Exposições

Poesia: agora e sempre

Adriana Calcanhotto foi precisa ao dar nome ao livro em que foi curadora: “É agora como nunca – Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea”. A completude da poesia será sempre uma ambição falha, mesmo em tempos tão esquisitos e efêmeros para esse estilo literário. Os perfis de frases dos que se designam poetas se proliferam nas redes sociais com centenas de likes em um juntar de palavras no mínimo suspeito. O que é poesia, afinal? Ninguém, em época alguma, conseguiu definir. Não serei eu, é uma questão muito subjetiva e até polêmica, mas acredito que o erro maior ao que toca essa arte é ter a pretensão de se autodenominar poeta. Deveríamos receber – e dar – tal chancela apenas ao ouvirmos de mais de meia dúzia de pessoas essa nomeação – e sem contar as mães, namorados e qualquer parentesco de primeiro grau. Acredito no potencial das mídias sociais como espaço para novos poetas, assim como os mimeógrafos foram fundamentais outrora para os poetas marginais. No entanto, pela facilidade de acesso, é necessário ser mais criterioso. Por esse cenário, duvidoso e egocêntrico, as antologias e exposições de poesias ganham importância ainda maior do que normalmente já têm, porque passam pelo crivo de alguém. De muitos alguéns na maioria dos casos e de alguéns com olhares mais apurados para esse tipo de texto tão complexo de ser feito com sucesso. O livro “É agora como nunca” que contém 41 poetas contemporâneos consegue reunir com maestria belos poemas sobre nosso tempo. Temas como o amor, a solidão, o autoconhecimento, o sexo, ganham roupagens modernas nas poesias de jovens que acreditam no poder de se fazer entender por esse estilo tão ingrato e de difícil compreensão para a maioria, que tem dificuldade de interpretação até com textos mais simples e diretos – como manchetes – quanto mais entrelinhas, metáforas e aliterações.

Destaco do livro o poema de Camila Nicácio

Como continuar a ser a mesma pessoa / depois de ter conhecido a Fontana di Trevi? / Você me dirá o quanto eu sou tola / e que o conta-gotas dos dias / nos transforma permanentemente… / Eu estaria, com gosto, de acordo / se não fosse a  pequena moeda / que, do fundo da água, / cintila redonda meus cinco centavos / de desejos impronunciáveis

A exposição “Poesia Agora”, que têm viajado o Brasil, também desempenha esse papel com ainda mais democracia. Com mais de 500 poetas da língua portuguesa dos mais diferentes lugares do Brasil e do exterior, a exposição – que já passou por São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro – ilumina, declama, enxerga, amplia e estimula a criação poética. Com diferentes espaços interativos, a poesia contemporânea é abordada democraticamente, com autores já conhecidos e também anônimos. A cenografia é muito bem pensada e encanta, a poesia espacial foi uma preocupação do cenógrafo André Cortez, responsável pela exposição do Rio de Janeiro, na Caixa Cultural do Rio: “Aqui, versos são lâmpadas, números são letras, portas são paredes, para que nos livremos da solidez do espaço cotidiano”, afirma. Já o curador, Lucas Viriato, destaca a heterogeneidade da poesia contemporânea: “Passado o tempo das grandes correntes literárias, cada um há de descobrir a sua própria resposta, seu caminho, e cada um dos poetas daqui o faz à sua maneira. Assim, ao invés de selecionar alguns poucos que despontam, optamos por uma curadoria horizontal, criteriosa, porém ampla, de modo que a exposição seja capaz de reverberar o canto coletivo da tribo dos poetas contemporâneos”, diz.

Como visitante, você se sente realmente imerso em um mundo paralelo, todos os seus sentidos são tomados pela poesia: são documentários, versos em lâmpadas, fotografias com poesia de rua, fones com declamações dos próprios poetas; e mesmo quem nunca se arriscou em versos, cria essa vontade em uma sala toda branca com canetas pretas e livros com temas a serem preenchidos pelos que ali resolvem se aventurar. Um desafio em especial chama a atenção: criar um poema sem uma das vogais. Uma urna recebe os poemas e os melhores serão destaques na próxima exposição, ainda sem data e local definidos. Eu tentei e tirei o U do meu poema. Quer tentar também? Deixe o seu nos comentários, quem sabe não fazemos também uma curadoria e publicamos os melhores aqui no nosso site:

E-u?

Exacerbo emoções. Escrevo, expresso, exprimo.
Efeito: espasmos, ecos estrondosos.
Elejo esperanças. Elimino embaraços. Elevo ensinamentos.
Eternizo efemeridades. Exercito experiências.
Economizo energia elegendo estabilidade.
Elaboro enredos, extermino ego e entrelinhas.
Engano espectadores. Escapo escondida espiando encontros.
Espero extinção. Estilhaçada, enfim, espaireço.

Fabi Mariano

É agora como nunca – Organização Adriana Calcanhotto | Editora Companhia das Letras

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