Literatura

FLIP 2017 : A Flip preta

Em 2017, as pessoas negras tomaram conta das ruas e das casas do centro histórico de Paraty durante a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.  Essa maciça presença negra já era esperada diante do homenageado deste ano, Lima Barreto, autor negro que se  definia como escritor militante e sempre se posicionou contra o racismo. A programação oficial, finalmente composta por uma quantidade razoável de autoras e autores negros, também foi um chamariz para que pessoas negras de vários lugares do país debutassem na grande festa de literatura.

Foi minha primeira experiência na Flip  e confesso que nunca me identifiquei com a temática das  edições anteriores. Reconhecia a importância e o potencial da Flip para pessoas que, como eu, trabalham com literatura, mas não me sentia motivada a participar. Assim como eu,  pessoas negras de vários lugares do país também não se identificavam com Flip e estavam pela primeira vez participando da festa. A sensibilidade da nova curadoria da feira em tornar a programação mais diversa foi fundamental para que um novo público incluísse  a Flip em sua agenda cultural.

Diversas matérias na imprensa celebram a diversidade e a presença negra nessa edição. De Edmilson de Almeida  Pereira saudando nossos ancestrais em plena Igreja Matriz a Scholastique Mukasonga sendo  uma das campeãs de vendas com seus dois livros. De Conceição Evaristo falando da sua (nossa) escrevivência a Dona Diva ganhando a cena e expondo o racismo estrutural da sociedade brasileira à imprensa nacional e internacional, que foi ao delírio com tanta assertividade e determinação. Pessoas negras pautaram os debates em todos os lugares.

Mas a Flip foi ainda mais preta que os 30% de autores negros da programação oficial. Paraty foi tomada por uma intensa programação paralela, que atraiu um enorme público negro que, como já disse, jamais havia se interessado em participar do evento.  Ocupamos o centro histórico com nossas cores, acessórios e discursos, apresentando e representando a cultura negra na grande festa da literatura.

Não pude acompanhar toda a programação da festa, estava com duas crianças e nos concentramos mais na programação infantil, mas entre uma contação de histórias e outra percorri um pouco do circuito paralelo e compartilho com vocês as minhas impressões.

Encontros Malê

Essa foi a casa das autoras negras na Flip.   Um pouco afastada do circuito mainstream, a casa da Rua do Fogo reuniu vários escritores e escritoras negras editados pela Editora Malê. Teve lançamento dos livros de poemas de Conceição Evaristo, Lívia Natália e Cristiane Sobral.  Encontros importantes de escritoras que fazem parte da história da literatura negra no Brasil, como Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves e Lia Vieira. Teve roda de conversa sobre Carolina Maria de Jesus e até sobre afrofuturismo, com o lançamento do livro de Fábio Kabral.  As artes pretas foram muito bem representadas em uma intensa programação que lotou o espaço.

Parati ocupa Paraty

Foi na ação realizada pela Economia Solidária que população local pode demonstrar as suas artes. Aqui encontrei a  maior concentração de artistas negros. No espaço onde nas edições anteriores fica a tenda principal da programação oficial, diversas barracas vendiam artesanato local e realizavam ações de protesto. A barraca do coletivo Articula Preta foi o espaço que acolheu artistas negros periféricos do Rio e de São Paulo para lançamentos de livros, rodas de conversas e intervenções artísticas. Foi gratificante ver artistas autopublicados apresentando suas obras por lá. Pra quem veio de fora da cidade, essa também foi a oportunidade de conhecer escritores locais e pude voltar com um belo exemplar do livro de Dona Benedita Martins, Infância Roubada. A DJ Bieta arrasou tocando música preta, escritoras e coletivos do Rio e São Paulo se encontraram e participaram das atividades promovidas pela #ArticulaçãoPreta.

Slam das Minas RJ e SP

A Casa da Porta Amarela, espaço criado por um grupo de editoras independentes, realizou um encontro do Slam das Minas do RJ e SP. Um encontro de Slams incrível, essas batalhas de poesias faladas e performáticas que vem  agitando a cena poética periférica do país e lotou o espaço da Casa da Porta Amarela na Flip. Não há como ficar indiferente aos gritos e de “pow, pow, pow” a cada verso certeiro das minas. A energia do Slam tomou conta da noite de quinta-feira em Paraty e muita gente ficou de fora.

Sesc Santa Rita

O SESC se destacou pela maravilhosa programação infantil, que supriu em parte as falhas da Flipzinha oficial. Dentre as atividades, destaco a contação de histórias da Cia Alcina da Palavra, trazendo para o público contos africanos. Deu até vontade de aprender a tocar kalimba.

Casa Amado Saramago

A casa Amado Saramago, associada à programação oficial, recebeu o lançamento do esperado catálogo intelectuais negras Visíveis capitaneado por Giovana Xavier, uma das principais responsáveis por essa transformação na programação da FLIP. Giovana iniciou, no ano passado, um movimento de denúncia da ausência de autoras negras na programação da FLIP com o movimento “Vista a Nossa Palavra”. Sua denúncia ganhou um mundo e foi uma das principais responsáveis por essa transformação na programação oficial.

O espaço ficou pequeno e muita gente, como eu, acabou acompanhando do lado de fora mesmo as potentes falas de Giovana Xavier, Djamila Ribeiro e várias outras intelectuais negras.


A 15ª edição da FLIP ficará pra história como a edição em que a negritude ocupou o “Arraiá da Branquidade”.  Agora sim podemos chamar esse grande encontro literário de festa, Lima.

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