Arte

Grupo e corpo: que gira

“(…) que o primeiro sacrifício fosse para acalmar Exu. Assim convencidos, foi o que fizeram os pais e mães de santo, naquele dia e sempre desde então”, é assim que termina o último mito sobre Exu no livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi. É assim que começam as saudações aos orixás: Exu é o primeiro a receber os cumprimentos.

“Gira”, novo espetáculo do Grupo Corpo em homenagem ao orixá, parece que começa com esse intuito. Começa antes de começar. Apesar da apresentação ter repercutido muito pela imperdível trilha sonora de Metá Metá, num primeiro momento é exibido o espetáculo Bach (1996), com coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Marco Antônio Guimarães (sobre a obra de J.S.Bach). Cada bailarina e bailarino é no palco o que – calculadamente – quer ser. É harmônico, mas não igual. Em nenhum momento todos dançam a mesma dança.

Na primeira hora, a gente agoniza. Anseia pela música de um corpo que gira. Depois entende nas palavras de Kiko Dinucci, compositor e cantor da Metá Metá: “Exu é um deus fundamental, dono do movimento e da dinâmica que move e dá vida a todas as coisas que existem. Mas Exu não é caminho reto, Exu tem um lado mágico, de conseguir proezas inimagináveis, de construir trajetos tortos, opostos, mas que se resolvem com resultados surpreendentes.”

O espetáculo fascina. Do preto, os bailarinos passam para as roupas amarelas, e das roupas amarelas, intervalo, para saias brancas. Isso tudo sob o mesmo palco: preto com algumas luzes que descem do teto sem tocar no chão. A impressão é que o terreiro, na verdade, é o próprio corpo: terreno. Liga chão e luz, onde por vezes os bailarinos se penduram e dançam. E gira. Sozinhos, em grupo, em dupla e com corpo.

 

Fotos por: Bruno Santos

Mãos na cintura, quadris competentes, movimentos fortes. Tudo nos toca e nos convida. Por mais estáticos que devamos estar. Nos sobra – na sombra da plateia – os olhos saltitantes e os pés e mãos atrevidos que mexem vez ou outra como reflexo. É mais que espiritual ou religioso. É camada comum transparente a quem aceita. E aplaude até doer.

Serviço:
“Gira” está em cartaz no Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722 – São Paulo. Quarta e quinta, 21h. Sexta, 21h30. Sáb., 20h. Dom., 18h. De R$ 50/R$ 160. Até 16 de agosto.
Próximas cidades da turnê: Belo Horizonte (2 a 6 de setembro), Rio de Janeiro (23 a 27 de setembro) e Porto Alegre (7 e 8 de outubro).

Para saber mais sobre mitologia dos orixás:

 

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