do nosso; pensando nesse poder, reunimos livros que causaram o mesmo efeito em nós: as lágrimas. Também queremos saber quais foram os títulos que fizeram você chorar. Conta pra gente nos comentários!

IMG_6954Vozes de Tchernóbil – Svetlana Alexijevich | Editora Companhia das Letras

por Fabi Mariano 

Nunca chorei tanto em um livro. Apesar de toda a polêmica do Nobel de Literatura para uma jornalista, neste caso acredito que o prêmio dado à Svetlana Alexijevich foi certeiro. Os relatos do livro são de uma vivacidade impressionante. Impossível não se emocionar com as histórias reais de quem viu seus entes – ou a si próprio – definhar corroído pelo maior desastre radioativo da história. De quem perdeu bens, animais, casas, roupas, a cidade inteira, absolutamente tudo, de uma hora para outra. Eu chorava a cada página, impregnada de um empatia e compaixão que só as grandes tragédias nos fazem ter. Acho que este é o grande mérito do livro: nos leva a uma reflexão profunda sobre a nossa humanidade. Precisamos mesmo esperar grandes desastres ou catástrofes para nos solidarizarmos com o outro? Precisamos de uma guerra, um acidente, do incomum, do caos para olhar e ouvir o outro?

Chorei lendo o livro e novamente ao ouvir Svetlana relatar ao vivo, na Flip de 2016, a cena da mãe que teve que matar com as próprias mãos, asfixiado, o bebê que não parava de chorar e ia denunciar o esconderijo do grupo em plena guerra. Arrepiante. Svetlana Alexijevich é uma ótima ouvinte e nos faz excelentes leitores com a capacidade que seus livros têm de nos modificar completamente. As histórias reais são as que mais despertam em mim essa emoção genuína de lágrimas. Por bons ou maus motivos. Gosto que seja assim.

Olhos d’água –  Conceição Evaristo | Editora Pallas

por Lu Bento

Ainda não tinha lido nenhuma obra de Conceição Evaristo. Era uma grande falha na minha biografia literária e eu precisava resolver isso. Escolhi começar por Olhos D’Água, já que os outros títulos da autora estavam esgotados. Que livro, senhores! Que livro! Nessa coletânea de contos, Conceição nos apresenta retratos de vivências negras que são marcadas por dores, desencontros e fragmentações de nossa existência. São quinze contos, quase todos protagonizados por mulheres negras, narrados com a beleza e dureza dos fatos da vida.   O livro tem a maternidade como um tema recorrente e me conquistou já no primeiro conto,  o que dá título ao livro. Caí em prantos dentro do ônibus com a história da lembrança que uma mulher tem do olhos marejados de sua mãe, a ponto de  uma moça  que se sentava ao meu lado me perguntar se estava tudo bem  e eu precisar explicar que o choro era por causa do livro.

Olhos d’água é uma obra que precisa ser lida por todos, só recomendo que você esteja em um momento emocionalmente bom, pois definitivamente não é aquela leitura leve e divertida. É uma leitura densa e carregada de emoções e que, ao final, nos deixa com a certeza de que um dos maiores atributos da negritude é a resistência. Olhos D’Água foi premiado com o Jabuti em 2015 e considero o melhor livro de introdução à obra de Conceição Evaristo.

capa hibisco roxoHibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie | Editora Companhia das Letras

por Thaís Albiero

É impossível não sentir empatia por Kambili, a narradora do livro, uma adolescente de 15 anos que vive com o pai, a mãe e o irmão na Nigéria. Pela visão da jovem conhecemos o estilo de vida da família Achike; seu pai Eugene, um famoso e benevolente – somente com a população de sua comunidade – empresário da região, católico devoto e fanático, impõe um rígido regime religioso, intelectual e moral em sua casa. Cada minuto do dia dos filhos é firmemente controlado por ele; as horas livres, que poderiam ser dedicadas ao lazer, passam a ser empregadas para a leitura de jornais ao lado dos genitores. Eugene, guiado pelo catolicismo, escolhe espancar sua esposa e seus dois filhos caso tenham atitudes que, segundo ele, levem ao pecado. Seus castigos físicos servem como purificação da alma. Beatrice, a mãe de Kambili, é uma figura passiva e quieta, que suporta com apatia e impotência a crueldade de seu marido.

Kambili, portanto, vive em um ambiente opressor e ao mesmo tempo que admira o pai pelas boas ações, tem um pavor constante de sua figura e sempre se vigia para não desagradar Eugene em nenhum momento. Ela não é encorajada a pensar, a questionar ou a demonstrar interesse por assuntos de adolescentes; não assiste televisão, não ouve música e não tem amigos. É um livro triste e brutal, mas que trata de assuntos importantes como a transição do comportamento de Kambili e de seu irmão ao longo do enredo, o fanatismo da religião e as consequências do pós-colonialismo na África. Chorei com as descrições dos espancamentos, chorei ao me colocar no lugar da adolescente, tendo seu desenvolvimento moral constantemente impedido pelo fanatismo religioso do pai e chorei por saber que histórias assim podem ser reais. O enredo de Chimamanda Ngozi é sensível e muito bem construído; recomendo fortemente para quem quiser conhecer a autora.

A Desumanização – Valter Hugo Mãe | Editora Biblioteca Azul

por Andreza Modesto

Dificilmente saímos ilesos após a leitura de um livro, ainda mais quando tocamos em uma composição feita por Valter Hugo Mãe. A desumanização é uma narrativa melancólica, marcada pela dor do luto, o vazio familiar, a frieza, a compreensão existencial, após o falecimento de Sigridur, irmã gêmea de Halla. Logo na primeira página, somos surpreendidos com a perda de uma das irmãs. “Crianças espelhos”, o mundo acabava de ser dividido, com a morte. A pequena Halla, contou do sonho das irmãs crescerem juntas. Porém, se convencia que estava sendo injusta com seu crescimento, enquanto a irmã estava sendo impedida de crescer junto a ela, pois se encontrava debaixo da terra. Conheci Sigridur, através dos olhos de Halla, sua irmã gêmea, imersa a dor causada pela ausência da irmã e tranquilizada pela beleza poética apresentada por seu pai – A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse meu pai. Nós não somos mais do que a carne do poema. 

Somos convidados a sentir junto aos personagens, as surpresas, os sustos e, inesperadamente, mais uma perda intragável na vida de Halla. Eu já estava nas últimas páginas, com a lágrima presa à retina dos olhos. Imediatamente, corri para o banheiro e meu choro se intercalou com os soluços, que  se prolongaram, quando me deparei com a pintura no final da  página. Passado o tempo, voltei para a sala e concordei – Os livros. Eram os livros. Diziam-me coisas bonitas e eu sentia que a beleza passava a ser um direito. O mundo precisa ler Valter Hugo Mãe. 

a redoma de vidro

A Redoma de Vidro – Sylvia Plath | Editora Biblioteca Azul

por Bruna Uliana

Eu poderia facilmente ter escolhido outros livros que me fizeram chorar bem mais, mas escolhi falar sobre o último que me fez sofrer e derramar lágrimas por se tratar de um assunto que me toca muito. Esther Greenwood  é uma menina talentosa, de senso crítico e humor ácido que consegue um estágio na redação de uma revista feminina em Nova York, no verão de  1952. Esse é o  panorama que nos é apresentado logo no início do livro, e que é transformado completamente na segunda metade. A experiência em Nova York se mostra um gatilho que leva Esther a um quadro de depressão que se aprofunda quando ela retorna à sua cidade natal, até que ela acaba sendo internada numa clínica psiquiátrica.

No decorrer da trama, acompanhamos o declínio mental da personagem, cuja doença é incompreendida pelas pessoas ao seu redor e a leva a experiências traumatizantes com tratamentos de choque. O livro tem referências autobiográficas e foi inspirado no verão em que Sylvia tentou suicídio e foi internada. Algumas semanas depois do seu lançamento, a autora tiraria a própria vida. Essa foi a primeira vez que eu li um livro de Sylvia Plath (só conhecia poemas soltos), e me encantou a sutileza e simplicidade com que ela nos mostra a perspectiva de quem sofre de um transtorno mental, desde o início até o grande colapso. Esther lentamente se distancia do mundo ao seu redor, e se antes ela era uma personagem pouco simpática, fica difícil não se solidarizar com as dores da menina enquanto ela narra suas tentativas frustradas de suicídio.

Para Sempre Alice – Lisa Genova

| Editora Casa dos Livros

por Fernanda Figueiredo

É um livro que nos pega de cara pelo tema principal: Alzheimer. Não basta isso, é escrito em primeira pessoa. Alice nos conta o que se passa pela sua cabeça e como está sua vida enquanto convive com a doença. Eu, que tenho uma avó com Alzheimer, sei das dificuldades que vejo nela. Mas ler uma professora e pesquisadora, muito consciente do que pode acontecer com ela própria doente, me parece uma realidade mais palpável para o meu futuro. Então chorei. Chorei por Alice, por minha vó, e por medo.

Alice tem Alzheimer precoce, diagnosticado antes dos 65 anos e hereditário. Ela sofre por seus filhos, por seus netos, por suas aulas, por suas caminhadas, por seu marido. Mas segue. E quem lê sofre junto. Imagina se deparar com uma época da sua vida em que você percebe que “meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos.” Dói. Me questiono: o que somos quando não temos memória? O que somos quando não sabemos mais dominar as palavras? O que somos quando somos dependentes dos outros para lembrar o que precisamos fazer? Espero que eu nunca pare de perguntar.

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