Literatura

Flip 2017: o encontro das paralelas

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Aquela história que paralelas não se encontram em nenhum ponto só funciona para mentes matemáticas – ou nem para elas.  No caso da arte, e mais especificamente da Flip, essa não passa de uma falácia da ciência exata. A programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty é parte fundamental para o seu sucesso e grandiosidade. Sem tanta cobertura da mídia e da própria organização do evento, poucas pessoas têm a real dimensão de quanto culturalmente rica é esta festa sem que tenha estado presente em Paraty ao menos uma vez. Pelo que lemos nos jornais e vemos nas poucas matérias destinadas ao assunto na TV, a Flip pode soar um encontro de intelectuais famosos para dissertar sobre temas específicos, divulgar livros e distribuir autógrafos. Uma grande palestra literária paga e inacessível para a maioria. Não se engane. O termo “Festa Literária” não existe à toa. Brinco dizendo que a Flip é minha Tomorrowland – aquela rave cheia de coisas mágicas e música eletrônica badaladíssima, que neste caso são substituídas por livros e toda forma de arte. As casas (dá-se esse nome porque elas realmente ocupam as casas históricas e lindas de Paraty) com programação extraoficial muitas vezes trazem um conteúdo ainda mais interessante e rico que as mesas principais, e a melhor parte é que todos esses eventos são gratuitos. É impossível que uma pessoa desfrute de todo repertório da Flip pois vários debates e saraus acontecem simultaneamente, é preciso fazer escolhas e elas são difíceis. Eu fiz as minhas e destaco o que achei de melhor nesse lado B da festa.

Casa Folha

A Casa Folha – como próprio nome já diz do jornal Folha de S. Paulo – é sempre uma das casas que traz palestrantes e assuntos mais quentes e disputados. Este ano não foi diferente. Logo no início do Centro Histórico, próximo à Matriz, onde aconteciam as mesas principais, era normal o amontoar de pessoas tentando uma brecha para ver e ouvir nomes como: Lázaro Ramos, Dráuzio Varella, Fernanda Torres, Luiz Felipe Pondé, entre outros. A tarefa não é fácil. A Casa é muito pequena, arrisco dizer que no máximo 80 pessoas cabem ali dentro e o acesso é feito por duas portinhas mínimas. É um caos. Mas vale a pena. As pessoas que conseguem esse disputado lugar ficam de 1h30 a 2h na fila que não para de crescer. Embora saibam que as vagas são limitadas, muitos permanecem aguardando para no caso de alguém não aguentar a pressão de estar perdendo outras atrações por estar na fila acabar desistindo – o que é comum, eu mesma fiz. Renúncia, perdas, escolhas, elas estão em todos os cantos. Então, é precioso que antes de ir a Flip, você se inteire bem do que quer ver e se programe, sabendo que terá que chegar com antecedência e esperar enquanto todo o resto acontece a sua volta.

Espaço SESC

O SESC é que o mais oferece diversidade de palestras, mostras, exposições, entretenimento, shows, exibições de filmes e tudo que você possa imaginar. Para ter ideia, o catálogo do SESC da Flip 2017 tinha mais de 100 atrações! Com três espaços diferentes – dois no Centro Histórico e um em bairro mais afastado e transporte gratuito até lá – era possível fazer oficinas de cerâmica e participar de debates sobre Jornalismo Cultural com jornalistas experientes. Nesse espaço, as intervenções artísticas que permitiam interação fizeram sucesso. Destaco três delas:

  • “Cine Olho”, através de uma cabine era possível assistir até três curtas metragens com diferentes temas e menções à clássicos do cinema. O encanto das crianças com os filmes em preto e branco era apaixonante.

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  • “Palavra Paisagem”, a intervenção promovida pelo Coletivo Tralha visa estabelecer um diálogo sobre a ocupação do espaço público. Era possível deixar mensagens escritas de próprio punho e as crianças montavam e desmontavam o futuro com grandes caixas de letras espalhadas pelo gramado de uma das unidades do Sesc. O mural de colagens feito pelos integrantes do coletivo era um dos pontos mais fotografados. Se você quiser montar o seu e conhecer mais sobre esse projeto é possível pelo site:  Coletivo Tralha. 

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  • “Brennand: um espetáculo fascinante e bárbaro”, a exposição em homenagem ao pintor, escultor e ceramista pernambucano Franscico Brennand, um dos mais importantes do país, foi destaque durante toda a programação do Sesc. Além das obras impactantes expostas no gramado de uma das unidades, foi exibido o premiado documentário sobre a vida do artista com a presença do cineasta Walter Carvalho e feito um lançamento especial do livro “Diário de Francisco Brennand”, com reflexões e memórias do pernambucano de 90 anos recém-completados. Uma justa e bonita homenagem.

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A casa da Porta Amarela

Escondidinha em uma esquina do Centro Histórico, a Casa da Porta Amarela foi a minha descoberta mais apaixonante desta Flip. Destinada a escritores independentes, o espaço é cheio de poesia. Desde empenhados autores e artistas vendendo suas próprias obras, feitas com capricho e talento, até o quintal habitado por escritores, poetas e jornalistas, escrevendo em laptops sobre banquinhos e sentados na grama. Um cantinho que transborda e transpira criatividade e vontade de mostrar o que se faz.

Casa Amado – Saramago

A casa mais portuguesa de Paraty.  Criada em comunhão com a Fundação José Saramago, de Lisboa e Fundação Jorge Amado, de Salvador, esta foi a casa mais poética da edição da Flip. Com lançamentos de livros, mesas redondas, saraus, concertos e exposições, era um local sempre cheio, mas ainda assim aconchegante. O amável sotaque português era constante e a troca de cultura enriquecedora. Foi a primeira edição em que essa casa existiu, torçamos para que aconteça mais vezes. Destaque para Lilia Schwarcz, José Luís Peixoto – que estará na Livraria Leblon, no Rio, na próxima quinta-feira – Djaimilia Pereira, Ana Martins Marques e Eduardo Jorge.

Casa Libre & Nuvem de Livros

A política sempre é um tema muito presente na Flip, não há como ser diferente quando tratamos de  cultura, são assuntos intrínsecos. A Casa Libre (Liga Brasileira de Editoras) e a editora Nuvem de Livros foi a que mais trouxe o mote à tona. Com debates sobre Diretos Humanos, Direitos LGBT, políticas públicas, racismo e maneiras de formar leitores, o tom político foi constante. Sempre com debates democráticos e pertinentes. Destaca-se a presença de Lázaro Ramos, – onipresente nesta edição – Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Xico Sá e, com especial participação, Conceição Evaristo.

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Paulo Henrique Amorim: bom humor e autógrafos

Casa da Cultura – a Globo na Flip

Mais discreta nessa edição, a casa Globo funcionou na Casa da Cultura de Paraty. Os debates foram disputados e mais organizados, com distribuição de senhas em um auditório com mais estrutura para as palestras e também mais restrito. O jeito Globo de ser. Edney Silvestre, Antonio Prata e Fernanda Torres foram os principais nomes que participaram da programação. A Casa da Cultura de Paraty trouxe de SP um pouco do espetacular – e infelizmente destruído – Museu da Língua Portuguesa,  com projeções e obras que a Estação da Luz abrigava.

Os artistas de rua

Além das eventuais casas que são criadas para a Flip, os artistas de rua são essenciais para o respirar literário das calçadas irregulares de Paraty. Entre um olhar para as pedras e para frente, sempre uma atração para vislumbrar: a estátua viva, os índios e seus apetrechos, os cantores, os músicos, os pintores, os atores, os doces irresistíveis em seus carrinhos em cada esquina (sim, culinária também é cultura), os autores vendendo seus livros em bicicletas, os palhaços e malabaristas. A cada rua um suspiro e um encantamento, só estando lá para sentir.

Nem tudo são livros – nem flores

Apesar do clima sempre festivo e ordeiro da Flip, os protestos e reclamações fazem parte de um ambiente com visibilidade e engajamento social e político. Moradores de Paraty fizeram pequenos protestos durante a Flip, cantando os versos “É ou não é piada de salão? Durante a Flip tiraram o busão” expuseram a decisão da prefeitura de tirar de circulação os ônibus da cidade durante o evento. Além do pontual e legítimo protesto, os jovens que carregavam cartazes e megafones clamavam por uma educação de melhor qualidade, segurança e mais reconhecimento aos artistas locais fora da época da Festa Literária. Não podemos ignorar que Paraty é uma das cidades mais violentas do estado do Rio de Janeiro, com índices alarmantes de homicídios e tráfego de drogas.

Crise atinge Flip, mas diversidade salva

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Espantei-me ao descobrir que as mesas principais da Flip seriam realizadas dentro da igreja Matriz da cidade. A decisão foi tomada por corte de custos, já que o evento perdeu mais de um milhão em recursos comparado ao ano anterior.  De fato a estrutura foi prejudicada, em anos anteriores a logística da festa funcionou melhor e era mais fácil e agradável aproveitar o evento. No entanto, a escolha acertada de dar mais voz às minorias mitigou as dificuldades enfrentadas e garantiu o brilhantismo dos 5 dias de encontros dedicados à obra de Lima Barreto. A emoção sempre supera o luxo. Com mais mulheres e negros nas palestras e ruas, a Flip 2017 nos ensina que superar adversidades sempre será uma missão que enfrentaremos bem se pararmos para ouvir tudo e todos.

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