Feminino

À mãe que me pariu

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Ilustração e projeto gráfico por Anna Cunha; para o livro Mãe, de Cris Guerra.

Mãe,

há uns meses atrás, eu te escrevi assim:

Te escrever nunca é fácil. Porque apesar da proximidade infinita mãe-filha, nós duas sentimos e sabemos essa distância sem cheiro, sem explicação e sem quilômetro que se instala entre mim e ti. Hoje somos adultas. Carregamos culpas de primeira mãe e de primeira filha. De mulheres incompreendidas. Você se culpa por tudo que desaprova em mim. Eu te culpo. Você me culpa. Essa é a primeira carta que te escrevo sem desistir. Sem desistir de te explicar. E sem desistir de tentar entender.

No próximo parágrafo, essa – aqui – é a segunda carta. E ela já nasce sem a primeira. Porque quando a gente se dá conta, o mundo já mudou. Quando a gente se dá conta, seremos mãe. E quando a gente se dá conta, somos filhas. Mas decidi: continuarei te escrevendo, sem desistir.

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Ilustração de Anna Cunha

Isso implica dizer o que não te disse em nenhuma carta. Hoje, quando você foi embora, me veio uma coisa na cabeça. Acho curioso como só depois de grande, compreendi o que se passou na barriga: eu te causei muito mal estar. Antes de eu dar as caras nesse mundo, já estava te machucando. É claro que uma relação dessa terá muito o que contar. Sempre.

E como tem, mãe. A gente vai buscar em tantas gentes e tantos lugares as explicações de tudo. Quando ignoramos entender a vida de onde surgiu a nossa: você – o lugar e a gente onde me construí corpo. Onde fabricamos, juntas, coração e cérebro. Onde eu te doía e você me doía, mas me dava todo o suporte do mundo para crescer.

Você continua sendo essa casa segura. Mesmo que o orgulho e ego continuem sendo barreiras para nos entendermos através de nós e por nós. Ainda assim, fazemos as pazes. Sobretudo com a mulher que nos tornamos e nos tornaremos. Podemos trilhar novos caminhos. Plantar novas árvores. Colher outras flores.

Insisto na coragem que você já me ensinou. Não vou desistir. É só a segunda carta.

Da sua filha,
Fernanda

 

Ilustrações disponíveis no livro:

Categorias:Feminino

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1 resposta »

  1. Pari um ser iluminado,cheirando poesia e hoje derrama de forma sublime palavras de amor,que não só uma mãe que pariu se emociona com tão belo sentimento
    De sua mãe
    Solange

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