Poética

Sentimentos arrítmicos

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Não lembrava mais como era dormir tranquilamente, andava com dificuldade de fechar os olhos e vivenciar as agonias da noite passada. Uma sensação de saltar da cama, abrir a porta e, a cada passo dado, os batimentos cardíacos aumentavam junto ao desespero. Um ensaio angustiante de despedida, não autorizada. Foram incontáveis dias com aqueles sentimentos, dos quais se tornavam cada vez mais incontroláveis. A mente sofria de abalos, que bastava um pensamento atemorizante, para o corpo sofrer as dores e o pesares. Não existia um passar do tempo, sem ter a lembrança de que a partir das 7h da noite, o escuro atormentava. E logo eu, a notívaga, para soar um tanto irônico.

A luz do abajur, acompanhante do cenário em meu quarto, desde os traumas de infância, se tornava insuficiente comparada à luz do dia. O amanhecer era o tranquilizante, que o Selozok não era capaz de me fornecer. Vivia em um redemoinho, querendo sair e a coisa só puxava. Tentava respirar, mas o ar me custava caro. Fiquei cansada de fingir como os dias eram pesados com chegada da noite, prestes a presenciar a dura penitência que eu me coloquei. Eu evitava falar dos sentimentos obscuros, para ver se a dor esmaecia, evitava descrever os sentimentos arrítmicos, porque a sensação de tocar no assunto me afligia. Estava exaurida de concatenar com a minha própria destruição, uma espécie de ensaios tempestuosos, comparados a ensaios de quadrilha da 5ª série, dos quais eu nunca fiz questão de participar.

Quis mudar e regozijei quando os meus pedidos de ajuda, por vezes inauditos, me retornavam em doses calmantes através de pessoas salva-vidas. Desprendi os sentimentos aterrorizantes e descobri: mas antes extenuar o sangramento, ao invés de sofrer uma hemorragia interna. Viver é essencialmente andar em uma linha tênue entre a alegria e a dor. No final, existem partes que não se despedem de nós, mas temos de aprender a conviver com elas.

Categorias:Poética

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