Poética

Carta: Lavoisier explica

Oi,

Tenho abandonado um tanto de drama na minha vida. Há quem ache isso bom. Outros não. Dizem que minha essência é assim… intensa. E seria um desperdício isso se perder. Eu poderia argumentar de muitas maneiras para defender ambos os lados. Poderia dizer que as grandes obras de Van Gogh só prosperaram por conta de sua perturbação mental, obscuridade e o consequente corte de sua própria orelha. Trágico. Poderia dizer que os Stones não produziram nada decente após a fama, o dinheiro, a vida fácil e próspera. Polêmico. Diria que é preciso sangrar, sofrer, estar na garagem e à margem, ser só, doente, miserável … ou usaria logo Drummond dizendo que “a dor é inevitável, o sofrimento opcional”. Chamaria Pessoa para a conversa e diria que sou mera fingidora, que a dor, de veras, nem esteve por aqui, quanto mais o sofrimento. Ah, os poetas… Poderia dizer que é maturidade, que enfim tudo soa muito leve e que no alto dos meus vinte e nove anos a serenidade já pensa em posar por aqui, no melhor estilo “O corvo” de Edgar Allan Poe, dizendo repetidamente que “nunca mais”. Eu prefiro deixar todas as argumentações descansando entre livros e túmulos. Considero apenas e simplesmente como uma nova percepção de diluição do amor. A constatação que não há desperdício, apenas a aceitação de que nada é assim tão urgente ou definitivo. Ou limitado. A gente deixa um tanto de poesia de lado para usar a ciência em sua máxima mais conhecida e cita o químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Na natureza e no sentimento. É só perceber a conservação da massa. O redirecionamento da intenção do amar. Nada se extingue. E você percebe seu amor espalhado pelos cantos e isso é bonito. Percebe que está mais paciente com a sua mãe, mais carinhosa com seus amigos, mais solidária com seu irmão, mais compreensiva com seu pai. Está mais atenciosa com seus entrevistados, mais rigorosa com seus trabalhos, mais caprichosa com suas plantas, mais complacente com seus inimigos. Escreve com mais requinte, compõe com mais generosidade, cria com voracidade. Percebe que seu olhar se amplia e seus ouvidos limitam. Coloca Cazuza e cantarola “… prendia o choro e aguava o bom do amor…” e aguá. A gente diluiu até perder toda a consistência homogênea e indissociável, até perder todo o peso toda a urgência toda a pressa toda a necessidade toda a falta de fôlego e…. respira! Fundo. E se livra do remorso e da culpa de matar para não morrer. Como se doasse os órgãos ainda úteis daquele sentimento para que outros sobrevivam e com maior qualidade. A gente se espalha, se desdobra, se despeja em muitos. E quer mesmo se multiplicar, para que, quem sabe, assim ao acaso, você ame alguma parte minha perdida por aí. Transformada e reconstituída. Irreconhecível e possível. Quem sabe alguma parte minha você ame. Mesmo que não saiba. Mesmo que nem queira. Só porque inevitável mesmo é o amor. É por isso que eu sigo em frente, sem dramas e com charme. Eu sigo em frente pra alcançar você.

Espero que esteja bem, e ocasionalmente feliz,
Fabi Mariano

Categorias:Poética

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